Jornal Médico Grande Público

Rui Cernadas: computadores e médicos
DATA
12/09/2012 04:15:35
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: computadores e médicos

Do mesmo jeito - e facilidade - com que chegamos a casa ou ao trabalho e abrimos o correio electrónico, o processo clínico único irá representar um novo padrão de exigência e de ganhos em saúde

rui_cernadas.jpgNem todos os dias são iguais, nem todos os dias são bons, nem todos os dias dá vontade de falar.

Mas há coisas que ninguém hoje pode dispensar - o computador é uma delas. Mesmo aqueles - e principalmente aqueles - que deles diziam o piorio há alguns anos atrás...

Vem isto a propósito do que se passa - ou não passa, conforme a perspectiva - com as tecnologias da informação e da comunicação, que invadindo a generalidade dos domínios das nossas vidas, acamparam na saúde, particularmente na vida dos médicos da medicina geral e familiar.

Sobre o tema, deixo-vos uma pequena história, deliciosa, que um colega brasileiro me contou num momento de amena e breve cavaqueira pós-prandial:

- "Se mexer, pertence à biologia. Se cheirar mal, pertence à química. Se não funcionar mesmo, pertence à física. Se ninguém entender, é matemática. Se não faz sentido, então é economia."

Dito isto, calou-se...

- "Ouve lá...  E isso quer dizer o quê?" - Perguntei-lhe, sem perceber.

O colega brasileiro olhou para mim, sorridente e matreiro, com um olhar que adivinhava que me ia "entalar":

- "Se não mexe, se não cheira mal, se não funciona mesmo, se ninguém entende e se não faz sentido, então é, com certeza, Informática!"

Na realidade, os médicos portugueses realizaram um notável esforço de adaptação às novas e sucessivas ferramentas informáticas, sobretudo tomando em consideração que, na esmagadora maioria das situações, ou fizeram uma incipiente formação na prática, muito anterior à disponibilização das mesmas nos serviços de saúde, ou não a fizeram de todo...

E neste capítulo, portanto, devemos assumir, com clareza e com orgulho que, quando comparada com outros países europeus, a adesão às novas tecnologias a disseminação destas nos serviços de saúde é, em Portugal, muito superior, até porque falamos do SNS à escala nacional. Esta constatação não nos deve, porém, fazer esquecer que permanecem por resolver problemas já diagnosticados e identificados milhares de vezes e para os quais, outras tantas, se prometeu resolução breve.

Com efeito, as infra-estruturas da rede informática da saúde são limitadíssimas e transmitem para os profissionais e para os utentes, uma imagem de lentidão e de incapacidade desesperante. Mais do que a qualidade e os defeitos dos programas, obviamente sempre passíveis de serem melhorados, em particular no que toca à informação sobre a gestão dos dados e a capacidade de os trabalhar pelos operadores, é a "coluna vertebral", estrutural, que condiciona a satisfação de uns e de outros.

Claro que a impossibilidade de os sistemas de informação falarem ou comunicarem entre si se torna dramática e exclui outros paradigmas da gestão eficiente dos recursos, favorecendo o desperdício financeiro e a exposição dos utentes a riscos, incómodos, exames e despesas desnecessárias, tantas vezes duplicadas...

A relação entre os médicos e as instituições deu assim grandes passos - ou saltos - até há pouco inimagináveis, numa vertente que, ainda assim, continua a ser deficientemente aproveitada...

Muito provavelmente, foi ao nível do relacionamento entre os utentes e os seus médicos (e outros cuidadores), que os sistemas de informação tiveram maior impacto. A agilidade e a facilidade dos contactos pelo correio electrónico, por exemplo, introduziu uma rede sobre a comunicação, mais do que ter feito a comunicação em rede. A proximidade e a intimidade que o "mail" proporciona, a par da tremenda facilidade na sua utilização, desmaterializou os dados clínicos do processo e a necessidade de conservar papéis e pastas pesadas e bolorentas.

Sem se aperceberem disso, os médicos deram passos significativos de abertura à sociedade, expondo-se muito mais e obrigando-se a maiores cuidados e responsabilização.

A legitimidade no que toca à propriedade da informação adquiriu novos contornos - e também riscos - criando desafios para os quais não existem ainda respostas conclusivas. As inquietações estão ainda muito longe de se esgotarem no receio de manusear os mais modernos meios de comunicação ou softwares ou até de discutir ou partilhar o conhecimento num espaço sem fronteiras físicas definidas.

As preocupações irão gerar a necessidade de se equacionar, por um lado, o reconhecimento do nível já atingido e por outro, de se avançar de uma vez por todas para o chamado processo clínico electrónico.

Compreendendo as limitações conjunturais e tudo o que a estas se associa no discurso coerente de esforço orçamental, não é aceitável que o caminho seja abandonado ou esquecido.

Do mesmo jeito - e facilidade - com que chegamos a casa ou ao trabalho e abrimos o correio electrónico, o processo clínico único irá representar um novo padrão de exigência e de ganhos em saúde.

Um ganho exponencial e à escala de um país milenário!

 

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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