Jornal Médico Grande Público

Do Humor como Ferramenta
DATA
22/06/2009 08:57:19
AUTOR
Jornal Médico
Do Humor como Ferramenta

Na vida profissional do médico de família, as ocasiões de entrevista íntima com as partes trágicas da vida dos seus doentes são múltiplas. A aproximação entre ambos, que resulta da exploração dessas ocasiões, é muito viva e por vezes assustadora  

(Louvor de Santos Fernando e Ramón Gómez de la Serna)

«Nas doenças do pulmão é preciso fomentar a alegria e a fantasia do pulmão. Tem destino fatal o pulmão que fique entregue à tristeza»

Ramón

 

jorge_nogueira.jpgNa vida profissional do médico de família, as ocasiões de entrevista íntima com as partes trágicas da vida dos seus doentes são múltiplas. A aproximação entre ambos, que resulta da exploração dessas ocasiões, é muito viva e por vezes assustadora. Também é verdade que a qualidade do contacto depende não tanto do tempo gasto na consulta, como da intensidade que é possível concentrar nesse tempo, muito ou pouco. Por outro lado, o médico de família é tanto mais fiel à sua vocação quanto mais são as formas de necessidade de cuidados a que dá resposta (McWhinney). Por exemplo, acompanhar a gravidez da mãe, visitar o avô doente em casa, reparar nas dificuldades do irmão mais velho, suturar o pai que se feriu no seu trabalho, etc. Na tipificação dos vários passos da consulta (ler Vítor Ramos no último número da Revista de Clínica Geral), há sempre alguns aspectos que sinto ausentes, talvez por serem intraduzíveis em sistema, ou porque iam complicar os sistemas existentes. Porventura só a narrativa afectuosa, afectivamente empenhada, que toma partido, permite dar conta desses aspectos, nomeadamente: a importância do tipo de consulta para o desenvolvimento dos seus vários passos - e em Clínica Geral sou capaz de tipificar para cima de trinta (assim de repente) -, ou para a própria existência e formulação desses vários passos. O que faz com que a duração provável de uma (boa) consulta de Clínica Geral seja algures entre 5 e 50 minutos, uma duração de 15 minutos previamente definida e igual para todas as consultas e todos os doentes não faz o menor sentido, é mesmo contra-natura.

Outro aspecto que sinto ausente dos esquemas de consulta, mesmo os mais complexos e pormenorizados, ou sobretudo esses, é o estilo do médico, não falo do médico estiloso, isso é ainda outra coisa, mas do material que utiliza, para além do estetoscópio e do martelinho de reflexos (?). Por exemplo o humor. O humor cria a distância que permite a comunicação de afectos intensos sem "cair no colo" do outro. Desencadeia cumplicidades que facilitam a realização de gestos semiológicos virtualmente invasivos com respeito pelo mundo do outro e em ambiente psicológica, e portanto também fisicamente, confortável. Tem ainda uma virtude anti-depressiva assinalável, e um bom humorista é quase sempre uma pessoa nuclearmente triste que faz do humor um remédio para a solidão e a angústia: um bom remédio, de preferência. Li há pouco, não peço desculpa, ao contrário do colega Rui Cernadas, dois autores que exprimem com felicidade esses vários traços do humor, o espanhol Ramón Gomez de la Serna(1), e o português, injustamente esquecido, Santos Fernando(2). A referência ao humor como contra-veneno, antídoto da tristeza, é constante em ambos, leia-se a citação que coloquei no início deste artigo, como dizia/cantava Brassens, «tous les moyens sont bons aux médecins de l'âme»(3), ou de como o humor combate a doença. «O famoso humorista», diz Santos Fernando, «deixando tombar uma lágrima no anis, disse em voz sumida:

- Os homens são complexos, as mulheres são enigmáticas e a vida feita de charadas é uma grande tristeza». Uma forma subtil que assume a tristeza é a indiferença, uma falsa tolerância que se parece mais com a ausência e o vazio, e contra a qual o verdadeiro humor, como o de Ramón e o de Santos Fernando, também se manifesta. Por exemplo Ramón compara-a a uma espécie de encolher de ombros, que vale por um "estou-me nas tintas", e diz: «há nos ombros um grande idealismo e uma grande eloquência», e Santos Fernando serve-se dele para desenhar a figura improvável do nobre que investiga o amor, o Tio-Barão de Cabrela e Lampaça, no livro "Consolação número três». Diz ele: "Pouco se lhe dava a fidalguia e gostava de dizer: «Amolo a folha da espada na pedra brasonada do meu solar». Estava-se nas tintas, era o que era".

Além de que é um poderoso protector contra a loucura. Resta-nos pois o humor para não ficarmos completamente doidos.

 

1 - Ramón Gómez de la Serna: «O médico inverosímil», Edições Antígona, Lisboa, 1998
2 - Santos Fernando: «Os cotovelos de Vénus», Europa-América, Lisboa, 1963, e «Consolação número três», Círculo de Leitores
3 - «Todos os meios servem aos médicos da alma», da canção «La fessée», no disco «Supplique pour être entérré dans la plage de Sète»

Jorge Nogueira

 

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Editorial
Rui Nogueira
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