Jornal Médico Grande Público

José A Santos: miradouros ocasionais
DATA
06/12/2012 08:18:44
AUTOR
Jornal Médico
José A Santos: miradouros ocasionais

Mais do que um trabalho de cariz burocrático e de conjugação de dados, o curriculum revela-se um curioso balanço de um ciclo de vida, transportando-nos até aos nossos "antigos eus" pertencentes às etapas intermédias desse ciclo

Versão integral apenas disponível na edição impressa

 

 

jose_agostinho.jpgEncontro-me actualmente no final do internato da especialidade e, entre as tarefas que me competem, está (pois claro!) a elaboração do curriculum. Mais do que um trabalho de cariz burocrático e de conjugação de dados, o curriculum revela-se um curioso balanço de um ciclo de vida, transportando-nos até aos nossos "antigos eus" pertencentes às etapas intermédias desse ciclo.

Ao reunir todos os trabalhos elaborados no âmbito da minha formação específica, relembro, com nostalgia ou algum humor, os momentos de apresentação oral de alguns deles. Denoto que, no final deste pedaço de vida, já percorri o país no contexto de divulgação e discussão de conhecimentos, em vários lugares únicos. Apesar de possuírem as suas particularidades, é um facto curioso que as audiências heterogéneas apresentam, perante uma apresentação oral, comportamentos muito semelhantes seja a norte, centro ou sul.

Os minutos que antecedem a subida ao púlpito pertencem a uma agitação que até os mais fortes saberão reconhecer. O sistema nervoso simpático prepara o orador para o ataque, mas também o faz fraquejar simultaneamente quando, mesmo antes de anunciarem o seu nome, despoleta uma vontade imensa de ir ao wc! O seu nome ecoa pela sala, é dado um golo de água para hidratar a cavidade bucal e orofaringe, e eis que ele avança. Olhando em frente, o cenário poderá ser inicialmente arrebatador: dezenas de olhos fitam-no com curiosidade e ele sente-se como que se tivesse saído do anonimato. Porém, este panorama constrangedor apaga-se a partir do momento em que ultrapassa o minuto primordial de apresentação. Primeiro, porque já deu a ignição da sua comunicação oral e, se não tiver ido abaixo, a partir de então é só carregar no pedal. Segundo, porque a própria condição de orador favorece um switch que confere a oportunidade única de ser observador de uma audiência que inicialmente até o intimidara.

A primeira preocupação do orador é visualizar a cara do espectador mais atento no qual encontre um porto de abrigo. Este porto de abrigo bem que é necessário entre uma audiência inicialmente concentrada, mas de onde depois rapidamente brotam comportamentos diversos! Felizmente, encontrar esse porto de abrigo é fácil, pois o seu olhar fixo numa cabeça pouco móvel funciona como um farol rapidamente sinalizador entre a multidão. Será, a partir desse porto de abrigo, que os olhos do palestrante irão navegar em pequenas incursões até pontos de interesse naquela sala, enquanto o seu discurso se desenrola.

Um dos pontos de interesse sobejamente conhecido é o "espectador mais dorminhoco"! Depois de curva e contra curva, onda mais alta e onda mais baixa, eis que ele é encontrado pelo orador! Lá está ele, de braços bem cruzados e queixo descido. Há quem o tenha já visto a babar ligeiramente pelos cantos labiais, algo que eu pessoalmente nunca terei registado! Tem também testa enrugada e expressão facial de quem não concorda minimamente com o que é dito... mas, felizmente ou não, não é o caso! O desafio consiste, pois, em saber se aquele "soninho bom" se deve à própria apresentação ou se já vem com embalo anterior!

Desta viagem, o apresentador volta ao seu porto de abrigo, descansando um pouco e retomando a um rumo concentrado na apresentação. Porém, não tarda, existirá a necessidade de conquistar o resto da audiência, como se de "mares nunca dantes navegados" se tratasse. Eis, portanto, que os seus olhos navegantes encontram o grupo de três colegas que comentam e riem baixinho algo que não estará certamente no âmbito do tema do seu trabalho. Eles constituem, sem dúvida, a incursão mais perigosa, pois basta uma expressão mais ortodoxa provinda dos seus rostos para fazer o comunicador ficar à deriva em plena apresentação! Perigo, portanto!

Mais à frente... Estão quatro individualidades rígidas e sem qualquer expressão calorosa, dispersas pelas cinco linhas da frente. São as personalidades que fazem pensar que ali estão situadas por qualquer contrariedade. Se o palestrante se concentrar profundamente na tensão corporal que delas emana, quase conseguirá ouvir a expressão "só aqui estou, porque o workshop do outro lado já não tinha vagas!".

Continuemos... mais atrás, erguem-se duas faces com o olhar fixo mas totalmente baço. É um daqueles olhares típicos que se mostrariam imperturbáveis caso o orador mudasse subitamente de tema para uma dissertação sobre o XII ciclo de gastronomia polaca na Alhandra...

Volta ao porto de abrigo, até que, claro, torna-se obrigatório o percurso tão clássico quanto o do "mais dorminhoco": o(s) colega(s) com postura de quem está com ar profundamente crítico ao que está a ser falado: ar confiante, peito inspirado, costas encostadas na cadeira, braços cruzados e, caracteristicamente, sem qualquer papel no colo para registar dúvidas ou notas! Paradoxalmente, acabam por não colocar qualquer questão no momento da discussão.

Outras presenças imperdíveis são os elementos que registam cada palavra, os colegas que aproveitam a sessão para ler o jornal ou folhetos e, tantas vezes, o júri, ...os membros do júri que tentam, a todo custo, neutralizar expressões que induzam qualquer deflexão positiva ou negativa na apresentação oral. Porém, nem sempre o conseguem, pelo que um enrugar da testa é tido como uma facada, mas um acenar de concordância produz uma sensação de explosão no coração palestrante!

Ahhhh!... Como são cativantes estes trajectos que se fazem na vida!... Dou por mim a pensar que também já fui espectador e que, possivelmente, já fui ponto de incursão numa sala de congresso... É encantador como na observação da multidão, encontramos pedaços de nós próprios. Há, portanto, que rentabilizar estas oportunidades, que surgem destes miradouros ocasionais, para nos conhecermos.

Assim vamos crescendo... Assim é a vida! Bom trabalho!

 

José Agostinho Santos
USF Lagoa, Centro de Saúde Senhora da Hora

 

 

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas