Tiago Villanueva: a experiência de um jovem MF no Sudeste Asiático
DATA
23/03/2012 08:45:10
AUTOR
Jornal Médico
Tiago Villanueva: a experiência de um jovem MF no Sudeste Asiático

decidi que este seria o ano em que quebraria a malapata, pois tirando o exercício da MGF, em Portugal - e as várias experiências durante o Internato em termos de estágios e programas de intercâmbio em alguns países Europeus - não tinha noção, na prática, de como era exercer Medicina num contexto de Terceiro Mundo

villanueva_tiago.jpgPorquê as Filipinas?

Apesar de ter nascido e de ter vivido a maior parte da minha vida em Portugal, a minha mãe é natural das Filipinas, e a língua e cultura filipinas sempre estiveram muito presentes em casa. Grande parte da minha família do lado materno vive lá. Apesar da sua beleza natural, esta antiga colónia espanhola no Sudeste Asiático constituída por mais de 7.100 ilhas e quase 100 milhões de habitantes ainda é um país relativamente pouco visitado e pouco conhecido na Europa, comparativamente com outros países da região, de grande tradição turística, como a Tailândia e a Indonésia. E existe uma explicação. O país é palco onde com frequência se desenrolam catástrofes naturais de grandes proporções, como terramotos, inundações e furacões. Por outro lado, sendo um país maioritariamente católico, apresenta graves problemas de segurança, sobretudo no Sul, onde as forças armadas combatem há várias décadas grupos terroristas que pretendem a independência desta região (maioritariamente muçulmana), e ocorrem esporadicamente situações de rapto e mesmo execução de turistas.

 

Lingkod Timog

 Já tinha conhecimento há vários anos da existência de uma Organização Não Governamental Norte-Americana chamada Lingkod Timog (que significa "Servir o Sul") que organiza missões anuais de curta duração ao país, sempre em Fevereiro. O seu director médico é um norte-americano chamado Andrew Wilner, mas a maioria da comitiva que viaja anualmente para o país é constituída por filipinos radicados há várias décadas nos Estados Unidos da América (EUA).

Durante o Internato nunca foi possível ir, mas decidi que este seria o ano em que quebraria a malapata, pois tirando o exercício da Medicina Geral e Familiar em Portugal - e as várias experiências durante o Internato em termos de estágios e programas de intercâmbio em alguns países Europeus - não tinha noção, na prática, de como era exercer Medicina num contexto de Terceiro Mundo.

Estas missões visam prestar cuidados de saúde a populações indígenas, que vivem em zonas remotas, e têm pouco acesso regular a cuidados de saúde. Certamente, trata-se de um mundo à parte daquele com que nos deparamos quando aterramos em Manila, a gigantesca, vibrante e cosmopolita capital do país, com cerca de 12 milhões de habitantes. Até há poucos anos, estas missões eram realizadas sob fortes medidas de segurança na ilha de Basilan, o principal palco dos confrontos de grupos terroristas com as forças armadas. Recentemente, passaram a ter lugar na ilha de Palawan, que tem cerca de 700 mil habitantes e está localizada na região ocidental do país, distando poucas dezenas de quilómetros das ilhas Spratley. Estas ilhas, apesar de praticamente desabitadas, têm depósitos vastos de petróleo e gás natural, e têm portanto vindo a ser alvo de tensões militares entre vários países da região, nomeadamente a China e as Filipinas, que reclamam a sua soberania territorial.

 

Contornando problemas de segurança

Um aspecto particular destas missões é que contam com um apoio fundamental das forças armadas locais, nomeadamente do comando militar unificado da região ocidental das forças armadas das Filipinas (Western Command), liderado pelo General Juancho Sabban, sem o qual a sua concretização não seria possível, devido aos problemas de segurança de que falei. Para além de acompanharem a missão e assegurarem protecção e segurança, asseguram alojamento e alimentação à comitiva na sua base em Puerto Princesa (capital da ilha de Palawan), e fornecem apoio logístico. Todas as saídas para os locais de missão têm início e fim na base, e contam com uma complexa logística de transporte, que inclui uma coluna militar composta por vários veículos ligeiros e militares.

 

As comunidades indígenas

cronica_tiago_villanueva_230_01.jpgEste ano, os esforços centraram-se em duas das sete principais comunidades indígenas da ilha (os Tagbanua e os Tao't Bato), e que habitam zonas remotas, sobretudo montanhas e cavernas. A prestação de cuidados de saúde a estas populações é dificultada por várias razões incluindo o péssimo estado das estradas e vias de acesso (a maioria delas não estão pavimentadas), o escasso número de profissionais e recursos de saúde, e os próprios hábitos culturais das populações indígenas também contrariam a busca de cuidados de saúde. Por exemplo, os indígenas preferem que o parto decorra em casa, contando apenas com o apoio de familiares. Por outro lado, é de notar que muitos indígenas mudam de nome quando ficam doentes, porque acham que o seu nome lhes trouxe azar.

Pude comprovar os problemas extremos de acessibilidade a cuidados de saúde, pois foi sempre necessário andar várias horas na estrada para atingir as comunidades visadas. Ao longo do caminho, é possível constatar como vivem as populações, nomeadamente em cabanas construídas sobre estacas de madeira, revestidas com folhas de coqueiro e cobertas por um telhado de colmo. A maioria das pessoas dedica-se à agricultura de subsistência, sobretudo de arroz. Devido à ausência de água canalizada, vêem-se muitas crianças a caminhar durante horas a fio, carregando contentores com água que vão buscar ao poço mais próximo. Muitas destas crianças são obrigadas a caminhar durante horas para conseguirem chegar à escola. Aliás, os búfalos de água (carabaos), que são utilizados localmente para lavrar os solos são também utilizados como meio de transporte. Muitas pessoas tentam deslocar-se de todas as formas que podem para poderem vender os seus produtos nos mercados locais, apesar de que muitas vezes arrisquem a vida para o fazer, como quando viajam em cima do tejadilho de autocarros locais.

