José A Santos: doença Paternal Obstrutiva Crónica
DATA
26/02/2012 04:04:42
AUTOR
Jornal Médico
José A Santos: doença Paternal Obstrutiva Crónica

As exacerbações da "DPOC" são muito frequentes no nosso quotidiano clínico. Alguns dispositivos como panfletos esclarecedores sobre as síndromes virais ou sobre os sintomas de alerta e a reestruturação do espaço físico têm permitido a prevenção de algumas exacerbações.

 

jose_agostinho.jpgChegou o Inverno! Aqui fechado no gabinete vejo, através da janela, a chuva a pingar lá fora... E curiosamente, através do monitor, vejo os doentes a pingarem na consulta não agendada. O cenário exterior até é frio... Mas aqui dentro as coisas estão prestes a aquecer!

A nova estação trouxe consigo os picos febris, as tosses, as odinofagias, os vómitos e as mialgias. Trouxe as infecções respiratórias, as gastroenterites virais e as perturbações depressivas. Porém, como um bom visitante (não-desejado?) chegado aos nossos lares após longos meses de ausência, também nos ofereceu alguns presentes: as gentes na sala de espera; a saída mais precoce das escolas e infantários pelos miúdos e; os pais nervosos à porta do gabinete. E nós... com um bonito sorriso amarelo (mas desejando internamente bater com a cabeça num tijolo!) aceitamos e fingimos que o presente é a nossa cara com uma pobre expressão: "pois, é o costume... assim é a tradição!".

Nesta época do ano, o que é certamente costume é haver um agravamento das patologias crónicas devido às diversas intercorrências infecciosas. Durante a nossa prática clínica, contactamos com as frequentes exacerbações sazonais de uma patologia sobejamente conhecida, porém, curiosamente, pouco descrita: a doença paternal obstrutiva crónica (DPOC).

Qual de nós não tem que actuar quase diariamente, nesta fase do ano, perante uma agudização desta doença paternal? Sabemos bem as suas manifestações. Em ambiente invernoso, tudo começa com a agressão do epaistélio pelas diversas chamadas telefónicas dos infantários e escolas para os pais que podem ser de diferentes tipos, porém, o mais comum é denominado "o menino fez febre, venha-o buscar!". Tal agente cria um maior afluxo às unidades de saúde, em busca de uma resposta pelo corpo médico, e tal faz distender, expandir e esticar a sala de espera até aos corredores de passagem ou mesmo à porta de entrada. A entrada ininterrupta de adultos com crianças ao colo poderá dar a entender que o efluxo será igualmente livre. Puro engano! Sem mãos a medir - mas, sabendo-se que são apenas duas mãos - o médico assistente tenta dar uma orientação rápida enquanto "abafa" cada vez que abre a porta do gabinete e entram dois pais e uma criança empurrados pelas forças exteriores.

Este fenómeno chamado de pai-trapping pode ser gravemente comprometedor do funcionamento das unidades de saúde, criando uma subjectiva sensação de dispneia e de aperto impaciente tanto no profissional de saúde como nos próprios pais. E se o profissional até vai sabendo controlar os seus sintomas (quer dizer, nem todos!), os pais mostram-se facilmente incomodados com os sintomas com horas de evolução, desenvolvendo crises de broncalãoespasmo, manifestado em sons apalavrados conhecidos por "leõeszinhos" (quais "gatinhos"?!!!) e muitos, muitos mesmo, roncos! Ambos assumem uma frequência caracteristicamente grave na sala de espera. No entanto, já dentro do gabinete, tal ruídos adventícios assumem, tipicamente, semelhanças com a sibilância, isto é, soam mais fininho.

De facto, dentro de gabinete, a manifestação mais típica da DPOC é a hiperviscosidade da inércia de alguns pais em qualquer acção ou atitude clínica, que limita a exteriorização de uma resposta clínica. Senão vejamos este cenário clínico muito comum: imensa gente na sala de espera, um ar quente dentro das quatro paredes, os roncos provindos do exterior, as chamadas das administrativas a perguntar "se falta muito para o doente X" e... ... o Joãozinho de 4 anos que parte o gabinete todo perante o olhar apenas reprovador dos pais e que, enquanto não parte o gabinete todo, está dedicado a contrariar a observação médica. O ponto máximo de obstrução ao fluxo expiratório clínico situa-se na observação da orofaringe! Ui ui... (permitam-me este suspiro!) ...como é terrível a observação da orofaringe em filhos não-colaborantes de pais que padecem de DPOC e que não impõem a mínima ordem nem são capazes de criar retenção nos braços ou pés que traumatizam violentamente os braços do clínico! O que inicialmente poderia ser uma observação de poucos segundos torna-se uma intensa aventura de minutos em busca de um tesouro ruborizado com ou sem exsudados... E lá fora, o pai-trapping continua a progredir e a ocupar, comprimir e colapsar o espaço destinado ao fluxo de doentes. Depois de alguma rinorreia na bata, salpicos de saliva na cara e de uma estranha sensação de que se fez um exercício de halterofilismo com uma simples espátula de madeira... lá chegamos ao plano da consulta, orientação terapêutica e, finalmente, assistimos emocionados ao fechar da porta do gabinete.

Após um minuto para recuperação e higiene das mãos, lá chamamos a Ana, de 3 anos... a porta abre... os ruídos adventícios voltam a assumir uma intensidade maior... e a pequenina Ana desata a berrar só de olhar para a bata branca!... E eis que a história se repete...

As exacerbações da DPOC tornam-se, assim, muito frequentes no nosso quotidiano clínico, mas julgo estarmos preparados para lidar com elas. Alguns dispositivos como panfletos esclarecedores sobre as síndromes virais ou sobre os sintomas de alerta e a reestruturação do espaço físico têm permitido a prevenção de algumas exacerbações. Porém, assim se mantém o Inverno!... E assim é a nossa prática clínica. E talvez por estas e por outras, seja uma prática tão fascinante!

 

José Agostinho Santos
USF Lagoa, Centro de Saúde Senhora da Hora
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Editorial | Jornal Médico
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