A banhos com o médico de família
DATA
22/09/2009 10:37:55
AUTOR
Jornal Médico
A banhos com o médico de família

Todos convivemos com a Falácia Romântica segundo a qual quem conhece melhor os doentes é o médico de família. É um argumento muito utilizado pelas autoridades de saúde, por muitos utilizadores do sistema e por colegas de «outras» especialidades.

Mulher doente mulher para sempre

Ditado

Domingo é um dia de festa porque cozo um ovo para o pequeno-almoço

Suu Kyi(1)

 

Aviso: inclui aforismos da MBEI - Medicina Baseada na Evidência Intuitiva, apoiada nas provas científicas mais frágeis e refutáveis, e por isso virtuosas.

jorge_nogueira.jpgTodos convivemos com a Falácia Romântica segundo a qual quem conhece melhor os doentes é o médico de família. É um argumento muito utilizado pelas autoridades de saúde, por muitos utilizadores do sistema e por colegas de «outras» especialidades.

O próprio médico de família veste essa farda de gala e pavoneia-a orgulhosamente. Por exemplo, é preciso passar uma declaração médica para obter ou renovar a carta de condução. Diz a Falácia: "quem melhor do que o Médico de Família (aqui com letra grande) para conhecer o doente e emitir a dita declaração com o devido rigor?". O doente entra numa situação de doença crónica com recuperação escassa, diz a Falácia: "é o Médico de Família que conhece o doente e deve dizer se ele pode continuar a trabalhar ou não", pouco importa se o doente entretanto vai a uma Junta de pessoas que supostamente "não conhecem o doente" e lhe interrompem a baixa sem perguntar a ninguém.

Conhecer o doente depende das condições - internas e externas - do médico para fazer descobertas ("diagnósticos"), e do doente para fazer revelações, condições que se criam e desenvolvem ao longo do tempo, umas vezes a favor outras contra aquele conhecimento, sempre incompleto e frequentemente elusivo ou mesmo enganador. Pergunta: são os pais quem conhece melhor os filhos? Quando quero uma opinião independente sobre alguém, é aos pais ou familiares próximos que me dirijo? Mas é claro que dá muito jeito ter alguém que nos poupe tarefas incómodas e desperdiçadoras de tempo («time-consuming»), como preencher documentos enfadonhos quando não desnecessários. "Quem melhor" do que o médico de família para as cumprir? Esse especialista da papelada, no sábio dizer do meu colega cronista, e cronista colega, Acácio Gouveia. Ele que "conhece" tão bem os doentes, calha bem!...

Aforismo: ao dizer que determinado exame ou medicamento reduzem a mortalidade para certa doença, quer-se dizer que eles aumentam a imortalidade para essa doença? Reduzir a mortalidade equivale a aumentar a imortalidade? Somos hoje menos mortais do que há 50 anos? Ou mais imortais?

Este ano fui às termas. O ambiente tem qualquer coisa de religioso: o cumprimento escrupuloso de um ritual, de uma rotina ou regime, é comparável à repetição ritualizada de gestos que se encontra um pouco em todas as religiões, do cristianismo ao budismo, do Islão ao hinduísmo. Além de que as virtudes terapêuticas do "regime" são também elas matéria de fé - para o bem e para o mal, isto é, para melhorar como para não melhorar. Embora à fé termal, para uma semelhança mais perfeita com a fé religiosa, lhe falte a crença no milagre.

Encontram-se nas termas - ainda - muitos daqueles que fazem da doença um modo de vida, ou da vida uma variante de doença: amarelos, olheirentos, cara de quem provou e não gostou. Mais mulheres: à espera da água redentora, cumprindo a sua via-sacra diária, pude contar, ordeiramente alinhados contra uma parede, em 25 pacientes, 21 mulheres e 4 homens. Em cada 6 pessoas, só 1 é do sexo masculino. Deles talvez seja possível dizer, como o ditado, "mulher doente mulher para sempre" - dessa vasta maioria de mulheres, e da pequena minoria de homens de quem o ditado não fala e nos quais me incluo. Supondo que o ditado tenha alguma razão, e eu acho que tem, ou não seria ditado, o que é que os pode fazer durar "para sempre"?. Porquê a longevidade, a pouca mortalidade (ou a muita imortalidade?)? A relação que os frequentadores destes locais vão desenvolvendo entre si ao longo do tempo é de molde a fazer-me supor que estamos perante a doença que socializa, por oposição à doença que isola. Ponho a hipótese de que aquilo que aumenta a duração, acrescentando anos a estas pessoas, seja precisamente essa socialização. De facto, a doença que isola mata bastante mais cedo.

Enquanto estava a ser vigorosamente massajado, reparei que a massagista quase não falava comigo. Ocorreu-me esta metáfora da relação de ajuda: quanto mais mexemos no corpo dos doentes, menos usamos as palavras. Como se houvesse uma quantidade fixa de comunicação para usar, dividida entre verbal e não verbal: quando aumenta a não verbal reduz-se a verbal e vice-versa. Quanto mais mexemos nos nossos doentes, preocupados com a tensão, com o peso, o perímetro abdominal e sei lá que mais, menos falamos com eles, mais pesado se torna o nosso silêncio, apenas quebrado pelos ruídos dos nossos potentes aparelhos de medição. O médico de família, que se atreve a mexer no corpo dos seus doentes porque é também biomédico, será que os conhece? Não é certamente por acaso que os médicos do psico-social exclusivo, os psiquiatras, fazem lei do princípio de não tocar no corpo dos doentes, atribuindo assim todo o campo mental ao poder absoluto da palavra. Resta-nos provar que é possível fazer de outra maneira, e à custa de quê. Entretanto os especialistas biomédicos reclamam de nós outras coisas. Por exemplo os urologistas: numa acção de formação, um deles afirmava que é preciso fazer o toque rectal aos homens entre os 45 e os 50 anos, e que fazê-lo aos nossos doentes é só uma questão de decisão - nossa, alegadamente. Não creio que o médico de família possa concordar com isto. Dizia uma colega que não o faz porque tem o dedo pequeno. Daqui decorre que os urologistas teriam o dedo em questão, o 2º da mão direita ou esquerda para os direitos ou esquerdinos respectivamente, mais comprido do que os médicos de família, uma espécie de anomalia genética, não sei se nossa se deles. É óbvio que o problema não está no comprimento do dedo: é que para os urologistas até é fácil, eles usam menos as palavras.

1. in Jornal «Público», edição de 13 de Agosto

Jorge Nogueira

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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