 

Actividade assistencial

Nos locais de missão, pacientes aguardam a sua vez para serem observados pelos médicos, organizando-se numa fila compridíssima, mas ordeira, em zonas cobertas ao ar livre. Ninguém se queixa, apesar do calor insuportável e da maior parte das pessoas ter caminhado durante várias horas para chegar ao local. Ali está-se perante uma Medicina Geral e Familiar em todo o seu esplendor, pois raramente se atendem pacientes individualmente, mas sim em famílias alargadas. Devido à grande influência da igreja católica no país, o planeamento familiar e a utilização de contracepção é muito deficiente e desencorajada, pelo que é normal as mulheres virem à consulta acompanhadas de pelo menos quatro ou cinco filhos.

Cada médico trabalha ombro-a-ombro com uma enfermeira filipina, que serve também de tradutora sempre que necessário de tagalog (língua oficial filipina) para inglês. Nos casos em que os indígenas apenas falavam dialecto, era necessária uma segunda camada de tradução de dialecto para tagalog, recorrendo a outro tradutor.

O padrão de problemas de saúde observado difere um pouco daquele que temos em Portugal. A maioria das crianças e dos adultos referiu queixas respiratórias, relacionadas com as más condições habitacionais, sanitárias e de higiene. Muitos destes casos serão casos de tuberculose, que é altamente prevalente. Como não é possível confirmar localmente com exames complementares de diagnóstico a suspeita de doenças graves, apenas era possível chamar a situação à atenção dos poucos profissionais de saúde locais que nos acompanhavam, com vista aos utentes serem eventualmente referenciados para os cuidados de saúde secundários.

Após cada consulta, escrevíamos a nossa prescrição (limitada a um pequeno formulário de fármacos disponíveis) numa folha de papel, que o utente depois aviava na farmácia montada no local. De notar que todos os medicamentos foram doados, quer por instituições, quer por particulares, sobretudo a partir de acções e eventos de angariação de fundos que a Lingkod Timog levou a cabo nos EUA, país com grande tradição nesta área.

A malnutrição infantil é também muito frequente, e muitas crianças, por exemplo, de sete anos, têm um peso e estatura equivalente ao de uma criança de quatro anos em Portugal. Os acidentes domésticos com crianças ocorrem com frequência, e várias crianças apresentavam, por exemplo, queimaduras graves. Alguns indivíduos apresentavam fracturas nunca tratadas com deformações dos membros, resultantes de quedas a partir de coqueiros!

Observei vários exantemas que provavelmente correspondem a doenças tropicais inexistentes e com as quais estou pouco familiarizado.

Várias puérperas e mulheres com crianças apresentam clínica de anemia grave muito provavelmente por falta de cuidados pré-natais adequados, incluindo suplementação adequada com ferro e ácido fólico durante a gravidez.

De resto, existe todo o espectro de problemas crónicos melhor ou pior controlados, como a hipertensão ou a insuficiência cardíaca.

Em simultâneo, as equipas de cirurgiões e médicos dentistas das forças armadas prestavam cuidados cirúrgicos (por exemplo, circuncisão, pequena cirurgia) e de medicina dentária (por exemplo, extracções de dentes), e havia também a possibilidade de realizar no local rastreios de malária, que é um problema importante na ilha de Palawan.

Fiquei com a sensação que a gestão da incerteza, tão "típica" dos cuidados de saúde primários, ali assume proporções ainda maiores do que em casa. Se por um lado é "fácil" trabalhar porque se dispõe de um arsenal terapêutico limitado, por outro é extremamente difícil porque os recursos locais são limitados e é extremamente complicado e desafiante contornar dúvidas diagnósticas.

 

Conclusão

 A prestação de cuidados de saúde neste tipo de circunstâncias gera sentimentos ambíguos. É ao mesmo tempo fácil e muito difícil, ao mesmo tempo gratificante e desmoralizador. Além disso, é perfeitamente evidente que os cuidados prestados por ONG são uma gota de água no oceano de necessidades de saúde, embora haja também falta de alternativas sustentáveis, pois há poucos incentivos para os profissionais de saúde se fixarem na região. Neste país, e nesta região em concreto, é bem patente a importância de a formação médica pré e pós-graduada ir além do estritamente técnico e biomédico e incluir assuntos como os determinantes de saúde, a antropologia, política, economia, entre outros.

A Lingkod Timog é uma organização sem fins lucrativos, e depende inteiramente de doações e angariação de fundos. Se estiver interessado em realizar uma doação, saber mais sobre a organização ou inclusivamente participar numa futura missão, pode obter mais informações em www.lingkodtimog.com.

Posto isto, mal posso esperar para regressar no ano que vem!

 

Tiago Villanueva, médico de família, Lisboa

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Nota: todas as despesas de viagem ficaram a cargo do autor, que viajou a título voluntário.

 

 

Deixar cair com violência o que é desnecessário e aproveitar a oportunidade
Editorial | Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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Assaltar o desnecessário. Rasgar a burocracia. Rejeitar o desperdício. Anular a perda de tempo. As aprendizagens da pandemia serão uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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