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DATA
06/02/2009 05:13:42
AUTOR
Jornal Médico
Os equívocos da solidariedade – I

Pergunto-me se o conceito de solidariedade não se estará erodindo, tal como sucedeu ao da caridade. Fora do léxico religioso, a caridade tem uma conotação algo negativa, evocando hipocrisia, arrogância, enfim, algo nada recomendável às pessoas de bem

 

 

"A acompanhar a moedinha, daria também uma peça de roupa usada"

Mário Salgueiro in ‘O conduto'

 

 

Pergunto-me se o conceito de solidariedade não se estará erodindo, tal como sucedeu ao da caridade. Fora do léxico religioso, a caridade tem uma conotação algo negativa, evocando hipocrisia, arrogância, enfim, algo nada recomendável às pessoas de bem. A imagem que comummente evoca o vocábulo caridade é a do óbolo dado por alguém (razoavelmente rico) para algum humilde (humilhado, dir-se-ia, pela superioridade do caritativo) necessitado. Contudo, a caridade, tal a minha Mãe me ensinou em pequenino, era algo de sublime. Tratava-se de um sentimento (e não dum gesto de oferta vazio) para com os que sofrem. A materialização da caridade na dádiva de um bem material não era nem essencial nem o cerne deste pretérito conceito de caridade. A caridade implicava empatia para com o padecimento de outrem. Eventualmente, se fosse caso disso, podia incluir um donativo de bens com o fito de mitigar uma ocasional situação de necessidade. Mas este donativo era apenas um complemento e não o princípio da caridade. Por outro lado, contrariamente à degenerada ideia actual de caridade, esta não se estabelece entre patamares de riqueza diferentes, em sentido necessariamente descendente. Isto é: a caridade não implicava uma relação entre ricos e pobres, na qual os segundos seriam sempre os destinatários. Um multimilionário que perdeu um filho podia receber refrigério sob a forma de palavra consoladora dum desempregado. Isso era caridade. 

Mas com o passar do tempo a caridade abastardou-se. Esvaziada do componente afectivo (que era a sua alma) empobreceu e passou a resumir-se ao acessório: transferência de propriedade. Por outro lado, entrou em cena uma faceta interesseira, exibicionista, que corrompeu definitivamente o conceito inicial. A caridade degenerou na caridadezinha - acto sem humanidade que visa enaltecer o emissor e, frequentemente, criar laços de dependência por parte de quem recebe.

No conto "O conduto", publicado na VIII edição do Lado Humano da Medicina, Mário Salgueiro descreve magistralmente esta falsificação da caridade.

O termo solidariedade veio preencher o vazio deixado pela corrupção da caridade em caridadezinha, embora a sobreposição dos conceitos não seja completa. A diferença reside no facto de nem sempre aquele que recebe a solidariedade se encontrar numa posição de dificuldade ou aflição, já que podemos solidarizamo-nos, por exemplo, com uma postura de força e não necessariamente com o fraco ou abandonado pela sorte. Ora isto não se passava na caridade. Mas aparte este pormenor, podemos considerar como quase sinónimos caridade e solidariedade.

Mas já caridadezinha e solidariedade têm bem pouco em comum e muito de antagónico.

O imobilismo é apanágio da caridadezinha. Segrega uma hierarquização que visa solidificar as desigualdades e consequente distribuição assimétrica de poder. É monótona, porque se restringe à esmola. É modesta nos objectivos e reaccionária na visão, porque aponta apenas para apaziguar a penúria e não para mutações na ordem económica. Na caridadezinha a dádiva é uma mercê do rico, da qual será recompensado, se não neste, pelo menos no outro mundo. Enfim, uma actividade à qual se dignará dedicar se assim o entender, reservando-se para o pobre o direito a pedir e o dever de agradecer e manter-se passivo.

 A dicotomia superioridade/inferioridade (benemérito/receptor) não existe na solidariedade. A solidariedade implica mutabilidade: ajuda-se quem precise com o fito de deixar de necessitar de ajuda a prazo. O que hoje precisa de auxílio será amanhã o que auxilia; quem hoje dá, amanhã pode receber. Poucos são os que não têm qualquer coisa para dar e muito poucos os que não necessitem de qualquer migalha num dado momento, nem que seja de escuta activa. Lembrar-se-á o leitor de umas cheias colossais que assolaram a Alemanha na passada década, causando prejuízos monumentais. O Sri Lanka, pequeno país assolado pela guerra civil, foi sensível à tragédia que bateu à porta dos poderosos germânicos e ofereceu toneladas do afamado chá para repor as energias às equipas de socorro. Os moçambicanos, pobres entre os pobres, organizaram um concerto para angariar ajuda aos ricos alemães, que atravessavam um momento difícil. Também o que está recebendo algum tipo de solidariedade pode, ao mesmo tempo, estar fornecendo outro tipo de solidariedade a outrem. Um desempregado a receber subsídio de desemprego, por exemplo, poderá estar envolvido num programa de voluntariado.

Há pois, na solidariedade, uma certa democratização, uma tendência para o igualitarismo. Não será por acaso que falamos em corrente de solidariedade. A solidariedade amarra as pessoas umas às outras: não cria relações hierárquicas de dependência, mas laços de interdependência.

A solidariedade caracteriza-se também pela diversidade de iniciativas alternativas, isto é, não se restringe à dádiva. É multifacetada e aberta à inovação.

Enfim, podemos ver a solidariedade como uma forma de investimento. Descontando situações extremas, visa o fim da situação de dificuldade a que vem acudir, como já foi dito. Pretende-se que seja um recurso temporário com a mira no fim da necessidade.

Há menos de um século seria escandalosamente imoral pensar em emprestar dinheiro aos pobres. Todavia, Mohamad Yunus, um génio de maior vulto da Humanidade, veio demonstrar que emprestar aos pobres é, não só eficaz método de lutar contra a pobreza, como é tão ou mais humano que a esmola pura e simples. Para usar a linguagem dos nossos dias diríamos que é ético.

O facto de o filantropo ganhar dinheiro com a actividade solidária não deve melindrar sendo de todo irrelevante se o dador fica mais pobre ou mais rico com a acção solidária. Primeiro, porque ficou provado que é eficaz no seu objectivo: diminuir a pobreza. Em segundo, porque Yunus, ao emprestar dinheiro está também a fazer uma dádiva: a da dignidade.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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