Jornal Médico Grande Público

Algarve: um caso de sucesso!
DATA
08/11/2010 10:22:56
AUTOR
Jornal Médico
Algarve: um caso de sucesso!

O Algarve apresentou, em 2009, uma taxa de mortalidade infantil de 2.5‰. Este valor, o mais baixo alguma vez registado no Algarve...

O Algarve apresentou, em 2009, uma taxa de mortalidade infantil de 2.5‰. Este valor, o mais baixo alguma vez registado no Algarve e o mais baixo de Portugal no período em apreço, aponta para a consolidação dos resultados obtidos nos últimos anos que aproximaram a região dos valores nacionais. Ao longo de décadas, o Algarve apresentou valores de mortalidade infantil superiores aos do país, conseguindo aproximar-se dos valores registados em 2008 e 2009, anos em que a mortalidade infantil no Algarve, esteve abaixo do valor nacional

Estes resultados, são fruto do investimento realizado no país e na região, após a Revolução Democrática de Abril de 1974, no saneamento básico e nas condições de salubridade, na vacinação, no seguimento da gravidez e no combate às doenças que afectam a maternidade, como a sífilis, a hipertensão arterial, a diabetes ou a infecção por estreptococos grupo B, no parto hospitalar, no diagnóstico pré-natal de malformações, na organização dos cuidados no parto e no pós-parto, na criação de uma unidade de neonatologia diferenciada e no combate aos partos pré-termo.

A História da diminuição da taxa de Mortalidade Infantil no Algarve confunde-se com a História do país nos últimos 36 anos. Nos anos 60 do século XX, a Saúde não era um direito garantido pelo Estado, os recursos humanos eram escassos e fortemente concentrados em Lisboa, no Porto e em Coimbra. Em 1965 o número de médicos não ultrapassava os 7.900 e o Algarve dispunha apenas de 123 clínicos. A guerra do Ultramar, entre 1960 e 1974, obrigava o país a despender entre 40 e 50% das despesas públicas no esforço de Guerra, enquanto as despesas em saúde se situavam apenas em 2.6% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de metade da percentagem dispendida pelos restantes países da Europa Ocidental.

Foi neste contexto, e no dealbar da Revolução Democrática de Abril de 1974, que se iniciou a mudança de uma sociedade em que a solidariedade, a assistência e a caridade eram deixadas aos indivíduos, às famílias e à Igreja para uma outra sociedade em que o Estado, por via da Constituição, garantia o Direito à Saúde e à universalidade dos cuidados a todos os cidadãos. Nessa época, o Algarve era uma região periférica, pouco industrializada, a dar os primeiros passos no desenvolvimento do turismo, com uma população de pouco mais de 250.000 pessoas, exaurida pela migração, que em apenas em 10 anos lhe tinha feito perder mais de 15% da sua população. Com a criação do Serviço Nacional de Saúde em 1979, que no Algarve coincidiu com a entrada em funcionamento de um Novo Hospital - o actual Hospital de Faro -, e com a chegada de novos recursos humanos na área da saúde.

Apesar da sua condição periférica e de manter-se como um das regiões do continente português com um menor número de recursos humanos na área da saúde, o Algarve tem sabido trabalhar de uma forma sustentada para reduzir a taxa de mortalidade infantil e todas as suas componentes, fazendo com que a taxa de mortalidade infantil tenha diminuído de um valor de 32‰ em 1975, para 18‰ em 1979, 11.3‰ em 1990 e 5.5‰ em 2000.

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Os valores registados na última década e em particular nos últimos 5 anos têm ainda uma importância acrescida, uma vez que nos últimos 10 anos se registou um crescimento do número de nascimentos, à conta de uma elevada taxa de crescimento migratório, interno e externo, passando o número de nascimentos registados nos Hospitais do Algarve de 4.270 em 2000, 5% filhos de mãe estrangeira, para 4.713 em 2009, dos quais 23% filhos de mãe estrangeira. Estas mães, vindas sobretudo do Brasil, da Ucrânia, da Moldávia e da Roménia, para viver e trabalhar no Algarve, tem recebido os cuidados adequados ao longo da gravidez, do parto e após o nascimento, e são o exemplo do trabalho de inclusão que os serviços públicos e os profissionais de saúde têm realizado ao longo dos anos.

Manter os valores obtidos nos últimos anos, 12 óbitos de crianças com menos de 1 ano em 2009, dos quais 9 foram neonatais, num contexto de crescimento previsível de nascimentos de mães migrantes, é um enorme desafio para os próximos anos, que exigirá uma particular atenção na organização dos cuidados à grávida e ao recém-nascido, uma vez que a região do Algarve viverá nos próximos anos um quadro de redução de recursos humanos médicos nas áreas da saúde materna e infantil, e uma vez que os valores registados apontam como principais prioridades para os próximos anos para todas as linhas de intervenção, a prematuridade e o baixo peso ao nascer, sobretudo o muito baixo peso ao nascer.

Os resultados obtidos nos últimos 36 anos, que colocam Portugal entre os países do Mundo com mais baixa taxa de mortalidade infantil, são um orgulho para todos os portugueses e em particular para os profissionais de saúde de todas as áreas, e o espelho do trabalho realizado através de um sistema público de saúde, universal, que não descrimina raça, etnia ou religião e que promove a equidade entre cidadãos de diferentes condições sociais e económicas, promovendo a coesão social.

 

Rui Lourenço

Presidente da ARS do Algarve, IP.

 

 

 

Mortalidade Infantil (/1000 nados vivos)

 

1990

2000

2004

2005

2006

2007

2008

2009

Continente

10.9

5.5

3.8

3.4

3.3

3.4

3.3

3.6

Algarve

11.3

5.5

4.2

3.6

5.0

3.9

3.2

2.5

 

 

 

 

 

Nados Vivos - Hospitais do Algarve

 

2000

2004

2005

2006

2007

2008

2009

Mãe Estrangeira

216

662

777

862

1.021

1.139

1.090

Mãe Portuguesa

4.054

3.998

4.065

3.826

3.781

3.665

3.623

Total

4.270

4.660

4.842

4.688

4.802

4.804

4.713

 

 

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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