Jornal Médico Grande Público

José A. Santos: La vie en rose!…
DATA
12/09/2012 04:26:09
AUTOR
Jornal Médico
José A. Santos: La vie en rose!…

Os dias vão passando desde o início da recessão económica (e já lá vão uns anitos!...) e tornam-se cada vez mais pesados para o português comum, que entra vergado e cabisbaixo no gabinete e se senta diante de nós

jose_agostinho.jpgOs dias vão passando desde o início da recessão económica (e já lá vão uns anitos!...) e tornam-se cada vez mais pesados para o português comum, que entra vergado e cabisbaixo no gabinete e se senta diante de nós.

As características particulares da nossa bela especialidade são o campo perfeito para a expressão do peso destes dias. De facto, uma modelação holística do paciente enquanto pessoa permite uma abordagem que vai muito para além do biológico ou físico e que dá peculiar enfoque às arestas psicossociais. Provavelmente, tal fará de nós, médicos de família, os clínicos com a visão mais sólida do impacto social desta maldita crise.

O quotidiano clínico de muitos de nós tem, portanto, sido pautado por expressões como "anda tudo mal...", "estou tão em baixo" ou "nada bem!", intercaladas com "quanto custa o medicamento?", "receite-me um barato" ou "tudo genéricos, por favor". Num só dia normal de trabalho, atropelam-se as perturbações depressivas sobre as perturbações da ansiedade, somam-se os problemas socioeconómicos e salpica-se uma não-adesão terapêutica sobre a descompensação das doenças crónicas.

Uma noite bem dormida não neutraliza o avanço do negativismo nas consultas do dia que recomeça: um paciente tenta o suicídio após ficar desempregado; uma utente vem à consulta urgente com múltiplas queixas psicossomáticas; uma mulher em idade fértil adia o desejado projecto de gravidez...

Entretanto, emerge a confusão no secretariado clínico pela perda de isenções; a revolta cria o ruído; o ruído cria o stress em massa na sala de espera e essa sala de espera entra pelos gabinetes médicos em questão de minutos, descarregando a carga de frustração colectiva que começara do lado de fora da porta.

Percecionamos ser cada vez mais árduo exercer a nossa actividade assistencial nos dias cinzas que correm... Cada vez mais cinzas neste ano que, curiosamente, tem tido imensos dias de sol. O nosso papel, enquanto médicos de família, nestes dias, assemelha-se à função daquelas barreiras almofadadas, insufláveis, contra as quais os velocistas de 100 metros embatem para se deterem e perderem a aceleração.

Não seremos nós essas barreiras de última linha, que auxiliam os utentes na desaceleração para a loucura? Não seremos muros sobre os quais se descarrega parte da tensão social trazida para o gabinete em grande aceleração? Talvez sim...E é nossa missão mantermo-nos sempre firmes para o melhor suporte clínico possível. As nossas mãos estão seguras para um aperto de mão confiante; a nossa musculatura paravertebral encontra-se contraída para aguentar uma postura que transmita tranquilidade e empatia e a nossa mente luta para actuar sobre o coração...

E assim vão sendo os nossos dias clínicos... No final dos quais é o médico de família a sair vergado porta fora.

Porém, em dias surpreendentes, algo inesperado acontece... Com alguma frequência.

Eis que num momento profundamente abençoado do nosso dia clínico, em que damos o mote à consulta questionando determinado paciente sobre como tem passado, esse mesmo paciente nos responde: "tenho passado muito bem!". Certamente que, nestes momentos, muitos de vós ficam como eu: confuso por fracções de segundos, como se o som da expressão "muito bem" ecoasse bem alto pelas quatro paredes do gabinete e nos deixasse zonzos. É possível que, nesse momento, alguns de nós se questionem: "isto é para os apanhados??".

Após a confusão inicial, gerada pela surpresa, assistimos à destreza com que essa expressão quebra todo um ciclo no qual nos fomos embalando durante as centenas de consultas anteriores.

Como cai bem esse "muito bem"!

É como se, subitamente, as janelas se abrissem e uma brisa fresca e meiga do mar nos refrescasse; uns raios de luz solar massajassem o nosso rosto cansado...E em som de fundo, a Edith Piaf começasse a cantar "la vie en rose"!...

Há como que um rash de energia que nos percorre o corpo e a alma e uma estranha vontade de saltar da cadeira e abraçar aquela pessoa; de lhe dar um prémio!

Atrevo-me a afirmar ser provável a existência de uma combinação astral altamente favorecedora deste evento, àquela hora do dia, que nos vem recarregar as baterias!... Que faz com que a consulta prossiga com a leveza de um pôr-do-sol de Junho e contribua, de forma sublime, para a visão aperfeiçoada da existência de diferentes mundos, diferentes modos, diferentes realidades...Uma visão, talvez, menos parcial, menos negativa e menos ansiogénica.

Com esta pequena reflexão, constato mais uma vez que a nossa actividade clínica é diversa e fascinante. No entanto, hoje - em que uma utente iluminou o meu gabinete dizendo "estou muito bem!" - nada me tira esta música da cabeça:

"Je vois la vie en rose...il me dit des mots d'amour...des mots de tous les jours...Et ça me fait quelque chose..."

Assim é a vida! Bom trabalho!

 

José Agostinho Santos
USF Lagoa, Centro de Saúde Senhora da Hora
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