Rui Cernadas: Estado, solução ou problema?
DATA
23/03/2012 09:44:58
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: Estado, solução ou problema?

Ninguém ignora, no plano da saúde em geral, o peso, o lugar e a função que o medicamento ocupa para as pessoas e para os estados, respectivamente, como meio terapêutico e expectativa e como meio de custo e despesa global

rui_cernadas.jpgHá dias numa leitura apressada e descomplexada, trinquei o lábio inferior, ao mesmo tempo que deveria ter dito algum, inconfessável, palavrão!

E, na verdade, ainda não sei bem como isso aconteceu, sendo certo que o que lia, era a respeito da necessidade de reduzir a medicamentalização da prestação de cuidados de saúde: "... Trata-se de algo difícil de atingir uma vez que depende sobretudo do estilo/cultura de prática médica, mas é uma corrente que parece receber muita simpatia entre responsáveis ligados às Ordens profissionais da saúde".

Fiquei tão espantado que, não fora o facto de ter mordido o lábio, ter-me-ia mantido de boca aberta durante alguns minutos, porventura sob maior risco do que o resultante de a ter cerrada...

Este entendimento que sectores económicos e ligados à gestão fazem dos médicos, metendo pelo meio a Ordem dos Médicos, tem sido recorrente e em alguma medida, serve os interesses de quem tem outros focos de atenção e investimento De resto, estas questões estão presentes, sobretudo, nos momentos mais apertados do esforço de controlo da despesa pública em saúde.

A "medicamentalização" tem passado nas sociedades europeias e desenvolvida por um "mix" de factores causais, que vão desde o avanço das inovações tecnológicas ligadas à transmissão da informação e à comunicação, ao papel das agências publicitárias, que tornaram mais apurado o seu trabalho na promoção de medicamentos e/ou patologias, até ao sentido algo irresponsável como alguma comunicação social "mastiga" e passa a informação para o grande público.

Ninguém ignora, no plano da saúde em geral, o peso, o lugar e a função que o medicamento ocupa para as pessoas e para os estados, respectivamente, como meio terapêutico e expectativa e como meio de custo e despesa global.

Como ninguém, na saúde, tem dúvidas de que quando, num programa televisivo com certa audiência ou incluindo figuras ditas públicas, a abordagem de sintomas ou doenças provoca, nos dias seguintes, uma corrida às unidades funcionais do SNS e aos médicos de família, ou assistentes ou amigos...

Nesta fase, nunca ouço referir que, sendo uma responsabilidade de todos nós, médicos à cabeça, o cuidado e o rigor que a informação aos doentes nos exige, na área do medicamento há outros parceiros com responsabilidades bem definidas no processo global de utilização racional e adequada dos medicamentos e das tecnologias de saúde.

O que poderíamos reclamar seria, por exemplo, o fim dessa existência de cobertura financeira (generalizada e que nos desgraçou como cidadãos e como País!) das despesas em saúde, que incentivou e facilitou excessos de consumo de cuidados, não controlados, nem avaliados e que, no mínimo, só agora parecem começar a obrigar os consumidores a suportar algum risco e custo.

Para quem paga serviços, os utentes em geral, valor e preço não são noções diferentes, nem distintas, equivalendo-se. Porém, no plano da saúde, julgo que as coisas mudaram e o valor adquiriu uma dimensão bem superior à do custo, representando, agora, qualidade e um direito que ninguém quer perder...

Lembro-me de ter lido um livro de Michael Porter onde este dizia, mais ou menos, que no sistema de saúde, se todos os intervenientes tivessem de competir em valor, então o valor melhoraria brutalmente.

Por outro lado, o paradigma assistencial tem sido sempre o dos hospitais, como polarizadores dos meios e recursos que produzem tranquilidade nos doentes e cuidadores. Aliás, a capacidade de resposta dos cuidados primários, não sendo uniforme nem homogénea no território nacional, tem uma relação custo-benefício e de satisfação dos cidadãos muito apreciável. O problema é, diria eu, cultural ou civilizacional: por um lado não há autarca que não queira um hospital como recurso de dignidade acrescida ou factor de "desenvolvimento" local e, por outro, a comunicação social, que compra qualquer assunto ligados aos hospitais como se de ouro se tratasse...

Veja-se como o encerramento de uma unidade de saúde, aonde um médico passa uma ou duas vezes por semana, por exemplo, sem condições materiais para um atendimento clínico sério, é entendido como injusto, imoral ou ilegítimo! Desgraçado país que para além de ser enganado com a maior das facilidades, exige ser enganado continuamente!

Felizmente, acredito que a ideia de aguardar por um Estado - que alguns gostam de afirmar "social" - que faz tudo e de tudo, não pode continuar a ser a solução. Ainda que não possa deixar de ser um garante para as franjas de cidadãos que nada têm e deva assegurar um papel de regulador eficaz e capaz de evitar abusos e fraudes.

Mas também não quero, ou não quereria, que o Estado fosse o problema...

 

Rui Cernadas
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