Jornal Médico Grande Público

Anos de chumbo: II - O Poder inglório
DATA
24/04/2009 03:04:12
AUTOR
Jornal Médico
Anos de chumbo: II - O Poder inglório

A responsabilidade inerente ao exercício do poder é um fardo suficiente para inibir ou pelo menos contrabalançar a sede de poder

 

Todos gostam do poder, mesmo quando não sabem o que fazer dele
Benjamin  Disraeli

 

 

 

No anterior nº do JMF expus o meu cepticismo em relação à exaltação pelo empowerment do doente. Como o assunto não ficou esgotado retomemos o fio à meada.

Recapitulando: o poder é um instrumento e não um fim em si mesmo. O acto do poder divide-se em três fases: preparação, execução e avaliação. A responsabilidade inerente ao exercício do poder é um fardo suficiente para inibir ou pelo menos contrabalançar a sede de poder. O antigo paradigma que centrava o poder de forma exclusiva no médico (paradigma em larga medida ilusório) está moribundo. Descentrar o poder do médico para o utente/doente de forma entusiasta, como parece estar na moda, é perigoso para o próprio utente/doente. Prossigamos pois na análise do tema.

Na relação médico/doente há a considerar dois intervenientes, ou, se quiserem, dois poderes. O do doente e o do médico. Em termos simplistas podemos dizer que o poder do médico assenta na tomada de decisão terapêutica, inacessível à vontade do doente. Já no que toca ao cumprimento dessa decisão, o poder está do lado do doente, (excepção feita se este estiver inconsciente, for louco ou de tenra idade) sendo independente da vontade do médico.

Ora, isto só é verdade em teoria.

Na realidade, o poder do doente é mais limitado, mormente se estiver internado. Em primeiro lugar, se o desrespeito pelas decisões do médico for manifesto, arrisca-se a que este rompa a relação, o que se não for do interesse do doente o deixa dependente do poder do clínico. Por outro lado, a posição de fragilidade da doença pode depauperar o livre arbítrio do doente e fazer pender o poder para o lado do terapeuta. Por último, a personalidade do doente determina a sua propensão para aceitar, ou não, a autoridade médica.

O poder médico nunca foi tão absoluto como o propalado. Altas a pedido, recusas de se submeter a cirurgias, não adesão à terapêutica, recurso a opiniões de não médicos, não são de agora. No entanto, é verdade que as limitações do poder do utente/doente eram mais acentuadas no passado. O padrão clássico da relação que privilegiava o poder do médico tem sofrido contestação e os próprios médicos, em larga medida, abdicam dele sem resistência.

Por outro lado, o poder do médico decidir sobre o curso da investigação diagnóstica ou sobre a instituição terapêutica, também deixou ser soberano. No passado sê-lo-ia. Hoje, a pressão para influenciar a acção médica é facto consumado e o poder dos clínicos sai debilitado.

Em suma: o poder médico (embora ilusório) diminuiu e o do utente/doente aumentou. Vantagens para este? São mais que duvidosas! Porque o objectivo da demanda deixou de ser o fim (o bem-estar do doente) para se tornar na investidura do poder em si mesmo, que não passa de um meio. A questão é mais quem manda e não para quê. Ora, isto é um tremendo equívoco.

Talvez esse engano explique por quê o modelo de empowerment emergente assente essencialmente na segunda fase (execução). Convenhamos que, apesar do recurso à informação (indispensável a uma preparação sensata) se ter liberalizado, esta continua a ser incipiente, limitada a uma minoria e muitas vezes enviesado. Por isso, a primeira fase do processo de poder (preparação ou planeamento) é descurada e são as crenças e os mitos dos doentes que estão na base das pressões sobre o acto médico e sobre as suas opções.

Por outro lado, nem sempre a responsabilização por um mau resultado é dissuasora para o (ab)uso do poder por parte do utente/doente. Quando as consequências das más decisões são graves e evidente a sua previsão, é fácil que o doente recue e aceite a opinião do clínico. Mas quando não é esse o caso (ou porque as crenças do leigo sejam muito poderosas, ou porque as consequências não se reflictam sobre o próprio, como é caso de ECD sem custo/benefício positivo) prevalece cada vez mais a decisão do utete/doente. É o exemplo referido no passado número do JMF sobre a resolução dos pais californianos em não vacinarem os seus filhos contra o sarampo.

Mas perguntará o leitor: esta desconfiança perante o empowerment pretende, de alguma forma, legitimar o pretérito arquétipo do poder médico de cariz absolutista? De forma alguma. Entendamo-nos: os donos das doenças, dos corpos e das almas são os doentes! Não os médicos. Estes são os donos, quanto muito, dos conhecimentos e competências para lidar com as doenças. Nada mais.

Então em que ficamos? Hiperpoder médico, que não deixa de ser ilusório e se tornou indefensável ou empowerment irresponsável? Julgo que a saída desta contradição está no conceito de capacitação, a que a APMCG se tem vindo a referir. Capacitação do utente focaliza-se na 1ª fase do processo do poder (planeamento da decisão, que passa pelo acumular e tratar a informação). Quererá isto dizer que a tónica deve ser posta na transmissão de dados ao utente/doente, para o ajudar a decidir, delegar e/ou aderir melhor ao processo terapêutico. É óbvio que este processo de comunicação de informação não é simples. Mas na vida, afinal, são poucas as coisas simples.

 

Acácio Gouveia

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Editorial
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