Jornal Médico Grande Público

Rui Cernadas: crianças!
DATA
11/02/2013 08:24:04
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: crianças!

Por estes dias, nós, médicos, somos confrontados com uma maior incidência das questões psicossociais que afectam os nossos doentes, esmagando-os entre o físico e o psicológico, num mecanismo de prensa imparável que, muitas vezes, impede ou cerceia um diagnóstico mais exacto ou concreto

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  rui_cernadas.jpgEm dias mais tristes falta um sorriso para nos animar.

 

Sobretudo em tempos difíceis como os que vivemos, duros pela dureza habitual do quotidiano e agravados pela sensação, diria realidade, dos sacrifícios que, mais do que impostos, nos escravizam no pagamento de dívidas que, além das nossas, são de outros que deveriam estar identificados, julgados e quiçá presos.

Todo o país, provavelmente, andará nesta onda de desilusão, de tristeza, de incredulidade e de revolta, ainda por cima ligada à incapacidade de ter certezas sobre se o rumo dos timoneiros nos leva a pique ou a bom porto.

E, pior do que isso, sob o "fogo amigo" de quem nos empresta o dinheiro indispensável para comermos e podermos continuar a respirar... A respirar, afinal, de forma quase reflexa, desprovidos do mais importante: a esperança!

Por estes dias, nós, médicos, somos confrontados com uma maior incidência das questões psicossociais que afectam os nossos doentes, esmagando-os entre o físico e o psicológico, num mecanismo de prensa imparável que, muitas vezes, impede ou cerceia um diagnóstico mais exacto ou concreto.

Os gabinetes médicos são, assim, mais do que nunca ou que alguma vez, como diria o outro, as salas de assistentes sociais como formação clínica e competências técnico-científicas menos exploradas, prestando um apoio de base alargada, menos assistencial... Mais confessional ou intimista...

O que vai faltando em número de consultas, vai permitindo redistribuir tempo pelos que nos procuram para os ouvirmos, pelos que nos consultam para escoar ou despejar mágoas e apertos, pelos que em nós descarregam queixumes e azedumes em busca de uma palavra de ânimo ou de um mero olhar de coragem e estímulo ou, enfim, de um sorriso: o tal sorriso!

É por isso que cada um de nós, enquanto médicos, ou como cidadãos e contribuintes, vamos sentindo a cada passo, a cada dia, uma também maior dificuldade em sorrir ou disfarçar o que lhe nos vai na alma!

Escasseiam os motivos, nem digo já de alegria ou de contentamento, talvez da mais simples neutralidade cognitiva ou emocional, face às catadupas de notícias e de factos negativos, funestos e consistentemente sem esperança, nem luz ao fim do túnel ou do buraco!

Todo um país, uma nação, sem esperança, é um país ou uma nação de luto e, pelos vistos, de luto muito pesado e lamentavelmente prolongado.

Não será fácil, concerteza, tirar Portugal do fosso em que foi despejado por quem o empurrou sem assumir qualquer responsabilidade ou, como se vê e ouve nas rádios e televisões, com a lata miserável de quem nem parece carregar sobre si a bandeira e a herança da desgraça.

Também não sei se será possível...

Em todo o caso precisamos de sorrir, tal como precisamos de respirar!

Se nunca foi fácil fazer humor e se os portugueses nem são conhecidos por serem um povo feliz ou sorridente, agora pior será!

Mas ver uma criança sorrir primeiro, depois às gargalhadas com vontade, torna-se um espantoso remédio de ânimo e de motivação, de ternura e de esperança.

E é sobretudo muito bom vê-la rir!

Li ontem uma carta de um leitor de um jornal diário que falava disso e de como, para aguentar o peso de cada dia, todos os dias ficava colado às grades de uma escola primária, perto da sua residência - julgo que na Maia - à hora do recreio, a observar e a alimentar-se da imagem de que usufruía: crianças aos gritos, alegres e despreocupadas, a correrem, a pularem e às gargalhadas, entre amuos e meiguices, entre gestos carinhosos e punhos ameaçadores, espontâneos e generosos, em volta de uma bola ou em pequenos grupos, mas nunca sozinhos...

Como eu gostaria de ter podido ser criança sempre!

Rui Cernadas

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