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Não tropecem nas primeiras pedras!
DATA
24/11/2010 10:58:20
AUTOR
Jornal Médico
Não tropecem nas primeiras pedras!

A cultura portuguesa tem grandes nomes em muitos domínios, capazes de nos encher de orgulho e gosto de sermos portugueses...

A cultura portuguesa tem grandes nomes em muitos domínios, capazes de nos encher de orgulho e gosto de sermos portugueses e do exemplo de tenacidade e têmpera lusitanas. Pintores, escultores, escritores, poetas, artistas, músicos, cantores, navegadores, matemáticos, arquitectos, físicos, médicos, cientistas, militares, missionários, diplomatas e tantos outros, tantos, legaram-nos obras ou trabalhos, pesquisas ou construções, trajectos ou vidas que revelam e confirmam a fibra granítica dos lusos... Na verdade, muitas vezes, com a triste constatação do seu mais rápido reconhecimento lá por fora do que cá por dentro, mas de encontro à pequenez do reino e de muitas cabeças e seres... Santos da casa não fazem milagres, diz o povo, resumindo o problema.

O país é também conhecido por alguns produtos de maior ou menor consumo que produz, comercializa e exporta. O vinho do Porto à cabeça, no verdadeiro sentido da palavra e porque é até aí que ele nos sobe depressinha...

Ou a cortiça, outro ex libris nacional, descascada dos nossos sobreiros, tradicionalmente figurados com os porcos em seu redor nas planícies alentejanas...

Mas também as rochas portuguesas tem papel nas exportações portuguesas, sendo apreciadas, como ainda há bem pouco tempo pude apreciar em terras de Itália! Os granitos leais, serenos e discretos do norte, ou os mármores, belíssimos e caprichosamente coloridos em combinações ora ousadas, ora inimitáveis, do centro e do sul, são igualmente bons exemplos.

Todos nos lembramos e deliciamos com as paisagens agrestes, de vales profundos e encostas rochosas, polvilhadas de arvoredo e silvados, ainda que agora bem mais queimados do que antes... Algumas dessas pedras com formas naturais que evocam esculturas e imagens ou formas definidas por algum ser superior e colossal, aliás tidas por referências turísticas em muitos pontos e regiões...

Claro que temos rochas, pedras e calhaus!

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Mas não é de pedras que quero falar, sendo certo que à palavra calhau se prendem outros significados que, claramente, extravasariam o conceito e âmbito do texto deste número. Ainda que, estou certo, vos pudesse falar de calhaus interessantíssimos, alguns com nomes ilustres ou de outros ligados a proezas incríveis. Muitos deles, repito, merecendo crónica independente e alusiva, podendo ser que no futuro e à falta de melhores temas e lembrança, me venha a eles, mesmo que pagando já o IVA a 23%!

Os tempos vão difíceis e a contenção orçamental é grande.

Já me entrou no bolso e na carteira, quer pela via do aumento salarial negativo que me foi oferecido para 2011, quer pela via do aumento generalizado de contribuições e impostos!

Valem-me enfim... Lembram-se do subsídio atribuído nos termos da lei de 2008 ou 2009 aos presidentes e vogais dos conselhos clínicos dos ACES, o qual estava de facto previsto e consagrado no Decreto-Lei da criação dos ACES? Embora sem juros, como o seu atraso no pagamento já vai a caminho de 2 anos...

Voltemos às pedras.

Há muitas, mais do que chapéus, quase tantas como gatunos.

É habitual falarmos delas sem grandes distinções, o que não sendo justo, pode ser enganador. A mera consulta de um dicionário aponta-nos para uma boa variedade de pedras, como por exemplo, as ditas ornamentais ou as chamadas primeiras pedras. São estas últimas, as primeiras pedras que merecem destaque, memória, despesa e inaugurações!

Falo-vos das primeiras pedras, essas famigeradas, ansiadas, desejadas, sonhadas, dispendiosas ou odiadas, desgraçadas ou felizes, marcadas para todo o sempre nas obras que hão-de integrar!

O problema, porém, passa pelo tempo.

Algumas dessas primeiras pedras, pese a relevância ou a dimensão do acto festivo de inauguração ou lançamento continuam lá depositadas e esquecidas ganhando, ora verdetes, ora ervas daninhas, condenadas à solidão e ao isolamento.

Mesmo algumas, para as quais, fui formalmente convidado a assistir... Às respectivas cerimónias de deposição, solenes, com governantes e chefes!

O que me perturba e preocupa é o perigo que as primeiras pedras podem representar para os portugueses e, em especial, para os profissionais de saúde.

Há tantas espalhadas por aí fora que, com a crise e os apertos, o risco de nelas tropeçarmos, cairmos e magoarmo-nos é elevadíssimo!

Deveríamos proceder - imediatamente - à sua identificação e sinalização - se possível semafórica - para que se acautelassem novos sofrimentos e a poupança de despesas com o transporte e tratamento das potenciais vítimas!

É um dos meus contributos para a onda de corte na despesa pública...

Por Portugal, terra de grandes homens e muitos calhaus!

 

Rui Cernadas

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Editorial
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