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DATA
07/05/2012 10:45:39
AUTOR
Jornal Médico
Aplausos e apupos

Embora não mereça honras de foguetório, o facto do ministro da saúde se empenhar na defesa da saúde é seguramente de louvar

Aplausos

"Nunca te doam as mãos"
Dito popular

Embora não mereça honras de foguetório, o facto do ministro da saúde se empenhar na defesa da saúde é seguramente de louvar. Mas quando as iniciativas põem em causa a Big Tobacco e os lóbis do álcool, demonstram uma coragem que deve ser realçada e apoiada. Se tivermos em conta que o atual ministro não é originário da área da saúde, mais elogios se lhe devem. Como de costume a oposição protestou (como compete à oposição e como longos são os tentáculos dos lobis), dentro dos partidos do governo vieram reticências (são deveras longos os tentáculos dos lóbis), refilaram os meios de comunicação social (os tentáculos dos lóbis são bem longos) e os opinion makers da praça indignaram-se (os lóbis têm tentáculos assaz longos).

Devemos desculpar a falta de inovação que as litanias pranteadas por toda esta plêiade de indignados: a ausência de fundamentação das causas pró-tabágicas e pró-alcoólatras não lhes deixa outra opção senão recauchutarem os velhos argumentos e recitar os costumeiros mantras pretensamente antiautoritários e profetizando a ineficácia das medidas proibicionistas. A hipocrisia do primeiro é evidente, descaradamente evidente: não se ouvem protestos contra a proibição de uso de telemóveis por parte dos condutores, mas já envenenar os filhos é um direito considerado inalienável pelos críticos do projeto de lei. Por outro lado, reconhece-se ao estado a legitimidade para negar direito de paternidade aos pais biológicos, mas não para proteger as crianças contra o fumo emitido pelos progenitores desleixados.

Já no caso do segundo argumento, pode desculpar-se a ignorância do comum dos cidadãos: é que as medidas proibicionistas, secundando os aumentos de preço, que ultrapassem os 10%, são as medidas mais eficazes no combate ao tabagismo. Já não é perdoável que a Ordem dos Médicos ignore tal facto. Mais sobressai o mérito do ministro quando contrastado com a deplorável postura da nossa Ordem que teima, na questão do tabaco, em mandar às ortigas o juramento de Hipocrates e olvidar as bases científicas da Medicina. A ambiguidade da OM (e de muitos médicos, infelizmente) é de tal modo abstrusa que lembra, nas devidas proporções o deplorável caso de Semmelweis e da resistência anticientífica e encarniçada, que a classe ofereceu à sua teoria.

Uma tese, muito popular entre os clínicos portugueses, defende que o cargo de ministro da saúde deve ser entregue a um médico. Ora a corajosa iniciativa deste ministro, não-médico, põe em causa essa opinião. Conhecedores que somos da debilidade do movimento antitabágico dentro da própria classe médica portuguesa, é legítimo questionarmo-nos se teríamos a sorte de ter um médico tão decidido como este ministro na luta contra a principal etiologia das mortes evitáveis.

Afinal sempre merece foguetes.

Apupos

"Tudo como de antes: quartel-general em Abrantes"
Dito popular

Nos dias que correm, é com alívio que este assentador de frases encontra motivo para censurar o governo. Sou duma era em que só eram permitidos encómios ao poder, sendo deveras arriscada a apreciação negativa. Hoje tornou-se moda o inverso. Já não é a masmorra da Pide que preocupa, mas a opinião pública. Apesar do desprezo ser menos assustador que a tortura, o melhor mesmo é evitá-lo. E como qualquer elogio ao poder se tornou suspeito, mormente no atual estado de impopularidade dos governantes, é com indisfarçável ambiguidade de sentimentos que passo à vaia: é que se a denúncia se debruça sobre factos muito preocupantes, a oportunidade de a fazer iliba de suspeitas ligações ao poder. Mas vamos ao que interessa.

No seguimento da análise oportuna e arguta do Dr. João Rodrigues, publicada no JMF, o escrivinhador, qual Jeremias, sempre arrisca profetizar o fim da reforma dos CSP e o desmantelamento do SNS.

É inútil iludirmo-nos: os recursos são escassos e teremos de aprender a viver com a escassez. Demarcando-se o signatário do slogan dos "cortes cegos" e dos críticos do "economicismo", sempre adianta que os cortes podem redundar em despesismo. Não é difícil conceber reduções de despesa sem diminuir a eficácia, mormente se tivermos em causa o despesismo instalado no nosso SNS. Há até casos em que cortes redundam em melhoria dos cuidados prestados: basta recordar as limitações impostas à requisição de densitometrias ósseas, cuja prolixidade mais não era do que uma forma de medical mongering. Mas, por exemplo, uma diminuição de 50% numa dado item que se traduza numa redução de eficácia de 60%, pode resultar, afinal, num despesismo encapotado.

Contudo, não basta suprimir despesas: precisamos urgentemente de incrementos de produtividade. Mas as melhorias globais estão dependentes do bom desempenho de áreas estratégicas: sem informática não vamos a lado nenhum. Ora a ineficiência dos serviços informáticos do ministério da saúde mantém refém todo o sistema e estrangula a esperança. As anunciadas modificações nesta área converteram-se num remake da "primavera marcelista". Sem uma valente vassourada neste sector o SNS vai entrar numa lenta espiral de agonia. E essa vassourada não a deu o ministro.

2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos
Editorial | Rui Nogueira
2020: Linhas de provocação de uma nova década com novas obrigações para novos contextos

Este ano está quase a terminar e uma nova década vai chegar. O habitual?! Veremos! Na saúde temos uma viragem em curso e tal como há 40 anos, quando foi fundado o Serviço Nacional de Saúde (SNS), há novos enquadramentos, novas responsabilidades, novas ideias e novas soluções.

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