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A bola ou está tudo doido
DATA
19/07/2010 05:08:10
AUTOR
Jornal Médico
A bola ou está tudo doido

Entre a tristeza duns e a ira doutros, muitíssimo poucos portugueses ficaram indiferentes à derrota da selecção em terras africanas (o leitor sagaz já vislumbrou, por certo, um exemplo de tão rara ave!).

"De meu preceptor (...) ensinou-me a arrostar com as dificuldades e a encurtar o elenco das necessidades"

Marco Aurélio

 

"Dentro de 2 gerações nós [chineses] seremos ricos e eles [europeus] pobres e doar-lhes-emos arroz"

Kuing Yamang

 

acacio_gouveia.jpgEntre a tristeza duns e a ira doutros, muitíssimo poucos portugueses ficaram indiferentes à derrota da selecção em terras africanas (o leitor sagaz já vislumbrou, por certo, um exemplo de tão rara ave!).

Mas mesmo estes pouquíssimos analfabetos das coisas da bola não podem evitar estar a par do que se passa no mundo do futebol. Como tal, não pode este apascentador de frases ignorar o que por aí se disse.

 

UM

Inquietantes, pareceram-me as observações de Carlos Queiroz na conferência de impressa após o funesto encontro frente aos espanhóis - verdadeira 2ª edição da batalha de Toro. Perguntou (que eu bem ouvi) o seleccionador aos jornalistas presentes, se sabiam quanto gastavam países como a França, os EUA, o Japão ou a Coreia do Sul com as respectivas selecções. Depois questionou o quanto não se gasta em Portugal com o desporto (dito) rei.

Da questão colocada não vejo que possa haver outra leitura que não seja esta: Carlos Queiroz quer Portugal a competir com as maiores economias mundiais em termos de investimento no futebol de elite. Isto é: quer mais dinheiro.

Só não se aventurou a concretizar as fontes deste reforço de financiamento. Mas podemos sugerir. Sacamos uma fatia à Justiça e às Forças Armadas, bem como aos apoios à agricultura. Subtraia-se um naco à Segurança Social e às Obras Publicas, assim como à Saúde. Emagreça-se o investimento nas forças de ordem pública, na Educação e na Administração Local. Adelgacem os gastos com outros desportos e com a Cultura. Diminuam-se as verbas destinadas à investigação científica e à cooperação com os PALOP. E já agora ... aumente-se o IVA para 21,5%.

 

DOIS

Segundo a imprensa, Carlos Queiroz ganha mais num mês, do que o Presidente da República num ano. Ora, num país varrido por uma onda de indignação face aos chorudos prémios auferidos por gestores de empresas de sucesso (esquecendo que alguns renunciaram a esses mesmos prémios), em que se indigna o cidadão com a renovação da frota automóvel da Assembleia da República (após 8 anos de uso!), que deplora os salários e reformas de magistrados e políticos (às vezes com razão, outras nem tanto), é de estranhar o silêncio perante este escândalo.

 

TRÊS

Se o leitor paciente tiver disponibilidade e pachorra suplementares, aconselho que vá a este link . Aqui poderá ouvir as declarações do venerável Kuing Yamang, professor de economia duma qualquer universidade chinesa. Se passarmos uma esponja sobre a referência idiota à ecologia e elogios discutíveis ao capitalismo ultra-liberal, vale a pena meditar sobre o resto do discurso. Diz ele que os europeus estão, descontraidamente, a caminho da implosão do seu modelo socioeconómico. Gastamos mais do que produzimos e vivemos a crédito, não sendo expectável que possam os nossos filhos, no futuro, honrar as dívidas que alegremente contraímos.

A ética do trabalho desvanece-se e a ânsia de usufruir submerge a preocupação com a produção de riqueza, sem a qual não há usufruto possível.

O professor Yamang afirma mesmo que, à cabeça da lista de prioridades dos europeus, se encontra a paixão pelo futebol.

A Europa empobrece, ao mesmo tempo que outros (nomeadamente a China) enriquecem.

O venerável Kuing poderá evocar uma personagem pitoresca, mas pouco credível, do "Timtim e o Lotus Azul". Contudo, depois de meditar sobre os pontos um e dois é difícil não lhe dar razão.

 

UM + DOIS + TRÊS

Não tive conhecimento de comentários, nem às atoardas de Carlos Queiroz, nem à clamorosa diferença de salários entre o seleccionador e o titular da mais alta magistratura da Nação. Em contrapartida, as quatro palavras proferidas por Ronaldo no final do fatídico jogo, desencadearam uma catadupa de reacções e tomadas de posição, difundidas à saciedade. Ora, a frase do jogador parece-me bem menos digna de análise do que as reivindicações desaustinadas de Carlos Queiroz. Parece, pois, que se pode concluir que o povo e os opinion makers acham aceitável o ordenado do seleccionador e toleram (ao invés das SCUDS, taxas moderadoras e aumentos generalizados) um eventual sacrifício suplementar que possibilitasse uma subida aos quartos ou meias-finais, dentro de 4 anos. Uma boa prestação da selecção das quinas em futuros eventos futebolísticos é mais importante que a saída do pantanal económico em que nos encontramos. O venerável Yamang parece, assim, ter razão: os europeus estão doidos.

Acácio Gouveia
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Editorial
Rui Nogueira
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