Jornal Médico Grande Público

Desculpem mas eu li!: um dia de cada vez
DATA
24/04/2009 03:12:33
AUTOR
Jornal Médico
Desculpem mas eu li!: um dia de cada vez

Todos os dias, sem excepção, alguma coisa ou algum gesto, quando não alguma palavra, serve para pelo menos, nesse mesmo instante, nos manchar o dia ou a forma de viver esse tempo

rui_cernadas.jpgTodos os dias, sem excepção, alguma coisa ou algum gesto, quando não alguma palavra, serve para pelo menos, nesse mesmo instante, nos manchar o dia ou a forma de viver esse tempo. O que, bem vistas as coisas, é injusto no sentido em que a existência individual é tão curta e tão breve, quanto aqueles números relativos às gravuras pré-históricas do Côa, por exemplo, nos espantam... É sempre o problema, o velho problema, do tempo!

Para quem o perde, sempre muito escasso e para quem o ganha, sempre precioso.

Nas nossas consultas, no dia a dia, a gestão do tempo é também sempre muito complicada.

Faltam-nos minutos a cada contacto ou a cada telefonema, sobram-nos pedidos de consulta e de atendimentos diversos, invariavelmente.

A informatização da nossa actividade deu-nos, a mim pelo menos, uma outra percepção do tempo dispendido em cada consulta.

A Medicina perdeu a arte e adquiriu contornos de ciência ao minuto, com a necessidade gerada de cumprimento dos horários apertados e rígidos das consultas programadas no computador, como se pudéssemos ou devêssemos sempre enfiar todas as queixas e sintomas de cada doente - nos quinze minutos disponíveis - para o ouvir, consultar, avaliar, decidir e orientar!

Acredito, ainda, que a evolução tecnológica que quase tornou obsoletos os livros, as canetas e os papéis, no seu conjunto, há-de levar-nos, proximamente, a dispensar-nos... Tanto mais que a escassez dos médicos é uma constatação repetidamente evocada.

Lembro-me muitas vezes de Charles Kettering e das suas reflexões, para a propósito do futuro, dizer como ele que, "devíamos estar todos interessados no futuro, pois é lá que iremos passar o resto dos nossos dias"!

O doente há-de poder usufruir de uma nova via verde; beneficiaria de um chip qualquer que lhe estará implantado algures no seu corpo, dando-lhe acesso a uma cadeirita, num gabinete qualquer...

Então, poderá introduzir uma moedita, ou uma nota, conforme seja o seu estrato socioeconómico e falará para uma máquina sofisticada, à qual dará os dedos polegar e indicador para leitura digital e o olho para um estudo oftalmológico sumário...

E descalço, colocará o pé num pedal que lhe medirá a massa gorda e a cinzenta!

Terá opções adicionais: lamberá uma fibra celulósica que lhe medirá a capacidade caprina para seguir líderes e numa apertada ranhura penetrará o quinto dedo do lado activo, para medição objectiva do seu poder de meter cunhas...

A máquina, poderosa e fiável, determinará em escassos segundos um diagnóstico, a partir do qual em outros tantos segundos, emitirá uma prescrição terapêutica e, uma ou outra vez, complementarmente, um pedido de exame analítico ou imagiológico.

Nestes casos, provavelmente, serão mais escolhidos os doentes com sudorese profusa, a qual produzirá na máquina uma maior probabilidade de falsos-positivos, podendo até, em situações especiais, sobretudo no Verão, provocar cheiro a suor, falhas no funcionamento daquelas máquinas sensíveis, capazes de substituir os clínicos gerais...

Pelo contrário, no Inverno, as máquinas serão claramente melhores e farão esquecer aqueles médicos, dado que serão à prova de frieiras ou parestesias dos dedos, ou das constipações e gripes, revelando a enorme capacidade de não ter de lutar contra o frio ou as posturas vertebrais menos correctas...

Certamente alguns de vós pensarão que estarei a fazer futurologia, mas a verdade é que, queridos leitores, o futuro já começou e estamos às portas de um outro admirável mundo novo!

Huxley que se cuide, porque este regresso será bem mais poderoso, eficaz, económico e duradouro!

Principalmente porque, doravante, os nossos concidadãos vão passar a dispor do novo cartão de identificação pessoal, super-completo, ao também trazer os outros números indispensáveis ao usufruto de uma vida plena e feliz: o de contribuinte, o do SNS, etc....

As próprias fotografias digitalizadas são já um outro avanço significativo, poupando-nos ao sacrifício insolente e vexatório das fotos tipo passe dos estúdios ou das máquinas rápidas e foleiras.

De resto, deixam-nos lindos como se por artistas abstractos tivéssemos sido olimpicamente retratados...

O tempo é assim mesmo.

Implacável e conselheiro e juiz, em simultâneo.

Seria bom se pudéssemos viver um dia de cada vez.

E que cada dia fosse tão bom para cada um de nós que quiséssemos muito que, o seguinte, fosse igual...

E que um dia, afinal, quando fizéssemos as contas e as malas que sempre se devem fazer à partida, chegássemos à conclusão de que, valeu a pena o serviço, a estadia e a conta!

 

Rui Cernadas

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