Jornal Médico Grande Público

Questão de feitios?
DATA
07/05/2010 08:17:31
AUTOR
Jornal Médico
Questão de feitios?

À medida que o tempo passa, o número de colegas novos chegados à Medicina Geral e Familia...

 

À medida que o tempo passa, o número de colegas novos chegados à Medicina Geral e Familiar, dá-nos uma agradável sensação de que o nosso esforço valeu a pena! Esforço que, noutras coisas e áreas, não teve paralelo nem recompensa... A renovação da carreira ou do que dela resta, para sermos mais honestos agora que a dita e as ditas acabaram, foi flagrante e à juventude, alia-se uma enorme motivação e entusiasmo em prol da mudança e da reforma.

O que é giro, pois a reforma, sendo uma palavra traiçoeira, significa para alguns uma opção temporal de termo e, para outros, a viragem na sua satisfação profissional. E giro também porque, a reforma, alimenta-se dessa gente nova, chegada com vontade de servir, de estudar e de trabalhar, capaz de contagiar muitos dos que estão com o seu dinamismo, ideias e iniciativa, competente e disponível para abraçar novos projectos. As USF ou boa parte delas, são uma prova evidente desse interesse e capacidade e, certamente, nas muitas que, nesta altura aguardam "ordem de marcha", o número de médicos recém-formados na especialidade será maioritário! O que nos deixa preocupados é algum comodismo ou acomodação sentida em alguns colegas, num movimento de alguma resistência à mudança, diria de imobilismo e estagnação, como se nada os pudesse fazer mexer ou estimular, nalguns até ressuscitar!

cronica_rui_cernadas_01.jpg

Julgo que há que lhes endereçar uma palavra e um abraço de estima pelos seus contributos à Clínica Geral em Portugal. Mas há que, igualmente, lhes lembrar que o período passado é sempre história e a água que passa sob as pontes nunca se repete. O que vale por dizer que, se não pode ser por afagamento intelectual que se disponibilizam para os novos modelos organizativos, só poderá ser por feitio! Estamos longe da avaliação que há-de ser feita da reforma e de todo o processo de mudança. O percurso, até aqui, foi longo e para muitos iniciou-se logo após o regresso do Serviço Médico à Periferia, tendo em larguíssima maioria das pessoas, correspondido a uma decisão fundamentada de vontade própria.

Nenhum de nós, apenas médicos de MGF, terá tido culpa do modelo de organização adoptado, nem da descaracterização dum trabalho que deveria ter sido em equipa, integrado e articulado entre pares e com os colegas dos cuidados diferenciados. Alimentamos, porém, um longo período de autismo.... Nenhum de nós, médicos de MGF, terá tido culpa de ter dado corpo a um SNS que, em circunstância alguma, exigiu ou questionou o facto de nunca ter sido devidamente avaliado e, muito menos, certificado! Abdicamos, porém, da reivindicação desse direito...

Nenhum de nós, médicos de MGF, terá tido culpa de não ter assumido ou imposto um sistema de avaliação de desempenho, inserido ou não, num modelo mais amplo de recertificação profissional, obrigando a Ordem dos Médicos ao cumprimento das suas responsabilidades sociais e delegadas pelo Estado! Nenhum de nós, médicos de MGF, terá tido culpa, afinal, de que, em Portugal, durante décadas, se não tivesse feito o investimento indispensável para a actualização das estruturas prestadoras de cuidados de saúde primários e não tivéssemos tido a sorte de assistir e vivenciar um autêntico pacto de regime - entre os partidos políticos - para a defesa do SNS!

cronica_rui_cernadas_02.jpg

Nenhum de nós, médicos de MGF, terá tido culpa de que, ao longo destes muitos anos, não tivéssemos criado os mecanismos de apoio e implementação de estudos clínicos e de investigação no âmbito da nossa actividade, tão rica em termos epidemiológicos e de denominadores para pesquisa e validação estatística! Por todas estas razões e mais algumas, talvez, alguns de nós não pretendam, nem mudar, nem participar nas mudanças...

O que só lhes poderá causar algum sofrimento, tão desnecessário, quanto inconsequente. Os tempos correm rápidos e para grandes dificuldades, sobretudo na Administração Pública, com ou sem planos de estabilidade e de crescimento! O que é - só pela designação - intelectualmente desgraçado... Como se Portugal já não tivesse estabilidade suficiente, a raiar a estagnação e a paralisia. Oxalá haja apoios para as experiências inovadoras concluírem a sua instalação e permitirem as avaliações devidas. Oxalá haja universalidade por parte dos agentes de gestão para entender e aceitar que os feitios não são todos iguais! Mas toda a paciência tem limites que, a todas as partes, importa saber compreender, respeitar e cumprir.

Rui Cernadas

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas