Jornal Médico Grande Público

Chego ao céu… Mas volto!
DATA
25/02/2010 08:56:19
AUTOR
Jornal Médico
Chego ao céu… Mas volto!

Os tempos têm decorrido frios e pouco simpáticos, algo baralhados entre o cumprimento das obrigações previstas pelos calendários e as modificações provocadas no clima e no ambiente pelos humanos!

 
Os tempos têm decorrido frios e pouco simpáticos, algo baralhados entre o cumprimento das obrigações previstas pelos calendários e as modificações provocadas no clima e no ambiente pelos humanos!
Já se passaram as festas do fim de ano e as natalícias, perdidas entre montanhas de problemas, de conflitos e de incertezas, que muito pouco espaço deixarão, na verdade, para folias e brincadeiras…
Já passou também a história da Cimeira de Copenhaga e das balelas sobre a salvação do planeta e da humanidade, sendo certo que cataclismos e desgraças sempre as houve e que o desaparecimento das espécies, às mãos dos homens, não será diferente do que outros homens tentaram, em outros tempos, fazer aos seus semelhantes!
Já passaram ainda as muitas eleições que entretiveram os lusitanos durante vários meses, ainda que a sua alegria e adesão, retratada nos actos e percentagens eleitorais registadas, não corresponda à importância que se lhes atribuiu ou atribuía…
E até a gripe A, para desgraça dos jornais que baixam tiragens e para telejornais que, à falta de notícias a sério, podiam aproveitar para ceder o tempo para as telenovelas de interesse mental e pedagógico inquestionáveis, não causou as baixas estimadas nas melhores das previsões, deixando assim vacinas por administrar!
E o pior para nós – enfim… tirando a França que comprou vacinas para cobrir os gauleses deste e de outros mundos – foi terem-se gasto mais de 90 milhões de euros com este combate esquisito.
Decididamente, 2009 foi um ano para esquecer!
Mas o frio enrijece.
Enrijeceria as carnes, as minhas se fossem abundantes, mas também o espírito, levando a que, no Inverno, leia mais. Muito mais!
É uma altura óptima para, no sossego e aconchego da casa, com um “Porto” à direita, saborear leitura e vinho, em comunhão, em silêncio e em delírio…
Com uma música de fundo, sinfónica de preferência, chego ao céu, decidindo sempre pela madrugada voltar à terra.
E faço-o sempre por duas razões:
- A primeira, porque não sinto que o céu possa ser, em circunstância alguma, o meu destino final, nem por ser merecido, nem por me ser adequado;
- A segunda, porque assim deixaria felizes muitos dos que, de uma forma ou de outra, se queriam ver livres de mim, o que igualmente seria imerecido, se não se esforçarem muito mais do que têm feito!
Encontramo-nos nas palavras.
A expressão é lindíssima e deixou-me a reflectir.
A palavra é, já por si só, uma delícia, testemunho da superioridade sobre os não falantes, quanto mais sobre os mal falantes.
Mas a palavra, ou as palavras, dada a conotação religiosa da primeira, assim dito isoladamente, é um ponto de encontro fenomenal.
A palavra é essencial na nossa forma de transmissão, independentemente do modo de suporte utilizado, poderosa pelo que pode ou quer difundir, quente pelas tonalidades ou sonoridades, enfim, diversa e rica numa profusão de sentidos, de significados e de emoções.
Encontramo-nos ou afastamo-nos por elas, divorciamo-nos ou casamos por elas, cantamos ou gememos por elas, vivemos ou matamos por elas, apagamos ou incendiamos por elas, motivamos ou desiludimos por elas!
Valem mais do que alguma vez poderiam imaginar, se imaginassem…
Valem mais do que um dia poderiam pensar, se pensassem.
Valem mais do que, enfim, poderiam julgar, se julgassem!
Contudo, guiam a nossa imaginação, traduzem e consubstanciam o pensamento e condenam ou absolvem em função dos juízos.
Mas são ainda e felizmente, fantásticas, quando utilizadas por quem sabe e gosta de o fazer, quer fale ou escreva, quer recite ou filosofe.
A nossa vida poderia ser diferente sem as palavras?
Poderia sim!
Mas seria bem diferente e muito pior, certamente!
O prazer que se sente junto dos outros passa ainda pelas palavras. Como o ódio que se pode sentir.
Todas as expressões de sentimento entre os homens não dispensam as palavras, mas bem o poderiam fazer, se calhar, em certos momentos, diria eu em nome da boa vontade…
As palavras como ponto de encontro!
E trago-as aqui porque também somos médicos, numa era em que os constrangimentos temporais e as modernas tecnologias nos esmagam e condicionam. A relação médico /doente baseia-se na relação entre pessoas e exige, mais do que competências técnicas, antes delas ainda, humanidade! E a humanidade começa pelas palavras!
- “Olá, bom dia!” ou “boa tarde, como está?” ou “viva! Boa noite!”
É pelo nome das pessoas ou os apelidos como gosto mais, quando me dirijo aos meus doentes…
E um gesto carinhoso e atento ou dedicado, ajudam sempre e muito.
No fim, à despedida, um “adeus e as melhoras” ou “vai ver que melhora” ou “até breve e vê-lo-ei com outra cara”, podem ser lenitivos preciosos para quem nos ouve e procura, na espera de cura para os seus males…
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Rui Cernadas
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Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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