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Rui Cernadas: muita parra e pouca uva
DATA
08/10/2012 05:02:09
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: muita parra e pouca uva

A facilidade com que se podem dizer as coisas mais inacreditáveis ou como quase se consegue, a partir de uma banalidade ou de uma inverdade, fazer manchetes jornalísticas ou casos pretensamente políticos, é extraordinária

rui_cernadas.jpgA facilidade com que se podem dizer as coisas mais inacreditáveis ou como quase se consegue, a partir de uma banalidade ou de uma inverdade, fazer manchetes jornalísticas ou casos pretensamente políticos, é extraordinária.

É verdade que a cultura geral da nação, no sentido mais adequado, aponta para um nível muito baixo ou médio-baixo.

Não esqueçamos os milhões de analfabetos que o país conheceu e aos quais deveu, em honra da verdade, muito do trabalho, esforço e sacrifício que nos trouxeram até aqui, bem como as largas centenas de milhar que, formalmente o não sendo, revelam taxas muitos reduzidas de literacia.

Aquilo a que se chama serviço público nas televisões e rádios, infelizmente, é uma fachada ou slogan vazio e desprovido de sentido, como se vê facilmente em qualquer das programações generalistas disponíveis, em áudio ou audiovisual. Porém, quando se fala de alguma reestruturação ou reforma da RTP/RDP, tudo grita, como se tivesse razão, contra quem quer acabar com o serviço público!

No fundo, a grande realidade é que, na generalidade - tudo e todos no país - precisam de reciclagem e as ilhotas de excepção são apenas isso mesmo - excepções...

O assunto dos ACES na ARS Norte, por exemplo, tem servido para alimentar inúmeras notícias, insinuações, afirmações, desconfianças e acusações.

Com os sindicatos a proferir o que lhes apetece e quando as agendas justificam, com os jornais a pegar no assunto quando escasseiam coisas importantes.

A primeira curiosidade desta questão é original!

Os mandatos dos directores executivos dos ACES já acabaram há meses.

Em muitos casos, os directores em causa ou já quiseram regressar aos seus lugares de origem, fosse em câmaras municipais, ministérios da educação ou segurança social ou outros, ou meramente à clínica que entretanto haviam abandonado...

Em muitos mais casos, aposentaram-se ou solicitaram a reforma, aguardando neste momento esse desígnio.

Outros, enfim, apresentaram a sua demissão e objectivamente assumiram não querer ser reconduzidos.

Mas, pasme-se, porque a ARS Norte lá procedeu, com atraso e vontade de garantir os processos de contratualização interna e externa, à indispensável renovação e/ou substituição dos directores executivos, tomando a dianteira em relação à maioria do país, nem uma palavra sobre o reconhecimento desta "urgência"...

Mais a mais quanto esta iniciativa tem repercussão directa na estabilidade e vida das USF...

Nem ninguém fala do facto de as condições oferecidas para o lugar de director executivo serem pouco apetecíveis para médicos, por exemplo, ou enfermeiros em modelo B...

Nem vejo os muitos comentadores e críticos de bancada a lembrarem o problema gerado em 2008, pela não publicação dos valores a pagar aos presidentes dos conselhos clínicos e respectivos vogais!

Ou a discutirem a falta de equidade no tratamento e pagamento gerada pela descriminação positiva aos coordenadores das unidades de saúde pública!

Mais, sobre a recondução de sete directores entre dezanove já nomeados, nem uma linha.

Uma visão retrógrada e centralista mantém a ideia de que Lisboa é o centro do mundo e tudo o resto é esquecido. Refiro-me, obviamente, à ideia de que possa ser fácil encontrar, nas zonas mais interiores do país, pessoas com currículos construídos em grandes empresas ou instituições! É que não há, realmente, para além das que estejam ligadas à administração pública!

Não admira pois que, nesse contexto, alguns nomes possam estar ligados a empresas públicas municipais ou similares, o que nem é crime, nem menoriza ninguém, podendo aquelas ser, até, boas escolas para o desenvolvimento de competências e capacidade de gestão, iniciativa e administração.

É bom, desde já, sublinhar outra nota e que respeita às atribuições dos directores executivos, tipificadas no artigo 20º do Decreto-Lei nº 28/2008 (dos ACES). É que das menos de vinte competências elencadas, quinze ou dezasseis são clara e exclusivamente ligadas a aspectos de gestão pura e dura, desde o pessoal ao património, desde a contabilidade ao planeamento.   

Também não li, nem escutei, qualquer referência ao facto de na ARS Norte terem sido dado passos significativos quanto ao reconhecimento da valia multi-profissional na função de director executivo, designadamente de enfermeiros ou técnicos superiores de saúde, quer como espelho de valorização e dignificação de todos os sectores, quer como sinal de incentivo e motivação para as URAP (unidades de recursos assistenciais partilhados)!

Sabendo que, pelo menos no Norte, os conselhos de comunidade mantêm actividade e função definidas legalmente, enfim, não deveremos esquecer a conveniência de alguma proximidade entre os directores dos ACES e as estruturas autárquicas e sociais que os integram, entendimento que não vi igualmente expresso em lado algum!

Qualquer escolha ou designação, nestes termos, provocará sempre reacções diversas.

Não é isso que preocupa ou aborrece.

A falta de discurso coerente e de visão global é que confrangem.

E se um director executivo não corresponder ao perfil concreto expectável?

Mas se um desencanto ou uma desilusão ou um falhanço acontece em tudo e com todos na vida, seja num casamento, numa casa, num exame académico, num emprego, numa equipa de futebol, num governo ou num deputado, porque não poderá acontecer num ACES?

 

Rui Cernadas
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Editorial
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