Jornal Médico Grande Público

“O pastor amoroso”
DATA
08/11/2010 09:51:36
AUTOR
Jornal Médico
“O pastor amoroso”

Nem sempre temos oportunidade de ler o que queremos ou, pelo menos, quando o desejamos fazer...

Nem sempre temos oportunidade de ler o que queremos ou, pelo menos, quando o desejamos fazer.

É por isso que, para mim, guardo sempre o que chamo de leituras adiadas, na verdade uns textos ou uns livros que coloco em fila de espera para, à primeira oportunidade, devorar nos serões ou nos tempos livres...

De outras vezes, a vontade passa por reler o que nos agradou, marcou ou mudou!

E Fernando Pessoa, neste caso, Alberto Caeiro, é uma dessas preferências repetidas...

"O Pastor Amoroso", designadamente...

"...

Todos os dias agora acordo com alegria e pena.

Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.

Tenho alegria e pena porque perco o que sonho

E posso estar na realidade onde está o que sonho."

 

O mundo em mudança não é uma novidade.

Nem nunca foi.

Já ninguém se impressiona face à catadupa de catástrofes naturais que, por toda a parte e em qualquer tempo e estação, atingem populações, espalhando miséria, sofrimento e morte!

Desde os tornados aos ciclones, desde as cheias e inundações aos fogos que devastam matas, florestas e países, quantas vezes com mão delituosa clara e a que certos códigos de amputação deveriam dar resposta eficaz, já nada disso verdadeiramente nos surpreende...

Como o mesmo acontece com o anúncio repetido da extinção concretizada ou da mera forte possibilidade de espécies animais ou vegetais em vias de extinção...

O degelo nos pólos e a seríssima ameaça da subida do nível médio das águas dos mares e oceanos incomoda-nos tanto quanto a fome dura e dramática que vitima milhões, por exemplo, no continente africano!

Os esforços de certos países e grupos e organizações na defesa do ambiente e das causas ecológicas, após uma fase em que muitos pensaram ser fundamentalistas, parecem agora, ressalvados os exageros e excessos acalorados, honestos e justos, senão indispensáveis e vitais!

Mas continuam devotados à generalizada incompreensão e ignorância, projectada sublinhe-se, a partir dos grandes países prevaricadores, com os Estados Unidos e a China à cabeça.

A industrialização e o aquecimento global são fenómenos que os cidadãos se habituaram já a ouvir regularmente, sem que outros palavrões como a globalização, o desemprego ou o terrorismo deixassem de preocupar, atemorizar ou distrair...

A modernização das sociedades, em redor da informatização e dos sistemas de informação e das telecomunicações, não foi acompanhada, nem de longe, nem de perto, por uma educação cívica e social para a preservação de valores essenciais - a humanidade, a solidariedade, a educação cívica, o respeito pelos outros, a lealdade ou a amizade!

E outra vez, Caeiro:

"...

Talvez quem vê bem não sirva para sentir

E não agrada por estar muito antes das maneiras.

É preciso ter modos para todas as coisas,

E cada coisa tem o seu modo, e o amor também."

 

Caíram Muros, até em Berlim, mas outros foram construídos, às vezes até no nosso quintal ou terraço!

Caíram sistemas filosóficos e políticos e com eles regimes autocráticos, apesar de em muitos casos nem brutais terramotos os haverem podido derrubar...

Por contraponto, vieram também as crises e os "crashes", bolsistas e capitalistas, enquanto os regimes democráticos inventaram limites e reguladores, vigilâncias e controlos diversos e apertados, barreiras e mecanismos que nos fazem acreditar, a curto prazo, no grande "big-brother".

 

E de novo em "O Pastor Amoroso":

- "...

Tu não me tiraste a Natureza...

Tu mudaste a Natureza..."

 

Julgo que esta educação de que falo, é sobretudo um processo social e de desenvolvimento.

Não como uma forma ou maneira de preparação para a vida, mas como uma manifestação de viver...

E com grande convicção, despeço-me com mais dois versos:

 

"Não me arrependo do que fui outrora

Porque ainda o sou."

 

Rui Cernadas

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas