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José A Santos: praia... sol, mar…e sala de espera!
DATA
08/10/2012 04:55:14
AUTOR
Jornal Médico
José A Santos: praia... sol, mar…e sala de espera!

É Verão e quase toda a gente procura o descanso e o espaço conveniente para um doce e pacífico recarregamento de baterias. Eu não sou excepção e como admirador extremoso de praia, rumo ao sul do país em busca desse pedaço de planeta onde possa retemperar corpo e alma com um sol morno e um mar cálido e sedutor

jose_agostinho.jpgÉ Verão e quase toda a gente procura o descanso e o espaço conveniente para um doce e pacífico recarregamento de baterias. Eu não sou excepção e como admirador extremoso de praia, rumo ao sul do país em busca desse pedaço de planeta onde possa retemperar corpo e alma com um sol morno e um mar cálido e sedutor.

Não sendo "a minha praia" ficar deitado na toalha de praia à medida que os minutos se sucedem, reconheço, no entanto, que alguns momentos de pura flacidez corporal estendida na areia se podem tornar tão inebriantes como se tratassem de massagens. Estes momentos podem, de resto, transformar-se em experiências únicas de vivência da realidade onde nos inserimos e nos vemos tantas vezes retratados. Isto é especialmente válido quando, imbuídos no espírito colectivo da romaria ao sul, anónimos, escolhemos uma praia algarvia relativamente populosa e frequentada por inúmeros portugueses como nós.

Quanto a mim, vivi uma dessas experiências impagáveis, em plena praia, no sotavento algarvio. Eram cerca das 17 horas, de um dia de final de Agosto. O sol estava glorioso, 30º C e a praia repleta de gente. A humidade do ar, elevada, tiranizava os corpos debaixo dos raios solares, de maneira que a sombra do meu guarda-sol parecia-me incrivelmente deliciosa. Estendi-me, então, por um pouco de tempo, na toalha, fechei os olhos e suspirei de conforto (ou alívio?). Após esta imediata sensação de frescura se ter dissipado e me ter deixado apenas com a brisa frágil do mar, a minha mente (agora desocupada) captava os sons provenientes do exterior que me rodeava. Este exterior é, claro está, muito próximo. Relembro que estou numa conhecida praia algarvia em pleno mês de Agosto, pelo que a distância que me separa dos três grupos de vizinhos mais próximos é de poucos metros, mas o suficiente para uns chinelos passarem e levantarem a fina areia directamente para os rostos deitados nas suas margens, proporcionando a estes turistas uma apetitosa prova de degustação do areal...

É a esses mesmos vizinhos que se fixa o meu tempo (que sobrava bastante, por esses dias!), enquanto ali permanecia de olhos bem fechados. Agarrei as primeiras palavras de uma voz feminina,  com cerca de 50 anos de idade. Dizia ela, em tom pesaroso, "Estou tão gorda!...". Uma outra alma, sentada ao seu lado, aconselhou-a (e bem!) a fazer caminhadas. A resposta não tardou a ecoar na curta distância que nos separava: "Sim... o médico diz para eu caminhar... Eu devia perder peso... mas as dores nos joelhos não me deixam... (...) Eu até gosto de caminhar junto ao mar, mas esta água, apesar de tudo, é fria também...". A sua companheira de conversa aproveitava o tema para introduzir algumas notícias sobre emagrecimento recente de algumas figuras públicas e, poucos minutos depois, ambas iniciaram dissertações sobre um polémico concurso de televisão cujo objectivo é a perda de peso. O diálogo alongava-se... Do concurso, passaram a novela... E desta para a vida pública e privada de um conhecido jogador de futebol português... Ora, quando justamente se preparam para comentar o ordenado desse jogador, começou-se a ouvir apregoar no areal: "Bolinhas de Berlim! Com creme e sem creme! Fresquinhas!"... Era o senhor que percorre a praia de lés-a-lés (este, sim, caminha bastante!), vendendo doces da pastelaria regional. Para minha surpresa (ou não!), o tom pesaroso da voz da senhora a necessitar de uma perda ponderal urgente, já não o era, quando gritou "Sr. António, aqui!". E o Sr. António lá foi, com um entusiasmo e um à-vontade no discurso que diziam não ter sido aquela a primeira vez que a cliente lhe comprava doçaria... Com creme!

