Carl Steylaerts: Nómada
DATA
30/12/2011 09:50:19
AUTOR
Jornal Médico
Carl Steylaerts: Nómada

Jacques Attali, antigo conselheiro do presidente francês François Mitterand, observou uma tendência na História: o nomadismo a evoluir para hipernomadismo

 
 
carl.jpgJacques Attali, antigo conselheiro do presidente francês François Mitterand, observou uma tendência na História: o nomadismo a evoluir para hipernomadismo, a sua forma de descrever a nossa transição para a “globalização” por via da Internet, telemóveis, viagens/mobilidade facilitada.
De facto, actualmente é difícil (pelo menos no nosso hemisfério Ocidental) não se ser global. O meu pai (que tem mais de 80 anos) utiliza a Internet diariamente – como muitas pessoas da sua idade. E mesmo assim, com tanta globalização, as nossas relações interpessoais diárias
são hoje mais importantes do que nunca.
Tendemos a negligenciar aqueles que nos são mais próximos, e é um dado adquirido que, em termos de saúde, o melhor é não ser-se casado com um médico... Aliás, melhor mesmo é não se ser médico, uma vez que a literatura demonstra que os médicos são quem cuida pior de si mesmo.
Quantos médicos de família (MF) têm um MF para além de si póprios? Quantas famílias de médicos tout court têm MF? Porque achamos nós que somos intocáveis, invulneráveis?
Este é um tema particularmente negligenciado na educação médica (EURACT onde estás?). É um assunto de que tenho vindo a ouvir falar desde a minha formação – os meus professores alertaram-me para esta questão, mas no sentido de “facto consumado”.
À minha frente tenho um artigo da nossa revista científica mensal cujo tema é a violência familiar. Não será esta negligência por parte do MF para com a sua própria saúde e a da sua família uma forma de violência familiar? Ok, é possível que esteja a exagerar, mas percebem onde quero chegar, certo?
Não poderia, aliás, não deveria este ser um foco de atenção por parte das nossas organizações científicas, EQUIP e EURACT à cabeça? Fazendo chegar esta problemática às ramificações locais em cada região? Como poderemos fazer isso?
Com um ensaio controlado de selecção
aleatória (RCT)? Um RCT que prove que as pessoas (e os médicos) acompanhados por MF apresentam melhores índices de saúde, prosperidade e felicidade? EGPRN, essa investigação já foi feita? (penso que não).
Com uma campanha sem evidência de um RCT? Com que argumentos? Não, a autoridade por si só não é suficiente. Ou com uma campanha como os RCT?! Cada um dos MF inscrito paga uma quantia para fazer parte do estudo. Isso cobriria a maior parte da despesa. Multicêntrico, aleatoriamente seleccionado, controlado (não acredito que fosse fácil) e academicamente organizado. Ok, vamos assumir que esta seria a melhor forma de assegurar cuidados de qualidade a MF de qualidade, mas o pagamento pela inscrição não é habitual e constitui um obstáculo.
E se... aos MF fosse distribuído “dinheiro da WONCA” para pagarem? Recorde-se a diferença entre moeda universal e complementar. Certamente uma via a explorar.
Na nossa cabeça, permanecemos nómadas, apesar de actualmente sermos sedentários. Ninguém melhor do que Francis Picabia para colocar esta idea em palavras: Unser Kopf ist rund, damit das Denken die Richtung wechseln kann (a nossa cabeça é redonda, por isso é que o nosso pensamento pode mudar de rumo). Encontrei esta frase nas paredes do Departamento de Medicina Geral e Familiar (MGF) Alma Mater, na Universidade de Leuven, na Bélgica. É uma das melhores metáforas para expressar a possibilidade de mudança de hábitos, convicções, tradições.
Os nómadas vaguearam por caminhos que foram explorados por pioneiros e trendsetters, até novos pioneiros e novos trendsetters descobrirem outros trilhos. Actualmente, estes pioneiros e trendsetters estão mais organizados e muitos deles encontram-se... na WONCA. Espaço para troca de opiniões, pensamentos, visões e descobertas experimentais, os nossos congressos da WONCA são a melhor caixa de Petri para explorar novos caminhos.
Até mesmo novos caminhos para uma melhor saúde para os MF!
Isso seria um progresso, não concordam?

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