Jornal Médico Grande Público

Desculpem mas eu li!... Valor e preço…
DATA
04/06/2009 09:09:34
AUTOR
Jornal Médico
Desculpem mas eu li!... Valor e preço…

algum iluminado mas visionário de mérito, descobriu-nos o "cognome" de "sinaleiros", designação um tanto ou quanto básica, mas que nos assenta bem, no sentido em que até já houve quem nos chamasse pior, desde "porteiro", "porta de entrada", "primeira linha", "trincheira", "portão", "antecâmara"  

rui_cernadas.jpgProvavelmente e em tempos de crise, muitos esperariam que, sob este título, se desenvolvesse mais um texto sobre economia e finanças abordando, desde as eventuais faltas de supervisão bancária do Banco de Portugal, à irresponsabilidade ou gestão danosa de pessoas, singulares e colectivas às quais, até há bem pouco tempo, ninguém atiraria um grão de areia...

Mas não, nunca seria capaz de vos explicar como milhares de depositantes de bancos, confiando os seus dinheiros economizados, os meteram em instituições de onde desapareceram, pura e simplesmente!

Nem consegui perceber como é que os bancos confiaram os seus cofres a pessoas e entidades que os fizeram sumir, em aplicações claramente especulativas, roçando os limites da ganância e da pouca vergonha...

Mas isso são, claramente, temas para mentes brilhantes e inteligentes que, conseguem do nada, fazer fortunas!

Não é, infelizmente, o meu caso.

A prática da Medicina Geral de Familiar (MGF) é uma actividade que impõe enorme motivação, agradece muita paciência e um permanente empenho.

Não foi em Portugal, nem o é ainda, uma especialidade fácil, nem cómoda.

À especificidade de uma actuação fora do ambiente hospitalar, somaram-se sempre dificuldades e entraves que, em boa verdade, fizeram dos clínicos gerais lusitanos, legítimos exemplares do melhor que o Darwinismo nos ensinou: a capacidade de adaptação e a evolução natural!

Lembro-me sempre do mesmíssimo e simples exemplo, o do tempo de resposta para uma consulta médica, quando penso nestas questões...

Todos se lembram, com certeza, das inúmeras reportagens televisivas, em horários dito nobres (que raio de nobreza rasca, esta que confere o direito generalizado à estupidificante onda telenovelística...), a mostrar utentes de centros de saúde, de madrugada, ou em longas filas de espera, para obterem o direito a uma consulta de clínica geral no próprio dia!

E na generalidade dos casos, obtinham-nas, com efeito, no próprio dia ou até dois dias depois...

Mas o atraso na resposta a consultas hospitalares, ou o intervalo entre estas, não merecia atenção ou reparo.

Talvez por isso, algum iluminado mas visionário de mérito, descobriu-nos o "cognome" de "sinaleiros", designação um tanto ou quanto básica, mas que nos assenta bem, no sentido em que até já houve quem nos chamasse pior, desde "porteiro", "porta de entrada", "primeira linha", "trincheira", "portão", "antecâmara" e sei lá o que mais...

O facto de estarmos na primeira linha do SNS, como parece consensual e muitos preferem dizer, não nos garantindo melhores vistas, oferece-nos ainda o risco de levar de quem vem de frente e não vem bem, nem vem por bem, ou a possibilidade de, face a algum desvario ou pânico, ser atropelado por quem fica ou vem atrás de nós...

Ainda assim, somos quem ajuda tudo e todos na prevenção e na orientação clínica de tudo e de mais alguma coisa, mesmo quando a atitude prioritária exigida e imposta possa ser a curativa!

O mais engraçado e assustador, é a facilidade com que os nossos pares, quer dos hospitais, quer das sociedades científicas, nos remetem e transpõem as centenas de "obrigações" e de "deveres", quase diria as competências, para diagnósticos precoces, rastreios atentos, atenção redobrada, follow-up, prevenções secundárias, patologias de milhares ou de raridade, numa espantosa ânsia de descarga de consciência e de transferência de responsabilidade!

Felizmente, algumas vezes, lemos ou ouvimos, com gratidão, dizerem-nos que devemos estar "atentos aos sinais de alerta", embora o "diagnóstico definitivo deva caber ao médico hospitalar" de uma ou outra especialidade...

E melhor ainda quando, raramente, a gente depara com alguém que profere - lapidarmente - a sentença de que "a Organização Mundial de Saúde recomenda que determinado doente seja seguido por um médico especializado"...

Malheureusement, como dizem os franceses, nós os clínicos gerais, não fomos favorecidos pela ordem de escolha, ficando com o que os outros não quiseram.

Na verdade, o conceito de pessoa, tão defendido e compreendido na nossa actividade, é em fases de crise, como a que atravessamos, mais exigente e na atitude do médico mais necessária ao entendimento do indivíduo como um ser total.

Muitas das depressões que tratamos, nem são depressões...

Encontremos-lhes um emprego, um posto de trabalho ou resolvamos-lhe um quadro de separação ou de toxicodependência de um filho ou de alcoolismo de um dos cônjuges e, como num truque digno de espectacular magia, o problema desaparece!

Os médicos da MGF são peões ou soldados, prontos para tudo, aptos a auxiliar em todas as idades e sexos e raças e credos e partidos...

Há coisas que valem muito e que custam muito pouco!

É o problema que, afinal, se não deve confundir: valor e preço...

 

Rui Cernadas
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Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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