Acácio Gouceia: as intermitências da morte - I
DATA
26/02/2012 03:56:41
AUTOR
Jornal Médico
Acácio Gouceia: as intermitências da morte - I

Os progressos espantosos da longevidade (em parte resultado dos avanços dos cuidados de saúde) criaram a ilusão na omnipotência da Medicina e, como corolário, uma estranha fantasia que não lembraria nem a Prometeu: a evitabilidade da morte

"Quanto a Maruf e à esposa princesa, viveram dali em diante no mais perfeito prazer, até à chegada da Separadora dos amigos, da Destruidora da ventura, da Construtora de túmulos, da inevitável Morte."

In As mil e uma noites

 acacio_gouveia.jpgNo verão de 2010, numa crónica como esta, questionava este vosso alinhavador de ideias, se não teria havido um recuo civilizacional no modo como encaramos a morte. Alvitrava, mais concretamente, que na Idade Média se tratavam com mais dignidade os moribundos do que nos dias de hoje. Quis o destino que de responsável pela saúde infantil da população sem médico de família, passasse a cuidador dos acamados sem médico atribuído. Essa vivência proporcionou-me três focos de reflexões que passo a verter para a crónica. São eles a negação da inevitabilidade da morte, a solenidade da morte e a administração da morte.

 

Negar o inegável, ou o mito de Lázaro

"Senhor, se tu estiveras aqui, meu irmão não teria morrido."

João 11,32

 Os progressos espantosos da longevidade (em parte resultado dos avanços dos cuidados de saúde) criaram a ilusão na omnipotência da Medicina e, como corolário, uma estranha fantasia que não lembraria nem a Prometeu: a evitabilidade da morte. Ninguém discordaria de Homero quando dizia que "nenhum homem escapa (...) desde que tenha nascido", mas uma curiosa dissociação cognitiva leva-nos a agir contrariamente ao que sabemos ser facto inabalável. O empenhamento em prolongar a vida a idosos, mesmo em adiantado estado de degradação, empurra-os para instituições hospitalares na absurda quimera duma "salvação". Por outro lado, deparamos com espantosas tabelas terapêuticas em nada adaptadas à realidade da expectativa de vida destes doentes, nem tão pouco consentâneas com os ensinamentos da farmacocinética ou da farmacodinâmica.

É compreensível que o afeto que une os seres humanos os leve a querer prolongar o convívio com os entes queridos idosos ou em situação terminal. Juntem-se-lhe as tais ficções sobre a omnipotência da Medicina. Não esqueçamos que esfumado anda também o conceito de qualidade de vida e menosprezado o peso do sofrimento sem esperança de cura. Acrescentem-se-lhe uns laivos de influência religiosa. Temos os ingredientes necessários para o frenesi terapêutico para lá do eticamente aceitável e do cientificamente fundamentado.

 

Solenidade da morte

 

"(...) para ti, Pátrocolo, despontou o fim da vida."

Homero. A Ilíada, canto XXIII

 A morte, independentemente das circunstâncias geralmente funestas em que geralmente ocorre, tem um carácter solene. Quer seja uma perda trágica e devastadora, quer represente uma libertação aceite como uma bênção, é natural que a comoção acompanhe sempre o fim duma vida. Surgem, ao longo da vida, eventos marcantes, assinalados com mais ou menos emoção, variando esta de cambiante. A entrada para a escola (para aqueles que têm a felicidade de a frequentar), o juramento de bandeira (para os que cumpriam o serviço militar obrigatório), o primeiro emprego (para os que o encontram), o matrimónio (para os que optam), etc., são momentos tudo menos neutros no percurso duma vida. E há também aqueles que marcam o fim de ciclos. O fim dos estudos, a jubilação, são exemplos de momentos salientes, imbuídos de sentimentos que podem variar de tonalidade. Ora a morte é o fim do ciclo maior da nossa passagem. Como tal não pode ser encarada, nunca, como algo banal, mesmo que não seja mais que o cumprir da única certeza com que somos brindados ao nascer. Natural? Evidentemente. Banal? Nunca, enquanto houver uma réstia de dignidade.

 

A burocracia na morte

 

"Oh vós que guiais as almas perfeitas à morada de Osiris,

Levai a minha alma à morada de Osiris!"

O livro dos mortos. Parte I Cap. 1

 Desde que os povoados dos humanos cresceram para além do que é conveniente apelidá-los de aldeias, a materialização da memória do que é memorável impôs-se, sob a forma de escrita. Sem ela, a complexidade crescente das azáfamas das comunidades, ruiria num caos tenebroso. A escrita nasce com o fito, muito pragmático, de contabilizar, de registar. E do registo dos eventos públicos, passou-se ao assentamento do que diz respeito a acontecimentos relevantes da vida dos privados. Ou do que dos privados é relevante para o interesse público. Ou seja, o que é solene passou a ser registado. Em placas de argila, rochedos, cordas com nós, papiro, tábuas, peles de animais ou banda magnética, os momentos marcantes vão ficando arrolados. Ora a morte não podia ser excepção. O lavrar da certidão de óbito, derradeira burocracia, é (deveria, pelo menos, ser) acompanhado de um cuidado à medida do evento. Por isso as exigências que lhe são próprias traduzem-se em mais um fardo sobre os familiares: onde arranjar rapidamente o profissional disposto a assumir a responsabilidade de preencher a certidão? Se quiserem temos aí uma razão acrescida para evitar a morte.

 

Acácio Gouveia
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Editorial | Jornal Médico
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