 Faz-se silêncio após o Sr. António seguir caminho... Rapidamente quebrado pela chegada de uma criança, o João, provinda das brincadeiras junto ao mar e que logo deduzi ser neto de uma das senhoras. Era hora do lanche e o rapaz queria um gelado. Um estrondoso "não" ouviu-se no intervalo de uma deglutição de bola de Berlim: "Já comeste gelado no fim do almoço, João!". Parece-me justo e equilibrado, desta vez. "Vá! Tens aqui o teu leite e as tuas bolachas!" atirou a avó.

Após alguns minutos em decúbito dorsal no piso duro da areia, o meu dorso queixava-se, instando-me a mudar de posição. Abri os olhos e, enquanto me mudava para decúbito ventral, o meu olhar roçou, por fracções de segundo, no leite achocolatado do João e nas suas bolachas de chocolate recheadas com creme branco (cujo nome comercial todos nós sabemos, mas não vamos aqui dizer!). Afinal já nada me parecia equilibrado. Revirei os olhos por mais do que o motivo de mudança de posição corporal...

Dessincronizei-me destes vizinhos e deitado nesta posição prona, a menor luminosidade permitia-me criar uma ligeira abertura palpebral. Visualizei, então, um cenário comum no gabinete médico: uma outra senhora, aparentemente na casa dos 70 anos, apresentava os membros inferiores edemaciados e já com algumas marcas deixadas pelo eczema de estase venosa. Massajava os ditos membros com um balde cheio de água do mar (supostamente fresca!), procurando (penso eu!) algum alívio sintomático. Estava sentada numa cadeira baixa, de praia, com as pernas pendentes... expostas ao sol! Pouco tempo depois entrou em cena a filha, ainda a pingar dos seus mergulhos, que num misto de atenção e raspanete atirou: "Oh Mãe! Não se ponha ao sol! Tem aqui muita sombra!". A idosa ignorou por completo o conselho da filha e quando esta insistiu replicou: "Se eu estiver toda à sombra, fico com frio!". A filha, por sua vez, encolheu os ombros, atirou-se ao chão e... Voltou-se a ter algum sossego nas redondezas, dando espaço à música do mar e ao ruído das crianças divertidas a correr ao fundo.

Fechei novamente os olhos com uma sensação de déjà vu. Não de outras praias (embora pudesse ser), nem de outras férias (embora também pudesse ser!). Talvez de um local bem mais familiar: uma sala de espera, o local de trabalho.

Acho curiosa esta associação entre o nosso tempo e o nosso comportamento. Quando o tempo abunda numa sala de espera ou numa praia, abunda também uma maior liberdade para auto-expressão... Sem constrangimentos que retenham os pensamentos, sem volúpia em preservar a nossa intimidade e sem barreiras que nos impeçam de verificar como, na verdade, cuidamos do nosso corpo e da nossa alma. É como se a espera por algo mais desejado nos deixasse soltos e com preguiça para defesas ou censuras... Bem ao sabor da "silly season"! Todos nós somos como que pedras preciosas. É nestes momentos que nos conhecemos enquanto pedras sem polimentos e não-trabalhadas. Talvez tal seja, então, a nossa natureza/beleza em estado bruto. Assim é enquanto se aguarda pela consulta médica; assim é enquanto se entrega o corpo à areia da praia... Não é a primeira vez que digo que se aprende muito de nós e do que nos rodeia quando estamos sentados numa sala de espera. Curiosamente, acho que direi o mesmo de umas estadias na areia da praia... Mas com um meio natural envolvente muito melhor!  

Assim é a nossa vida clínica! Boa rentrée!

José Agostinho Santos
USF Lagoa, Centro de Saúde Senhora da Hora

 

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Editorial
Rui Nogueira
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