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Rui Cernadas: a crise… segue dentro de momentos
DATA
28/02/2013 09:45:16
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: a crise… segue dentro de momentos

O modo como a política portuguesa é desenvolvida não se dissocia, obviamente, da imagem que os cidadãos e os eleitores interpretam e integram... Poderemos sempre especular sobre esta matéria, mas os factos são factos e são indesmentíveis

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rui_cernadas.jpgO modo como a política portuguesa é desenvolvida não se dissocia, obviamente, da imagem que os cidadãos e os eleitores interpretam e integram...Poderemos sempre especular sobre esta matéria, mas os factos são factos e são indesmentíveis. Veja-se, por exemplo, a longa discussão e raciocínios elaborados e complexos em torno dos autarcas que, em face da alteração legal, vão deixar de poder manter-se em funções, renovando de modo quase automático os mandatos anteriormente conquistados. O que irão fazer agora, que lugares poderão ocupar, que autarquias deverão considerar como candidatura, que funções lhes serão destinadas?

Os portugueses não têm paciência para a disputa político-partidária "em uso" não lhe dispensando nem tempo, nem consideração.

As audiências televisivas continuam a demonstrá-lo e são raros os momentos em que algo ou alguém consegue contrariar tal constatação.

Por outro lado e mais assustadoramente numa perspectiva meramente democrática, as percentagens de eleitores abstencionistas, a cada eleição, revelam e confirmam o descrédito e a falta de crença e de esperança em dias diferentes!

Pode naturalmente invocar-se a árvore como a floresta, mas são coisas distintas.

O que se não deve confundir é a seriedade e honestidade das preocupações dos cidadãos e a sua revolta e mágoa com o estado do país e a não identificação clara e consequente responsabilização dos que, por acção, omissão ou óbvia incapacidade, no limite, nos conduziram à presente situação.

Outro ponto importante tem a ver com a paranóia da desconfiança e da suspeição.

Não há dia em que alguém não agite espantalhos de acusações ou insinuações, no mínimo sobre tudo e mais alguma coisa e a propósito de qualquer afirmação, notícia, gesto ou atitude!

Dir-se-ia que o país vive obcecado, não fosse o argumento evidente de que são uns tantos e sempre os mesmos, que beneficiando da cobertura mediática de uns tantos - também sempre os mesmos - abusam do direito de dizer o que querem e tentarem fazer do nada um caso público, como se a opinião publicada pudesse ser a opinião pública!

Até parece que somos um povo de ignorantes, apenas capazes de reconhecer em alguns, muito poucos, uma honestidade de carácter e de práticas que faz deles arautos da verdade e da razão e de nós, todos os outros, simples cretinos que nem votos nem maiorias lhes damos...

Também por isso e na mesma linha, já julgam e apregoam tontamente que uma legislatura não pode durar o tempo para a qual os cidadãos votaram, como se um programa de governo não fosse objecto de sufrágio... Para quatro anos!

E confundem, ainda por cima, para iludir os incautos, a legitimidade com a legalidade ou a legitimidade com a pouca vergonha...

Enfim, pode sempre dizer-se que se trata do jogo político característico dos regimes ditos democráticos.

Ainda que mergulhado numa profunda crise, de contornos verdadeiramente dramáticos, em tons dolorosos que compreendem a fome, a miséria, o desemprego, a emigração ou a insegurança.

Mas está tudo inventado e descoberto.

Mesmo no plano intelectual e da escrita.

Recordei-me de um livro que li há muitos anos e que, entretido numa tarde de domingo, procurei e encontrei.

"Sobre a Democracia e Outros Estudos" é o seu título, escrito pelo genial Aldous Huxley, no século passado.

Atentem:

"Segue-se, portanto, que numa crise, uma de duas coisas tem de acontecer: ou os governantes decidem apresentar o facto consumado da sua decisão aos eleitores - em cujo caso todo o princípio da democracia política terá sido tratado com o desprezo que em circunstâncias críticas ela merece; ou então o povo é consultado e perde-se tempo, frequentemente, com consequências fatais."

Com efeito, a crise... segue dentro de momentos.

No país e nos cidadãos.

 

Rui Cernadas

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