Jornal Médico Grande Público

O “nacional porreirismo”!
DATA
20/09/2010 06:24:55
AUTOR
Jornal Médico
O “nacional porreirismo”!

Ou quem quer mesmo discutir, reflectir, estudar, propor, implementar e avaliar o consumo de cuidados de saúde em Portugal?

Ou quem quer mesmo discutir, reflectir, estudar, propor, implementar e avaliar o consumo de cuidados de saúde em Portugal? A sério!

Pode parecer excessivo, mas à medida que os anos vão passando, as nossas convicções foram-se modificando, talvez porque o "sentir político" de Portugal se afastou das ideias e dos princípios, evoluindo para um debate oco, vazio de conteúdos, desprovido de visão a prazo e norteado, apenas, pelas preocupações eleitorais, fúteis, perigosas, demagógicas e decadentes...

E o problema nem será, provavelmente, meramente português, uma vez que, por exemplo ao nível europeu, não vemos, nem por regra, os cidadãos satisfeitos, nem figuras com projecção superior como as que a história do século XX, no pós-guerra, marcou e eternizará.

Sob o ponto de vista constitucional, o SNS português está ancorado no dogma da universalidade e da gratuitidade.

No plano conceptual, óptimo. Na prática, tudo se complica. E complica porque o envelhecimento populacional, as migrações, as novas doenças infecciosas, a SIDA, as patologias oncológicas, as doenças do movimento, os efeitos iatrogénicos, a deterioração do equilíbrio ambiental ou os avanços tecnológicos, provocam um crescimento exponencial da despesa!

E complica porque os Governos, todos os governos, são muito sensíveis, por lógica partidária e eleitoral, à necessidade de responder às pressões nesta área, levando a que, anualmente, a despesa global não cesse de aumentar.

E complica porque os partidos da oposição, todos os partidos da oposição, refilam, reivindicando novas coberturas e objectivos e benesses e, simultaneamente, alertam para o facto, confirmado, de não haver orçamento que não seja excedido no SNS...

Nem quero, nem sei, nem devo falar da crise, a tal que rebenta com países, com empresas e com direitos adquiridos, sem que em momento algum, se perceba a quem se deve culpar e responsabilizar... Sendo certo que, por todo o lado, as listas de milionários não deixam de apresentar mais milionários e mais ricos...

A sustentabilidade do SNS, diga-se o que se disser, faça-se o que se fizer, não será resolvida, nem com medidas avulsas, nem com decisões administrativas ou de mera condução gestionária.

Confundir acessibilidade com permeabilidade é lamentável! 

Um sistema que se não defende, sobretudo quando se pretende que, sendo público - pago por todos nós através de impostos - seja universal e gratuito, está condenado à exaustão e ao colapso.

Uma coisa é a população ter uma unidade de saúde perto de casa.... Coisa diferente é dispor da capacidade para poder ter entrada e atendimento, as vezes que se quiser, quando quiser e onde quiser, como acontece hoje e é à saciedade conhecido.

Seria bom que os senhores deputados, por exemplo aqueles de cujo curriculum pouco ou nada se conhece de trabalho em contexto real, descessem da Assembleia da República à terra, viessem passar alguns dias nas salas de espera em hospitais e unidades de cuidados de saúde primários, ouvir o que se diz, ver o que se passa, as condições de trabalho, as dificuldades que todos sentem no dia a dia... Para assim poder ajudar a explicar ao país como se deveria ter orgulho no nosso SNS e como se deveriam comportar os cidadãos face à oferta que, hoje, ainda lhes pode ser garantida...

O perigo, para todos, são as decisões de risco que são tomadas não procurando, embora dessem claramente mais trabalho e cefaleias, soluções adaptadas e compreensivas.

Para melhor elucidação a para não ferir susceptibilidades, conto-vos o caso que um nosso Colega, dilecto e atento, me contou...

Um certo Presidente de Câmara Municipal teria agora anunciado que, conseguia à luz da necessidade de contenção de custos, com celeridade, "poupar em menos de um ano", qualquer coisa como setecentos mil euros.

E observava o Colega que me falou nisto:

- "E ninguém o responsabiliza por o não fazer antes?"

Entre nós, profissionais de saúde, sabe-se que os cortes estão aí.

Mas que cortes?

Certamente cortes iguais para todos, como se fosse critério da boa administração ou de informal justiça, o princípio da imposição de percentagens para redução de despesa, independentemente dos resultados e da conduta anterior.

Isto é, que significa que "A" gastando "1000" por utente e por ano, seja submetido à teoria do mesmo corte percentual que "B" que, para idêntico serviço prestado e por utente e por ano, despende "3000"!

É um testemunho de atitude ou planeamento inteligente?

Ou mesmo uma decisão sábia e racional?

Sem comentários...

Mas que parece o "nacional porreirismo" na sua expressão mais bela e acabada do sentimento lusíada, lá isso parece!

 

Rui Cernadas

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Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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