Jornal Médico Grande Público

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DATA
23/04/2010 09:46:11
AUTOR
Jornal Médico
S.A.P.: Prós & Contras

Se a sapização é uma política fragilmente sustentada, embora compreensivelmente seja bem vista pelas populações, há que explicar pacientemente a necessidade de mudança. Assim haja ouvidos que queiram ouvir

"Quem se encanta com as pequenas vantagens perde as grandes" -

 

Velho provérbio chinês

Não sei se assistiram aos "Prós e Contras" que abordaram a reforma do SNS. No primeiro, há já alguns anitos, respondia um Presidente duma Câmara do interior ao então Ministro da Saúde Correia de Campos, que lhe prometera uma USF em troca do SAP encerrado: "A USF não me interessa para nada! Eu quero é o SAP aberto 24 horas/dia!" O tom da vox populi não anda longe desta opinião. A urgencialização dos cuidados de saúde é o paradigma para o comum dos cidadãos (e de alguns profissionais também) portugueses. Será o melhor caminho?

Um enfermeiro que administra a vacina do tétano não será capaz de substituir nenhum elemento duma equipe de cuidados intensivos, que tenta salvar um doente com tétano. Qualquer elemento desta equipe poderá substituir o tal enfermeiro na vacinação, que é uma tarefa simples. Pelo contrário, o tratamento do tétano é complexo e sofisticado. Contudo, o êxito do tratamento anda nuns lúgubres 50%. A eficácia da VAT é de 100%. Quer dizer: a função mais corriqueira é duma eficiência estonteante e a mais elaborada tem resultados desoladores. Obviamente, se quisermos diminuir a mortalidade por tétano, apenas alguém muito distraído sugeriria o reforço das unidades de cuidados especializados, isto é da urgencialização, em detrimento da vacinação. Mas a distração, em Portugal, é um estado de alma acarinhado e um álibi muito em uso.

Se o caso das doenças infecto-contagiosas contempladas pelo PNV é um exemplo extremo da superioridade da prevenção sobre a cura (e do consequente fim da necessidade de tratar uma doença que deixou de existir) e que não pode ser reproduzido para todas as patologias, não é menos verdade que, com algumas nuances, pode servir para inspirar as estratégias para lidar com condições cuja história natural seja conhecida (e passível alterar). Todos sabemos que uma correta intervenção precoce nos factores de risco das doenças cardiovasculares, por exemplo, vai "poupar" idas ao SU por acidentes vasculares agudos. Ora, sabemos também que essa intervenção se faz em ambiente não urgente, em consulta programada. Portanto, para melhorar a eficácia dos serviços de urgência devemos apostar nos serviços que prestam cuidados não urgentes, porque do bom funcionamento destes vão resultar menos doentes com situações graves a necessitar de cuidados urgentes. Já a urgencialização dos Serviços de Saúde promove, paradoxalmente, um pior desempenho dos Serviços de Urgência ao desguarnecer os serviços que cuidam os doentes a montante. Isto porque os recursos são limitados (evidência que alguns se recusam a ver) e portanto a aposta exagerada nos SU só se pode fazer com prejuízo desses serviços.

Um treinador de futebol que monopolize a sua atenção na preparação do guarda-redes, olvidando os defesas, não será bem sucedido a evitar golos.

As paradoxais consequências do excessivo investimento nos serviços de urgência poderão não ser intuitivas para o cidadão comum. Menos aceitável é que autarcas, que se dizem preocupados com os problemas da saúde dos seus concelhos, ignorem os efeitos do enfoque desproporcionado na urgência. Mais estranho ainda é ouvir profissionais com responsabilidades e a visibilidade do Prof. José Manuel Silva defenderem a sapização dos Centros de Saúde e negarem a escassez de recursos.

cronica_acacio_gouveia_03.jpgArgumentou-se, e com carradas de razão, que a percepção das populações deve ser tida em conta. Sem dúvida. Mas tida em conta, para quê? Para respeitar crenças equivocadas, mantendo um status quo pernicioso? Ou para desmistificá-las e esclarecer a lógica dum novo paradigma mais conducente com as reais necessidades das populações? Se a sapização é uma política fragilmente sustentada, embora compreensivelmente seja bem vista pelas populações, há que explicar pacientemente a necessidade de mudança. Assim haja ouvidos que queiram ouvir. Aqui impõe-se uma palavra para as comissões de utentes, entidades incontornáveis para o fluido funcionamento dos Serviços de Saúde. Ficaria bem aos representantes de Valença, por exemplo, um pouco menos de arrogância, um pouco mais de abertura para ouvir quem tem dezenas anos de exercício da profissão, de experiência, de aprendizagem e de reflexão sobre estas questões. Recorrer ao insulto, às estafadas teorias conspirativas, ao obscurantismo ou à denúncia do chamado "economicismo" (vocábulo mais do que oco: bacoco) não convence.

Por muito que custe a admiti-lo, nem sempre a voz do povo é a voz de Deus. No final dos anos 70 foram encerradas mais de uma centena de maternidades. Contra a vontade do povo. A espectacular melhoria das mortalidades infantil e materna, conseguida desde então, é a demonstração inequívoca da justeza desses encerramentos decretados, do alto das suas secretárias, por políticos e burocratas. Portanto, o povo estava redondamente enganado.

De louvar a tomada pública de posição da Ordem dos Enfermeiros, que não se compadeceu com populismos.

Em suma: rejeitar USF em favor de SAP é "encantar-se com as pequenas vantagens e perder as grandes".

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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