Jornal Médico Grande Público

José A Santos: as pérolas da consulta
DATA
07/05/2012 10:49:23
AUTOR
Jornal Médico
José A Santos: as pérolas da consulta

Não deixa de ser curioso como todos nós retiramos pedaços das nossas consultas que se revelam transversais e comuns à prática clínica do colega do lado

 

jose_agostinho.jpgNão deixa de ser curioso como todos nós retiramos pedaços das nossas consultas que se revelam transversais e comuns à prática clínica do colega do lado. Somos todos diferentes e todos assumimos personalidades clínicas divergentes. Porém, alguns excertos das consultas estão disseminados entre nós, usando os doentes como veículos e como frutos de uma forte influência cultural. Pelas resistências à individualidade clínica de cada médico e à subjectividade biopsicossocial própria de cada paciente, considero que esses pedaços da consulta são altamente gloriosos e especiais, pelo que lhes chamo pérolas da consulta.

O parágrafo anterior abre, portanto, o mote para algumas das frases ou expressões mais típicas e que, por serem tão fortemente culturais, entram pela porta do gabinete adentro, directamente do meio social envolvente e sem sofrerem qualquer moldagem pelo paciente ou pela nossa parte.

Salientaria, como uma das primeiras pérolas, a expressão "isto só me passa com antibiótico!". Já todos a ouvimos diversas vezes. Quadro típico: utente a quem foi prescrito, no passado, um antibiótico para uma sobreinfecção respiratória bacteriana e que, segundo uma lógica falsamente linear, a partir daquela altura toda e qualquer infecção respiratória terá, necessariamente, que ser tratada com antibacteriano. Também é bastante peculiar a atitude contra-ataque diante de nós: desafiadora e abundantemente carregada de uma suposta assertividade, esperando que nos baralhe ao ponto de deixarmos marcar golo por entre as pernas. Alterar esta crença e moldar esta pérola (que é dura como diamante) torna-se uma verdadeira batalha em plena consulta aberta! Uma conversa sobre o uso indiscriminado de antibioterapia e o desenvolvimento de resistências tem-se revelado produtiva e tem-me ajudado a rematar a consulta com sucesso, em casos em que a prescrição de antibiótico não é claramente indicada. Porém, todos conhecemos bem os utentes que voltam no dia seguinte, procurando um colega, incauto, que prescreva o prezado medicamento.

Estes são, geralmente, os doentes mais ansiosos e em que, entre os seus antecedentes, consta já "um princípio de pneumonia". Estaremos perante outra pérola da consulta? A expressão "um princípio de..." é, na minha vivência clínica pessoal, uma das mais populares! Habitualmente, esses rótulos surgem após quadros sintomáticos inespecíficos, pouco documentados e que decorreram "há anos" ou "na infância", o que os torna impossíveis de ser pesquisados e dissecados convenientemente. "Um princípio de..." antecede frequentemente palavras como pneumonia, AVC ou enfarte. Confesso que me perturba um pouco pensar que, entre os tantos e falsos "princípios", eu caia no erro de partir do princípio que não são valorizáveis...

Nesta consequência - e se nós tivermos sorte (ou será azar?) - poderemos adquirir três pérolas numa só consulta. Isto acontece quando se junta uma outra conhecida: "Eu nunca faço febre!". Esta pérola brilha bem intensamente quando se pergunta a alguns pacientes se mediram a temperatura durante a evolução do quadro sintomático. Como esses mesmos pacientes "podem até estar muito mal, mas não fazem febre", o uso do termómetro dentro do gabinete para confirmar a apirexia torna-se, ao olhar de alguns, quase um acto de desconfiança, excesso de zelo e perda de tempo!... E tal constitui outra luta na altura do exame objectivo. O termómetro passeia-se pelas mãos médico-doente, entre cá e lá e entre o "não vale a pena" e o "mas vamos confirmar". E os segundos vão passando...

Uma quarta pérola, que eu diria estar parcialmente relacionada com as anteriores, surge na altura do plano da consulta. A situação clínica é quase de livro: uma dor relacionada com determinado contexto que nos parece benigno, num paciente que não tentou qualquer terapêutica anteriormente e em que um anti-inflamatório não-esteróide até poderá ser contraproducente. Estamos nós a escrever paracetamol nas prescrições...quando a frase mágica ecoa entre as quatro paredes: "Oh Doutor, o paracetamol a mim não me faz nada!". Ficamos logo desarmados...e naquele limbo entre o querer pesquisar a história do uso do fármaco e o querer alterar de imediato para outra alternativa, atendendo ao componente psicogénico da dor que, com descrença pelo fármaco prescrito, persistirá para sempre. Trata-se de uma decisão difícil...

São, portanto, curiosas as nossas vidas clínicas. Agora, questiono-me: será que nós próprios, como clínicos, usamos expressões tão típicas e igualmente disseminadas na consulta que somos nós próprios os seus veículos de transporte para dentro do gabinete? Convido algum paciente e leitor deste Jornal a dar-me uma resposta, caso a tenha consigo. Enquanto aguardo, deixem-me dizer-vos: assim é a vida!... Bom trabalho!

 

José Agostinho Santos

USF Lagoa, Centro de Saúde Senhora da Hora

 

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