Humanização e Doença
DATA
25/12/2010 08:34:09
AUTOR
Jornal Médico
Humanização e Doença

Uma saúde perfeita é insolente, animal e grosseira. Como são intoleráveis os doentes perfeitos.
Agostinho da Silva

 

Uma saúde perfeita é insolente, animal e grosseira.
Como são intoleráveis os doentes perfeitos
Agostinho da Silva

 

jorge_nogueira.jpg1. Humanização

 

Ao colocar o título nesta peça de difícil classificação, invadiu-me a anglomania reinante por via da informática e do rock and roll, e pus-me a pensar como podíamos verter este título para inglês, e como na origem - ou no regresso - ele poderia ganhar outros títulos em português. Por exemplo Humanismo e Medicina; Humanismo e Doença; Hominização e Adoecer - este um bocadinho retorcido mas muito descritivo e certeiro; Humanismo e Mal, ou Humanidade e Mal (opostos ou complementares?). Isto por comparação com títulos anglófonos possíveis: Humanity and Disease - a puxar ao histórico; Humanization and Disease; Humanization and Illness; Mankind and Evil. Para só citar alguns.

Falta dizer que o emparelhamento de alguns destes termos nas duas línguas resulta impossível ou inadequado. Sobretudo em dois casos: se em inglês Evil tem sempre o sentido de maldade, em português um (artigo indefinido) Mal pode muito bem ser uma doença, o que permite uma correspondência - simbolicamente fértil - entre Doença e Mal. Vantagem de cá. Por outro lado, se em português um doente tem sempre uma doença - ou mais -, em inglês pode ter uma disease, coisa mais objectiva, ou uma illness, que é mais de quem a tem, ou até uma sickness, mais afecta à condição humana; o que permite distinções subtis entre as várias designações. Vantagem de lá.

Procurando na Internet, encontrei milhares de referências à expressão ("keyword") humanização. Como é evidente, só abri uma ou duas páginas das referências. Verifiquei que a sua grande maioria tem proveniência brasileira, por influência da criação relativamente recente do SUS - o equivalente do nosso SNS - e do seu rápido desenvolvimento. A maior parte das colaborações vem das áreas do Serviço Social, da Saúde Mental e da Enfermagem, e algumas portuguesas (e não só?) da Igreja Católica.

Nos países de língua portuguesa, a noção de humanização está muito penetrada pela influência da cultura do catolicismo, a qual por sua vez fertilizou directa ou indirectamente o campo da Enfermagem, durante muito tempo herdeiro dos conceitos assistencialistas da Igreja. Para a fé cristã, o que caracteriza o homem é a existência de alma. Humanizar é melhorar a alma, aproximando assim o Homem do seu Criador, o que no limite pode significar suavizar a morte - numa época em que as armas terapêuticas eram escassas e débeis.

Por outro lado os médicos, por seu turno, mantiveram-se um pouco à margem desta noção de humanização, talvez por causa da natureza mais técnica do seu cuidado, ou talvez pelo maior peso do sexo masculino na profissão. Talvez esteja na altura de a herança da Enfermagem neste domínio ser democratizada e generalizada às outras profissões da saúde, médicos e administrativos, para que a humanização possa assim assumir outros tipos de conteúdos mais enraizados no corpo. Enfim, para que possamos ir participando numa hominização da humanização.

 

2. Doença

 

Vai longe a época em que se discutia o termo adequado para os beneficiários dos nossos cuidados. Entre utentes, doentes, pacientes, utilizadores e ultimamente clientes (influência dos Gestores e dos Psicólogos). A verdade porém é que não se chegou a conclusão nenhuma. Parece que pacientes ficou excluído: é um neologismo (mais um) proveniente do inglês patient, e em português significa apenas uma pessoa provida de paciência - o que é uma virtude e não um defeito, e muito menos uma doença. A expressão "doente" é especialmente utilizada pelos Médicos e está muito relacionada com a existência de listas: às pessoas que fazem parte da minha lista chamo genericamente, e sem nenhum juízo de valor, "os meus doentes", mesmo que a maior parte deles, felizmente, de momento não o estejam. Tem um sentido de pertença e de laço afectivo, ambos em risco de se perder perante o crescimento da massa anónima dos "doentes sem médico".

As Enfermeiras, por seu turno, têm-se mantido à margem desta noção, briosa para os Cuidados Primários e a Medicina Geral e Familiar, de "os meus doentes", tão intensa que às vezes chega perto da presunção. Por causa, penso eu, de as Enfermeiras usarem rácios em vez de listas. O rácio é apenas e muito simplesmente a razão entre o número de utentes inscritos na Unidade e o número de Enfermeiras que aí trabalham. O resultado é dado como "número de utentes por enfermeira". Nestas contas de dividir, os doentes são despromovidos a utentes e o laço afectivo rompe-se ou não chega a formar-se. Talvez esteja na altura de a herança Médica neste domínio ser democratizada ("Enfermeira de Família", com lista?...), e generalizada às outras profissões da Saúde, em particular as Enfermeiras, para que a noção de "meu doente" possa perder em exclusividade doentia e um pouco adesiva, sem por isso perder em afectividade.

Concluindo: troco os "meus doentes" pela "humanização" e aposto que ficamos todos a ganhar.

 

Jorge Nogueira
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Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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