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DATA
11/02/2013 08:08:23
AUTOR
Jornal Médico
Os Domicílios II – Toponímias

Mas o que este carpinteiro de historietas nunca houvera visto era uma "rua" como aquela. Sim, porque não havia dúvida: era mesmo a categoria de rua que lhe atribuíram e vinha no Google Maps

" (...) ainda por cima a chover, vejam lá o meu azar!"

 

Fernão Mendes Pinto

 

 

 

"(...) desci ao campo com grandes propósitos.

 

Mas lá só vi árvores e ervas (...)"

 

Álvaro de Campos

Versão integral apenas disponível na edição impressa

 

Percorro diariamente a "Rua Professor Doutor Serafim Antunes Mestre de Lima". A esta longa designação seguem-se duas datas e uma explicação: "advogado, deputado e jornalista". Curiosamente, a rua terá uma centena de metros mal medidos, é modesta a altura das habitações e o movimento escasso. Grandeza só mesmo a do nome e os apêndices explicativos. Maior a albarda que o burro, como dizia o meu avô. Que contraste com as amplas avenidas da Boavista (Porto), Beato Nuno (Fátima) ou Almirante Reis (Lisboa). Nomes curtos, para artérias de generosas dimensões! No manso trajecto diário, se nenhum assunto grave ocupa o pensamento, deixo-me arrastar para divagações sobre o tema das toponímias. Pergunto-me porque se hão-de baptizar ruas com este espavento. Lá que se situe no tempo e se explique quem é o ilustre desconhecido/a que dá nome à rua, ainda se compreende. Mas por que não resumir a memória ao primeiro e último nome da figura que se quer recordar para a posteridade? Enfim, pensamento puxa pensamento, e vêm-me à memória toponímias patuscas: a "Rua das Amas do Cardeal", em Évora, ou a "Rua das Boas Razões" em Alegrete, aprazível aldeia do sul do concelho de Portalegre. Curiosas são algumas designações das artérias urbanas. Para além das comuns (rua, avenida ou praça), temos: escadinhas, becos, azinhagas, pracetas, alamedas, largos, travessas. Como não fosse já prolixa esta variedade, a lusa imaginação acrescentou mais categorias toponímicas um tanto bizarras: "Faceira da Cisterna" em Elvas, o "Canto das Pedrougueiras", em Casal da Pinheira, aldeia ribatejana. E quantas mais não haverá por aí!

Mas o que este carpinteiro de historietas nunca houvera visto era uma "rua" como aquela. Sim, porque não havia dúvida: era mesmo a categoria de rua que lhe atribuíram e vinha no Google Maps.

Sem grande espanto tomei conhecimento de que aquele casal idoso, já na casa dos setenta, ainda tem a cargo uma mãe/sogra viva. Pediam-me para "ir lá a casa vê-la". Nonagenários, há-os cada vez mais e, pela ordem natural das coisas, terão já filhos, também eles seniores. Conta-se mesmo que, a uma centenária do concelho em que habito, ouviram admoestar a filha com mais de oitenta anos: "Endireita-te! Pareces uma velha!".

Localizei no mapa a morada e lá fui em cata do nº 31, para fazer o domicílio. A "rua", essa descobria-se bem: começa logo a seguir à passagem de nível, onde acaba a aldeia. À esquerda ficava uma casa, o nº 1, depois... bem, depois eram figueiras e oliveiras. Uma ou outra azinheira. A páginas tantas, do lado esquerdo vejo uma casa: o nº 27. Continuei. Mais oliveiras e figueiras e o... nº 37, já junto ao termo da dita "rua". Mas quanto ao 31... nada. A "rua" desembocava noutra "rua" que corria por entre um olival ponteado de figueiras.

Uma chuvinha miúda caía, mas era o meu dia de sorte: no meio daquele ermo surgiu um jovem adulto sob um chapéu-de-chuva. Questionei-o sobre o 31 e explicou-me que deveria voltar pelo mesmo caminho que lá encontraria o meu destino. Voltei a percorrer a "rua" em demanda do 31. Em vão: acabei por me deparar outra vez com o 27. Adensava-se o mistério e a chuva. Esta, que perdera a timidez, fluía agora, se não copiosamente, pelo menos de forma desinibida. Admitindo um improbabilíssimo erro, saí do carro e dirigi-me ao 27, enfrentando a intempérie. Continuava a ser o meu dia de sorte: havia gente em casa! Uma mulher na transição entre a idade madura e a velhice acorreu à janela:

- Olhe que está a chover! - Disse-me de rojo.

- Sim já notei... Podia...

- Olhe que se molha!

- Não se preocupe. Só queria saber onde fica o nº 31.

- Não quer um guarda-chuva?

E o esgrimir entre a samaritana criatura, que insistia em juntar uma oitava obra ao ramalhete das sete misericórdias corporais - "cobrir quem anda à chuva"- e este vosso criado que forjava uma bem-aventurança apócrifa - "bem-aventurados os que andam à chuva, porque encontrarão o seu destino" - continuaria, não fosse a boa senhora compreender que a forma mais lesta de me evitar uma molha seria desvendar de vez o mistério do 31.

- Volte para trás.

- Mas esse caminho já eu fiz e fui dar ao 37.

- Vá com atenção à berma: verá uma pedra negra com o número 31 escrito. É aí.

Regressei à protecção do carro e fiz-me de novo à estrada, que é como quem diz à "rua". Segui as instruções e lá encontrei a pedra com o famigerado 31. Bem junto, uma serventia conduz-nos a uma habitação, plantada entre figueiras e oliveiras que a escondem da "rua".

Um quilómetro e cem metros duma tira de asfalto, ladeada de oliveiras e figueiras, uma ou outra azinheira... Quatro habitações! Toponímia tão surrealista não voltei a encontrar.

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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