Jornal Médico Grande Público

José A Santos: disse disse mongering
DATA
14/11/2012 04:20:05
AUTOR
Jornal Médico
José A Santos: disse disse mongering

O disease mongering tem expressão nos mais diversos contextos e nos locais mais casuais, pelo que facilmente actua na mente do português mais incauto

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jose_agostinho.jpgJá muitos dos caros leitores terão, certamente, falado ou ouvido falar do disease mongering enquanto fenómeno actual que visa convencer os indivíduos (nossos utentes!) de que estão doentes ou em risco de ficarem doentes e de que beneficiam com determinado medicamento ou exame complementar para contrariar a história natural da "doença". O disease mongering tem expressão nos mais diversos contextos e nos locais mais casuais, pelo que facilmente actua na mente do português mais incauto. Ganha dimensão de maneira singela, conquista os nossos utentes de forma sedutora e abala-os, posteriormente, quase até ao desmoronamento interior em medo e dúvidas sobre o seu estado de saúde. E somos nós (tantas vezes!) quem os acolhe quando mais precisam de um abrigo e de um esclarecimento.

Se o disease mongering consiste neste jogo malicioso das entidades com fins lucrativos sobre os utentes e que os fragiliza ou os desvia de uma rotina diária normal, alguns utentes exercem, por sua vez, uma jogada que visa a manipulação dos seus médicos. Tal como o disease mongering, esta jogada actua de forma passivo-agressiva - algumas vezes de forma dissimulada, outras vezes até com boa intenção - mas perturba sempre o quotidiano clínico. Quantos não se recordarão daquela consulta em que, perante um quadro sintomático e após uma boa anamnese, o utente abre o campo com a expressão "disse que..."?... De facto, "alguém disse que isto podia ser..." é a expressão que vai pincelando (e beliscando) a nossa actividade assistencial, geralmente carregada de hipóteses sem grande sentido. Transporta consigo uma imensa crença sem qualquer suporte científico e uma considerável inespecificidade sem informação clínica como alicerce, pelo que cria curvas e contra-curvas neste caminho traçado entre o médico e o paciente. Trata-se, portanto, de um fenómeno que se manifesta por estratégias que visam convencer o médico assistente de que não está a seguir um raciocínio clínico completo ou correcto. A situação típica é a seguinte: utente que apresenta um quadro de sintomas atípicos para o qual não há uma resposta consistente numa primeira abordagem. Pouco tarda até o clínico ouvir "a minha vizinha disse que isto poderia ser..." provindo do paciente diante de si, olhando para o tecto (assim como quem não quer a coisa!...). Encontram-se também outras variantes: "A Dr.ª da farmácia disse que...", "Uma enfermeira amiga disse que ..." ou "A minha mãe disse que...". Por muito que tal não vá alterar o produto final enquanto plano da consulta (apesar de o utente acreditar que sim!), o "disse que" obriga-nos, quase sempre, a estabelecer um remate da consulta bem mais elaborado, com o intuito de alterar crenças ou desfazer mitos.

Porém, uma golpada verbal com impacto considerável traduz-se na afirmação: "o Doutor do Hospital disse que isto poderia ser...", da autoria de alguns pacientes que são seguidos concomitantemente por uma especialidade hospitalar. Inicialmente, tal deixa-nos confusos... E uma provável cara de espanto do clínico desencalha a reafirmação: "Disse, disse!". Esta perplexidade estampada no rosto dura até ao momento em que questionamos pela informação clínica de retorno que suporte tal frase. Essa informação quase nunca existe... E com o avançar da entrevista clínica, surgem os tropeços na interpretação e a gaguez no discurso, os pés dão lugar às mãos e as mãos dão lugar aos pés e, em alguns casos, ainda se dá uma cambalhota...

Assim, eu denominaria este fenómeno de "disse disse mongering". Reconhecemo-lo de imediato, é um facto. No entanto, teremos noção do resultado negativo que poderá ter na relação médico-doente, particularmente em circunstâncias em que o tempo urge? Acredito que este "disse disse mongering" tenha, na maioria dos casos, origem numa ideia fixa e da qual o utente não se consegue sacudir, após geração dessa mesma ideia por um terceiro ou, quiçá, de forma espontânea. Tal como o disease mongering, este "disse disse mongering" poderá, curiosamente (ou não!), ter um retorno altamente danoso para o utente após fazer ricochete no seu médico. Com o intuito de aliviar a dúvida e criar tranquilização, este poderá conduzir ao pedido excessivo de exames complementares ou a terapêuticas desnecessárias. Por outro lado, a rejeição desta prenda com "isso não faz sentido!" poderá não ser apaziguadora (por muita convicção que se possua!) e poderá ter, posteriormente, efeitos retroactivos. O calmo desembrulhar da embalagem atirada para cima da secretária do gabinete permite encontrar uma das chaves para a empatia na relação médico-doente. Nunca a comunicação com o utente foi tão importante. Nunca o tempo foi tão fundamental. Nunca a expressão "tempo é dinheiro" fez tanto sentido... Numa perspectiva a médio-longo prazo.

Assim, aqui fica uma visão, uma opinião... Bom trabalho!

 

José Agostinho Santos

USF Lagoa, Centro de Saúde Senhora da Hora

 

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