Jornal Médico Grande Público

Da Oração como Ferramenta
DATA
06/07/2009 11:03:09
AUTOR
Jornal Médico
Da Oração como Ferramenta

A uma doente que certa ocasião me quis oferecer uma estatueta de santo, matéria de boa sorte e penhor da sua gratidão, respondi que não podia aceitar visto não ser crente. Ela estremeceu, e percebi que ela ficou a temer pelo meu futuro, no outro mundo ou porventura já neste  

«Todo-o-mundo é louco.... Reza é que sara da loucura»
João Guimarães Rosa (1)

 

 

jorge_nogueira.jpgA uma doente que certa ocasião me quis oferecer uma estatueta de santo, matéria de boa sorte e penhor da sua gratidão, respondi que não podia aceitar visto não ser crente. Ela estremeceu, e percebi que ela ficou a temer pelo meu futuro, no outro mundo ou porventura já neste. A verdade porém, é que o meu ponto de vista não é assim tão simples de enunciar: se é apressado decidir que Deus existe, não é menos leviano partir do princípio de que Ele não existe. Leviano e arrogante: se Deus não existe, posso fazer o que me apetecer, sem culpa nem castigo (Dostoievsky). No outro extremo, se Deus não existe, toda a responsabilidade, tanto pelo mal como pelo bem que me acontecem, recai exclusivamente sobre mim e sobre as minhas escolhas. O peso é tão grande que há quem prefira defender-se - psicologicamente, quero dizer - atrás da noção de Acaso. Porém, se o Acaso é determinante, eis-nos perante outro Nome para a Divindade, Deus e o Acaso são um só. Por mais voltas que se dê.

Deus existir é um bom argumento para se poder descansar da responsabilidade absoluta. Ao mesmo tempo que é uma boa oportunidade para ajoelhar e agradecer, o que só pode fazer bem à nossa humana arrogância, à nossa blasfema suficiência. Uma oportunidade para quem sofre um problema de saúde, ou receia vir a sofrer: a crença em Deus permite-lhe relativizar a acção do ser humano - médico que lhe presta cuidados. Para isso não é preciso acreditar em Deus, dir-me-ão alguns, pois não mas ajuda, respondo eu.

Uma oportunidade também para quem presta os ditos cuidados: habituados desde cedo a fazer o papel de Deus, os médicos tantas vezes funcionam como autênticos aprendizes de feiticeiro que facilmente adquirem a arrogância de quem é suposto ter sempre uma solução, escondida ou aparente. Ajoelhar e agradecer só lhes pode fazer bem. Como diziam os médicos da Idade Média e do Renascimento, «je le pansai: Dieu leguérit»(2), eu não fiz mais que tratá-lo, a cura pertence a Deus. Até a morte pode ganhar um sentido, em perspectiva para o próprio, em realidade para a família e para o médico, que assim garante repouso para o seu hipertrofiado sentido de responsabilidade.

Jorge Nogueira
1. João Guimarães Rosa: Grande Sertão: Veredas, Livraria José Olympio Editora, 14ª edição, Rio de Janeiro, 1980
2. Ambroise Paré, citado em várias publicações.    

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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