As intermitências da morte – II
DATA
23/03/2012 09:53:12
AUTOR
Jornal Médico
As intermitências da morte – II

Os entes do doente terminal na ansia de contornar ou adiar indefinidamente a morte conduzem-no aos serviços de saúde. Esse é um objetivo assumido, consciente. Mas há outro motivo, subliminar, pouco reconhecido

"Sepulta-me quanto antes, a fim de eu transpor as portas de Hades."
Homero - A Ilíada, canto XXIII

A morte nos hospitais

"Companheira de terrores
Nunca querida, sempre achada,
Sou temida e detestada"

Goethe - "Fausto" 11429-31

Na passada quinzena afloramos três pontos de reflexão sobre a morte, com eventual relevância para o exercício da medicina: o mito da evicção da morte, a morte enquanto momento solene e a burocracia que a morte acarreta. Reconhecer estes três pontos pode ajudar a evitar inconvenientes consideráveis. Os entes do doente terminal na ansia de contornar ou adiar indefinidamente a morte conduzem-no aos serviços de saúde. Esse é um objetivo assumido, consciente. Mas há outro motivo, subliminar, pouco reconhecido: aligeirar a burocracia associada à morte. Se o doente terminal se finar numa instituição hospitalar a incerteza associada à emissão da certidão de óbito não se coloca à família. Depois há uma paradoxal perda do sentido da solenidade, que leva os familiares a renunciarem à partilha do momento e a esquecerem toda a sua transcendência.

Portanto, os hospitais, nomeadamente os SO, estão-se a tornar depósitos de moribundos. Ora, não é propriamente essa a sua missão. É fácil imaginar a frustração dos profissionais que trabalham nesses serviços perante este equívoco que se apoderou da sociedade. Por outro lado, há que reconhecer que estes profissionais não são os que estão em melhor posição de fazer "educação para o modo de bem morrer". Ninguém aceitaria ouvir a um elemento escalado num banco de urgência a vedar a entrada a um doente terminal: "Vá morrer em casa que é melhor para si."!

Os MF e a morte

"Médicos devem ser pedagogos da boa morte"
Padre José Nuno

 Compete, julga este lapidador de frases, à medicina familiar dar o seu contributo para modificar a actual visão da morte. Claro que as reflexões que se seguem nada trarão de novo aos colegas que acompanham regularmente doentes terminais ou que estejam familiarizados com os manuais sobre cuidados paliativos.

Não esqueçamos as reflexões sugeridas antes de abordar as questões da morte iminente dos nossos doentes com os seus familiares. Antes de mais, recordemos a transcendência do evento. Independentemente da tonalidade da emoção que lhe seja associada, dor ou libertação, a consciência dessa transcendência deverá modular a forma da comunicação. Portanto, uma certa reverência deverá marcar o tom do que quisermos dizer.

A mensagem à família terá com o objectivo trazer paz aos entes do doente terminal contemplando duas perspectivas: a filosófica e a prosaica ou burocrática.

O aspecto filosófico comporta, por sua vez, duas abordagens: a ontológica e a ética. Antes de mais, é mister confrontar com a realidade trágica, mas inexorável: não é possível "empurrar com a barriga" o fim da vida. A morte é o destino de todo o ser que nasce. Por outro lado, é preciso pacificar a consciência dos familiares: já estão cumprindo cabalmente as suas obrigações morais para com o doente terminal. Recorrer ao banco de urgência é supérfluo porque aí já não prolongarão a vida e é contraproducente porque, por norma, só servirá para aumentar o sofrimento. Muitas vezes a família já interiorizou estes conceitos, faltando-lhe apenas o discernimento técnico sobre o prognóstico e espera do médico a opinião sobre o que vale a pena fazer.

 Por fim, a questão mais terra-a-terra: a certidão de óbito. O médico de família deverá disponibilizar-se para preenchê-la. Sossegada a consciência dos familiares, conciliados com o inevitável e acauteladas as preocupações burocráticas, estaremos a concorrer para libertar os SU duma sobrecarga inútil. E, sobretudo, a contribuir para humanizar o fim da vida.

Resta dizer que não se pode concluir que neste texto que se defenda a recusa de cuidados de saúde com fins curativos a idosos. É óbvio que não. O que esse defende é justamente enfrentar de forma mais digna a realidade da morte quando se torna claro que ela é iminente.

Post Scriptum

"(...), ontem cheio de vida está hoje a morrer;"
Ludlul bel nemeqi II, 39 (texto mesopotâmico)

 Preparava-se o escrivinhador para enviar a prosa para o editor, quando surgiram as notícias alarmadas do aumento da mortalidade neste frígido Inverno. Este tocar a rebate é um exemplo da perplexidade dos contemporâneos perante a morte. Tido como evitável ou adiável sine die, o falecimento tornou-se o escândalo da moda. Numa sociedade progressivamente mais envelhecida como a nossa, é de esperar que a mortalidade vá aumentando com o passar dos anos. Preocupante será constatar-se uma eventual diminuição da longevidade a acompanhar esse aumento da mortalidade, mas de modo algum o aumento de número de defuntos.

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Editorial | Rui Nogueira, Médico de Família e presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar
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Depois de três meses de confinamento é necessário aceitarmos a prudência de DES”confinar sem DISconfinar. Não vamos querer “morrer na praia”! As aprendizagens da pandemia Covid-19 são uma ótima oportunidade para acertar procedimentos e aperfeiçoar métodos de trabalho. O estado de emergência e o estado de calamidade ensinaram-nos muito! É necessário desconfinar o centro de saúde com uma nova visão e reinventar o conceito com unidades de saúde aprendentes e inovadoras.

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