Carl Steylaerts: Moeda complementar – I
DATA
23/03/2012 09:48:43
AUTOR
Jornal Médico
Carl Steylaerts: Moeda complementar – I

Dependendo do local onde se está, o dinheiro pode assumir as mais variadas formas. Mais estranha ainda é a forma como habitualmente é utilizado. Para pagamentos, trocas ou apostas. E desde a crise do crédito sabemos que apostar é um jogo da alta finança, com os contribuintes a pagarem a factura

carl.jpgO dinheiro é uma coisa engraçada. É real e irreal, é passado, presente e futuro. Pode ser uma cartão de plástico ou um canivete. Se você naufragar numa ilha deserta na posse destes dois objectos, qual seria o de maior valor para si, o cartão VISA ou o canivete? O canivete, presumo. E se mantivermos ambos os objectos e alterarmos o cenário para um hotel de cinco estrelas em Bora Bora? O cartão de crédito, presumo. Novamente os mesmos objectos, desta vez em Harlem, Nova Iorque? Ambos, quer-me parecer.

Então... dependendo do local onde se está, o dinheiro pode assumir as mais variadas formas. Mais estranha ainda é a forma como habitualmente é utilizado. Para pagamentos, trocas ou apostas. E desde a crise do crédito sabemos que apostar é um jogo da alta finança, com os contribuintes a pagarem a factura.

Usamos dinheiro - ou moeda - diariamente, sem que nos apercebamos. Sempre esteve lá. Continua a estar. É uma questão de fé, de confiança, é praticamente universal, e gostamos de a ter. O que muitos de nós provavelmente desconhecemos é a existência de moedas complementares. As moedas universais são emitidas por Bancos Centrais nacionais, privados ou semi-privados, mas as moedas complementares são emitidas por pessoas como você e eu. Pessoas dignas de confiança, obviamente. Como você e eu.

Estas moedas não têm nomes estranhos como dólar, libra, euro ou iéne, mas nomes giros como fureai kippu (palavra japonesa para caring relationship ticket, um sistema de prestação de cuidados de proximidade a idosos), saber (palavra portuguesa para conhecimento), Curitiba (nome de uma cidade brasileira), WIR (Wirtschaftsring - Genossenschaft), LETS (Local Exchange Trading System) e muitas outras.

Porque é que alguém um dia inventou o dinheiro? E por que é que existem moedas complementares? A invenção do dinheiro é um mistério, mas o shekel foi uma das primeiras formas de moeda, enquanto símbolo de peso de uma determinada quatidade de cereais. Assim, o motivo da invenção do dinheiro tem que ver com uma promessa. Quid pro quo.

As moedas complementares sempre existiram, porque nos primeiros tempos as moedas eram escassas. A invenção da "promessa" (por banqueiros italianos no século XIV) levou à criação do primeiro dinheiro em papel e... da moeda complementar em papel para moeda! Agora que o dinheiro em papel é universal, sendo substituído por dinheiro virtual, esquecemo-nos de que no início a moeda era complementar...

As moedas complementares de hoje não sofreram qualquer impacto com a crise do crédito, tornando-as interessantes aos olhos de pessoas e comunidades que não gostam de se envolver no "casino do capitalismo". Como tesoureiro honorário da WONCA Europa, gostaria de preservar todo o dinheiro universal de que dispomos e criar outras moedas complementares. Nas crónicas anteriores, já deixei algumas sugestões neste sentido.

O dinheiro não traz felicidade, toda a gente sabe isso, mas não ter dinheiro suficiente também não. A evidência mostra que até um certo ponto, o dinheiro proprociona felicidade, mas quando esse limite é ultrapassado... mais dinheiro não significa mais felicidade. No TheWorldBookOfHappiness(.com), Erich Kirchler, professor de Psicologia na Universidade de Viena, cita-se a si memso no livro Love, money and everyday life para dizer que é melhor investir em relações do que em bens materiais.

Ora, é precisamente esse o objectivo da moeda complementar. Quando se atinge o ponto de "dinheiro suficiente" e se quer contribuir para a sua própria felicidade e do resto do mundo - mas, de uma forma concreta, literal - pode e deve investir-se em moedas complementares. Mas alguém tem que ser o primeiro. E é aí que entra em campo a WONCA!

Para aqueles que quiserem saber mais sobre estas questões, os links úteis seguem imediatamente abaixo. Na próxima crónica aprofundarei o tema.

 

http://www.lietaer.com/

http://www.theworldbookofhappiness.com/

 

Carl Steylaerts, MD
Tesoureiro honorário da WONCA Europa

 

 

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Editorial | Jornal Médico
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