Jornal Médico Grande Público

Rui Cernadas: Tempos de crise
DATA
06/02/2009 05:07:58
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: Tempos de crise

Os tempos de crise servem para, provavelmente, em todos os cidadãos acentuarem os tons pessimistas e cinzentos, reforçando as desilusões e estruturando as descrenças  

rui_cernadas.jpgOs tempos de crise servem para, provavelmente, em todos os cidadãos acentuarem os tons pessimistas e cinzentos, reforçando as desilusões e estruturando as descrenças. Mas os tempos de crise são, em simultâneo e por norma, um tempo de aproveitamento de oportunidades e de audácia, ou de janelas que se abrem episodicamente. É tempo de tudo pôr em dúvida ou questionar, ao mesmo tempo que todos os embustes e crendices podem pegar... É então que me recordo dum livrinho lido há muitos anos, de Jules Poincaré, célebre filósofo e matemático da transição dos séculos XIX/XX, intitulado "A Ciência e a Hipótese"... Havia uma ideia que, mais ou menos, dizia que o duvidar de tudo ou o em tudo crer, são ambas excelentes e cómodas soluções, sobretudo porque ambas nos poupam à necessidade de pensar!

Talvez marcado por tal leitura, me tenha mantido ao longo desta vida, permanentemente equidistante entre aquelas duas atitudes...

Quando em finais de Outubro de 2005, o então Ministro Correia de Campos, avançou com a publicação em Diário da República da "Missão para os Cuidados de Saúde Primários", o espectro desfavorável de hoje não estava, nem perspectivado, nem esboçado...

A reconfiguração dos cuidados primários em unidades de saúde familiar e nos agrupamentos de centros de saúde, bem como o seu difícil, longo e complexo processo de instalação, a extinção das sub-regiões de saúde e toda uma nova filosofia centrada no utente estão aí!

A Missão terá, indiscutivelmente - não importa aqui e agora discutir a que preço - conseguido atingir os seus objectivos e relançar os CSP em Portugal. A dois níveis óbvios: o da motivação dos profissionais instalados no sector e o da adesão das populações aos novos projectos e desafios propostos.

Mas tempos de crise são também períodos perigosos!

Por diversas razões.

Até o senhor Procurador-geral da República o admite, ligando a crise à possibilidade do aumento da criminalidade perigosa...

Razões que incluem o perigo do desânimo e do baixar de braços, as inércias paralisantes, os receios de investir e de apostar, a dificuldade em conseguir créditos, a parcimónia em efectuar gastos, a invocação de critérios estreitos de avaliação económica...

Curioso foi que, antes da instalação da Crise, ninguém se preocupasse com as mesmíssimas razões que, então, poderiam ter atenuado a queda neste precipício...

Vem isto a respeito da aplicação dos princípios económicos ao tratamento dos doentes e das doenças!

Li no "Jornal de Notícias" (05/01/2009), declarações do nosso Bastonário, Dr. Pedro Nunes que, a propósito de uma entrevista do Presidente do Conselho de Administração do Hospital de S. João, no mesmo Jornal (dias antes), defendiam a ideia de que "perdemos a noção das proporções no que diz respeito à saúde".

Acho que o Dr. Pedro Nunes tem montes de razão.

Principalmente porque, os economistas e quantos se deixam guiar exclusivamente pelas suas reflexões, insistem nessa mania de impingir a toda a gente a noção de que a Saúde é um mero produto ou serviço como qualquer outra coisa!

Ora, tratar um doente não é gerir a saúde. Da mesma forma que tratar os doentes todos de um país, não é gerir o ministério da saúde!... Ou como ter e educar três ou quatro filhos, não significa que todos se desenvolvam do mesmo modo, sejam igualmente capazes, etc.!

Qualquer esforço ou tentativa de análise numérica - ou simplesmente economicista - dos actos médicos praticados num hospital, numa região, numa sociedade ou num estado, é um desafio possível em modelo, mas os seus resultados serão inequivocamente enviesados, falsos, ilegíveis e balofos.

Poderia encher páginas deste Jornal com argumentos múltiplos em defesa desta posição.

Mas a essas pessoas, sábias ou sabidas, das finanças e das economias, das supervisões e das gestões, dir-lhes-ia com o maior respeito e idêntica tolerância: basta!

Basta de brincarem com a saúde dos cidadãos e com o seu futuro.

O estado a que conduziram o País, a Europa e o Mundo, prova à saciedade como os seus cálculos e premissas, as suas orientações e lições furaram, abalaram e ruíram!

Deviam, em vez de ensinar e de doutrinar, ler, por exemplo, um livro como o "Ensaio Sobre a Cegueira", do portuguesíssimo Nobel José Saramago.

Mas se a miopia for acentuada ou a dificuldade em ler for grande, pelo menos vejam o filme baseado no mesmo livro...

Talvez percebam, assim, como a ficção, no que toca à vida e à saúde dos homens, se confunde num ápice. E como não há respostas, ou sobram problemas quando, em vez de coisas, produtos, bens ou serviços, lidamos com seres humanos!

É tempo de tirar a voz a quem insiste em gritar.

Poupariam as cordas vocais... Salvar-nos-iam os neurónios!

 

Rui Cernadas

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas