Programa Hippokrates: relato de uma experiência como host
DATA
19/04/2012 11:29:06
AUTOR
Jornal Médico
Programa Hippokrates: relato de uma experiência como host

Somos uma dupla de orientadora e interna de Medicina Geral e Familiar (MGF) da Unidade de Saúde Familiar (USF) Santiago, em Marrazes, Leiria, e tivemos o privilégio de receber a Amber Janjua, no âmbito do programa Hippokrates, durante duas semanas em Setembro último

 

Somos uma dupla de orientadora e interna de Medicina Geral e Familiar (MGF) da Unidade de Saúde Familiar (USF) Santiago, em Marrazes, Leiria, e tivemos o privilégio de receber a Amber Janjua, no âmbito do programa Hippokrates, durante duas semanas em Setembro último. Esta colega é uma recém-especialista em General Practice, a exercer em Hertfordshire, Inglaterra. Ela achou interessante visitar Leiria por não ser um destino turístico habitual.

Neste tipo de experiências, temos todo o interesse em mostrar aos colegas estrangeiros como funciona a nossa especialidade e o nosso serviço nacional de saúde. No entanto, também esperamos "beber" algo do que se passa nos seus países de origem. Nas unidades de cuidados de saúde primários (CSP) inglesas procuram incluir médicos com áreas de interesse especial. No caso da Amber, a área de interesse é a Dermatologia. Para se manter mais informada nesse domínio, para além de estudar, assiste semanalmente à consulta de Dermatologia do hospital local, no seu tempo livre. Na unidade onde trabalha, todos os casos de Dermatologia mais complicados são encaminhados para ela. Obviamente, aproveitámos os seus conhecimentos para ver utentes nossos com patologias dermatológicas. E aprendemos imenso! 

A Amber passou a maior parte do tempo como "sombra" na consulta. Achou graça à decoração colorida do gabinete, com algumas fotografias das crianças do ficheiro na parede e a fotografia de um burro a sorrir na porta a lembrar os utentes de fazer o mesmo. 

Quando explicámos um pouco do nosso serviço nacional de saúde, a primeira diferença que a Amber achou que os nossos cuidados de saúde são muito descentralizados, com as cinco administrações regionais de saúde (ARS), e conseguiu perceber que existem diferenças significativas entre elas. Esta variabilidade pareceu-lhe correr o risco de nem sempre ser racional ou eficiente.

Amber ficou positivamente impressionada por cuidarmos de listas de agregados familiares e por se procurar que os utentes sejam vistos pelo seu próprio médico de família (MF). A realidade dela é bem diferente. Têm listas de utentes que podem, em cada contacto com a unidade, escolher ser vistos por médicos diferentes. A nossa maneira de trabalhar pareceu-lhe promover muito mais a continuidade dos cuidados e o estabelecimento da relação médico-doente. Ela achou que isto favorecia a prevenção quaternária.

Na USF Santiago trabalham seis MF, cinco enfermeiros e quqtro assistentes técnicos. Foi interessante verificar que a Amber achou que tínhamos enfermeiros a mais e secretários a menos, sendo muito do trabalho de "secretariado" feito pelos médicos. Esta opinião foi ainda mais reforçada pela observação de que os nossos enfermeiros não fazem as actividades preventivas que fazem em Inglaterra como, por exemplo, as citologias do colo do útero e as consultas de diabetes, entre outras. A médica inglesa achou notável a quantidade de medicina preventiva que os MF fazem em Portugal. Ficou igualmente surpreendida com a quantidade e a qualidade de informação que registamos nos processos clínicos.

Comparativamente com o modelo Inglês, o nosso tempo de consulta é superior, o que permite maior tempo de escuta activa do utente e abordar mais do que um problema por consulta. Achou ridícula a necessidade de as pessoas virem pedir documentos, mesmo que por apenas um dia de falta ao trabalho.

A nossa articulação com os cuidados secundários foi considerada pobre. Ao contrário do que se passa em Inglaterra, nós raramente recebemos informação de retorno das consultas hospitalares. Também achou excessivos os tempos de espera para algumas especialidades.

O nosso actual programa de formação específica em MGF é comparável ao inglês, com a vantagem de o interno ter sempre o mesmo orientador, permitindo uma melhor relação entre ambos. No entanto, Amber achou que os orientadores deviam ter formação obrigatória e avaliações regulares.

A colega inglesa apreciou bastante o ambiente da nossa USF, particularmente os almoços tomados em conjunto na sala de refeições da unidade. Nós achámo-la extremamente agradável, pertinente e perspicaz. Em apenas duas semanas, conseguiu compreender a maior parte da nossa prática e das nossas próprias personalidades, o que ficou patente nas prendas de despedida que nos ofereceu.

Achámos esta experiência extremamente positiva, recomendamo-la e ansiamos repeti-la!

 

Denise Alexandra (orientadora)
Ana Moutinho (interna)
USF Santiago

 

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Editorial | Jornal Médico
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