Jornal Médico Grande Público

A ideia do Médico-tutor
DATA
06/07/2009 10:56:48
AUTOR
Jornal Médico
A ideia do Médico-tutor

A Medicina é, a cada dia mais, uma ciência complexa bem longe dos tempos e do patamar de conhecimentos que, um dia, o também médico e escritor Fernando Namora nos retratou nos seus "Retalhos da Vida de Um Médico"...  

rui_cernadas.jpgA Medicina é, a cada dia mais, uma ciência complexa bem longe dos tempos e do patamar de conhecimentos que, um dia, o também médico e escritor Fernando Namora nos retratou nos seus "Retalhos da Vida de Um Médico"...

A fase dum saber exclusivamente biológico evoluiu numa sucessão psicossomática e, mais tarde, bio psicossocial.

Ao mesmo tempo, os médicos de clínica geral tornaram-se, ao nível do discurso pelo menos, uma quase figura de culto universal, a quem para além das milhentas e bafiosas tarefas burocráticas atribuídas, se consagram outros tantos deveres de atenção e obrigação nas áreas dos rastreios, dos diagnósticos precoces, do esforço e investimento na educação para a saúde, no investimento social e implicações curativas!

De curativa a preventiva, desejar-se-ia que pela ordem inversa, sem esquecer a componente educacional...

Valha-nos que, depois da ameaça séria à extinção da espécie, em Portugal, o Governo finalmente entendeu a gravidade dessa possibilidade e, em duas ou três penadas sucessivas, avançou com a chamada Reforma dos Cuidados de Saúde Primários e, com ela, duas medidas determinantes para o futuro dos cidadãos:

- Primeiro, o aumento e aposta claras na abertura de vagas para a Especialidade de Medicina Geral e Familiar (MGF) e;

- Depois, a passagem do Internato da MGF de três para quatro anos, respondendo aos apelos e às óbvias necessidades dessa expansão temporal formativa.

A ligação do clínico geral aos seus utentes merece alguma reflexão, desde logo pelo seu aspecto conceptual e pela abrangência, de natureza holística que se lhe reconhece.

A própria organização do processo de inscrição em torno da unidade - família - reforça e justifica tal abordagem.

Os avanços experimentados pelas ciências médicas, nas últimas décadas, tornaram impossível que haja médicos que saibam o suficiente de todos os ramos e especialidades da Medicina...

Salvo, naturalmente, os das séries televisivas, mas esses são mesmo artistas...

O saber enciclopédico está limitado e em permanente risco de desactualização.

Neste sentido, todos os médicos têm a obrigação de se fazer rodear e acompanhar de outros colegas, para a melhor compreensão global e específica e controlo adequado da situação de um eventual paciente!

A figura do médico assistente adquire sempre uma importância redobrada, quando um doente é enviado para um hospital.

É que, se por um lado, lhe compete a programação dos controlos regulares e periódicos, de rotina, do mesmo doente, por outro, face à actuação de outras especialidades, cabe-lhe a função de coordenação de tais intervenções.

Porém, em situações de agudização e/ou urgência ou imprevisto, o paciente vai ficar transitoriamente confiado a instituições e meios diferenciados, mas desconhecidos, entre variados serviços médicos e cirúrgicos, de diagnóstico e terapêutica, onde nada lhe é familiar, tranquilo ou perceptível...

A questão agrava-se quando, face à orientação e participação de inúmeros serviços e médicos e outros profissionais de diferentes áreas de especialização, o indivíduo se percebe "perdido" e "confuso", sem informação, nem metas à vista.

O paradoxo passa pelo facto de, o hospital, visto pela sociedade como uma resposta tecnológica, um quase "santuário" na expressão julgo do Dr. Mário Moura num prefácio que li há anos, se transformar num local bem mais enigmático para os que dele precisam.

O exemplo da patologia oncológica será paradigmático!

É pois nestas circunstâncias que, invocada pelo doente e/ou familiares, a ajuda do médico assistente ou de família, se torna querida.

E é assim que, também este, conhecerá algumas relativas dificuldades, sobretudo quando pensamos em grandes centros, de tipo urbano e em hospitais estruturados em grandes unidades, de alguma impessoalidade e frieza.

A ideia do médico-tutor, enquanto figura de apoio e gestão do doente, parece indispensável nos dias de hoje.

Deverá ser escolhido de entre os que tratam o doente, proporcionando-lhe formação específica para esse exercício e privilegiando alguma capacidade e motivação subjacentes.

O estímulo que uma relação de proximidade, de conhecimento e de confiança entre o doente e o médico-tutor garantiria, encontraria eco e potenciaria o papel e função do médico de família, enquanto terceiro elo deste sistema de comunicação e apoio ao doente...

Às vezes, coisas complicadas tornam-se simples quando há interfaces capazes, ou como digo muitas vezes, uma ponte aproxima sempre as margens, encurtando distâncias e tempos da transição!

Rui Cernadas
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Editorial
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