Jornal Médico Grande Público

Imagem 720*435
DATA
06/12/2012 08:10:23
AUTOR
Jornal Médico
Os Domicílios I – à procura de Godot

O tema dos domicílios parece-me interessante. Dizem que se lhes dedica em Portugal pouco entusiasmo. E é pena, porque deles necessitam muitos doentes e é fonte de prazer para quem saiba apreciar o lado lúdico da profissão

Versão integral apenas disponível na edição impressa

 

Pobre é o discípulo que não excede o seu mestre

Leonardo da Vinci

 

Hoje decidi inovar ... copiando! Não é necessariamente um contrassenso. Se alguém troca o seu modo habitual de fazer algo, por outro modo, mesmo já em uso por outros, pudemos dizer que inova, embora inovação tenha aqui um sentido deslavado, digamos. Não inventa nada de novo, mas altera (inova) a sua maneira habitual de fazer algo. No sentido lato (e mais habitual), por inovar entende-se inventar algo de completamente novo e não apenas aderir a algo que já existe, mas que não era praticado pelo imitador. Há também um meio caminho entre a inovação radical (criar coisas inteiramente diferentes do existente) e a simples adesão a outra tradição já existente. Refiro-me às misturas, às fusões. Exemplo: estilo indo-português, arte nambam, o jazz, só para citar três exemplos.

Mas decidiu este alinhavador de palavras, influenciado pelo José Agostinho Santos, verter em texto experiências do dia-a-dia de clínico. O estilo cativante do último compagnon de route do JMF carateriza-se pela frescura imaginativa e pela clareza da exposição. Recorda Alberto Caeiro e a falsa singeleza do Guardador de Rebanhos. Por trás da descontraída ironia vibra uma oportuna capacidade de observação e análise da realidade.

Adiante leitor, que mais há que ler neste número do JMF.

O tema dos domicílios parece-me interessante. Dizem que se lhes dedica em Portugal pouco entusiasmo. E é pena, porque deles necessitam muitos doentes e é fonte de prazer para quem saiba apreciar o lado lúdico da profissão.

Se vos disser que Ribeira Branca e Ribeira Ruiva se situam de ambos os lados do rio Almonda, imaginarão algo como Porto e Gaia, ou Buda e Peste, talvez mesmo Lisboa e Almada. Nada mais ilusório. Para já, o Almonda deveria ser classificado como ribeira, (lá à moda das Ilhas) de tão modesto o caudal, e não de rio (que me perdoem torrejanos). Por outro lado, estas povoações, embora ribeirinhas de nome, não o são na realidade. Ribeira Branca trepa pela colina da margem direita do rio, mas de costas voltadas ao curso de água; já a Ruiva repousa no alto da colina da margem esquerda. Estão ambas apartadas por respeitáveis distâncias das margens húmidas do simpático Almonda, embora a mirarem-se. A uni-las uma estrada e, sobre a corrente, curta ponte.

Tinham-me chamado para observar no domicílio o Sr. Rebordão, morador na Ribeira Ruiva.

Para lá me dirigi no meu automóvel de então. Ao entrar na Ribeira Branca tome-se a bifurcação para a direita, toca de transpor a pequena ponte e de amarinhar pela curta encosta, até entrar na aldeia. Na primeira oportunidade abandonei a estrada que se dirige ao Casal da Pinheira e embrenhei-me pelas ruelas do povoado. Pelo sim pelo não, parei junto à primeira vivalma que encontrei.

Convirá fazer um parêntesis para explicar a quem não tenha experiência de domicílios em zonas rurais, que o planeamento do percurso pode exigir uma minúcia quase militar. Caso contrário, arrisca-se a exasperantes perdas de tempo "à procura de Godot". Prevendo-se difícil encontrar a habitação do doente, tinha acordado encontrar-me com a esposa à porta da igreja. Sugestão minha, em desfavor do "Café dos amigos", que nem por ser o "único da terra" me convenceu como local de rendez vous. Isto porque é suposto a igreja aldeã ser única (geralmente assim é) e o campanário proeminente referencia no sky line do povoado (por via de regra). Pouco confiante nestas regras, optei, dizia eu, por abordar a primeira ribeiraruivence que encontrei:

- Boa tarde!

- Boa tarde. O senhor é médico? Interrogou-me , assim, à queima-roupa a criatura, que passou a informar: "Ontem também esteve aí o Dr. Pereira Magalhães, para visitar o Sr. Rebordão, mas não deu com a casa e foi-se embora." O caso prometia! Seguiu-se uma explicação mais ou menos confusa sobre os itinerários para a igreja, para o "Café dos amigos" ou para o domicílio do Rebordão. Perante o impasse, agradeci, despedi-me e optei pela tática "para a frente é que é Lisboa!". Consiste esta em embrenhar-se o forasteiro pelas ruelas, ir perguntando e andando ou ... andando e andando, se não topar ninguém, até encontrar o seu destino. Sempre munido de fé e paciência; de muita fé e de muita pachorra.

Faço outro parêntesis para relatar um episódio ocorrido há uma vintena de anos. Na qualidade de alienígenas pouco afeitos com a topografia do Porto, vagueávamos em busca do hotel, lá para as a bandas da Boa Vista. À segunda vez que passávamos pela Batalha perguntei ao condutor: "Sabes o caminho?" "Não! E tu?" "Eu não. Julguei que sabias" "Deixa estar, não te preocupes" respondeu-me com desplante"... Tantas voltas havemos de dar que, acredita em mim, acabaremos por encontrar o nosso destino". Imagino-o em Tóquio ou na cidade do México a fazer uso do mesmo método! Porém, numa aldeia, este truque resulta, como adiante se verá.

 Assim que se deparou um espaço de estacionar fi-lo sem hesitação, não fosse embolizar alguma viela mais estreita com o meu veículo. Desmontei e, a penantes, prossegui. O "Café dos amigos" surgiu inesperado, como Cristo a S.Paulo na Estrada de Damasco. Entrei para obter informações, mas esbarrei num remake da anterior conversa: "Vem ver o Sr. Rebordão?" "O Dr. Magalhães ontem andou aí às voltas." O mal tinha sido inquirir uns gaiatos que não souberam explicar nada. (Por mim não culparia os mocitos ...) Pelo menos consegui saber onde ficava a igreja, à frente da qual a esposa do Sr. Rebordão me esperava.

Do templo à casa, situada nos confins da povoação, já a escorregar para o Almonda, sempre eram uns hectómetros puxados e retorcidos. Pelo caminho ouvi o dejá entendu: O meu colega tinha vagueado no dia anterior pelas ruelas da Ribeira Ruiva, qual infortunado Ulisses, sem que atingir a Ítaca almejada. A Penélope (neste caso o Rebordão) continuava inconsolável e expectante. E tudo por culpa duns catraios (definitivamente ilibei-os nesse momento de qualquer incompetência topográfica).

Mas, enfim, chagávamos finalmente. A carta chegava a Garcia e senti-me um autêntico Sebastião del Cano!

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas

Has no content to show!