Jornal Médico Grande Público

José Agostinho dos Santos: painéis de fundo
DATA
28/02/2013 09:49:31
AUTOR
Jornal Médico
José Agostinho dos Santos: painéis de fundo

Não estarei a dizer nada de surpreendente quando escrevo que os utentes são todos diferentes mas são concomitantemente, para nós - enquanto médicos - todos iguais

 

Versão integral apenas disponível na edição impressa

 

 

jose_agostinho.jpgNão estarei a dizer nada de surpreendente quando escrevo que os utentes são todos diferentes mas são concomitantemente, para nós - enquanto médicos - todos iguais. Porém, a atribuição dessa igualdade nem sempre é fácil para o clínico que também não consegue ser igual a si próprio todos os dias. Este facto, assim exposto, nem sequer toca levemente no "politicamente incorrecto", pois trata-se da mais simples realidade objectivada por qualquer um e da mais simples verdade no que diz respeito ao ser humano enquanto ser social. O médico é também um ser biopsicossocial, porém com um aspecto peculiar: a sua actividade profissional exige competências próprias na área da socialização.

Por muito que essas competências estejam presentes e até bem sólidas, nem sempre elas emergem de forma casual. E essa dificuldade na sua emersão denota-se, sobretudo, nas situações em que existe uma intensa força da gravidade proveniente do comportamento do paciente mais resistente. Da submersão dessas competências resulta que, à superfície, apenas circule um vento capaz de elevar uma tromba de água que poderá causar estragos incómodos.

Assim, partilho convosco uma outra visão do gabinete médico. Sendo habitualmente neutro, branco e inerte, o gabinete oferece condições ideais para a criação mental de um painel branco que desça desde o tecto até ao piso, no qual se projectem as nossas melhores imagens e vídeos mentais que nos transportam ao calor e ao conforto daqueles momentos de vida.

Tomemos, como exemplo, situações do nosso quotidiano clínico. Uma consulta de renovação de atestado de carta de condução a um homem de 50 anos, obeso e hipertenso descontrolado, que emana um vapor bastante quente que rapidamente nos perturba. Precisamente no momento em que tentamos abordar o paciente exaltado com a recusa de renovação do atestado, esse painel poderá descer atrás do doente que gesticula com a robustez da indignação. Nesse painel, as imagens de uma vivência pessoal muito especial (o pôr-do-sol inebriante com a companhia do amor, o sorriso terno do primogénito, a paisagem da serra numa manhã de inverno, a gargalhada de um bom jantar de amigos, a calidez de uma fogueira na noite de Natal...) passam a ser background naquele cenário potencialmente explosivo, levando-nos a uma respiração mais funda. Desse suspiro, refresca-se a alma e recorda-se o lado bom desta vida. Simultaneamente, o vento acalma e as competências emergem... conduzindo-nos a uma maior probabilidade de garantia da qualidade dos nossos cuidados prestados àquela pessoa.

Outro exemplo clássico é: "como não pode pedir uma ressonância magnética?! O meu médico particular disse que eu precisava de fazer uma ressonância magnética!". Após a primeira explicação exaustiva das razões impeditivas de tal pedido e depois da apresentação de alternativas, a insistência do pedido, em contexto de áspera persistência, cria uma sensação de "chover no molhado" que pode corroer a maior "paz d'alma"! O entendimento das inquietações daquela personalidade única é essencial, mas por ser essencial não quer dizer que não seja árduo. Entre um reafirmar das nossas alternativas já propostas e uma nova palavra de cariz autoritário por parte do utente, surgem insidiosamente umas parestesias que nos percorrem do pescoço ao tórax e que conduzem à batida nevrótica do pé no chão. Esse é o sinal de "rede presente" que nos deve lembrar que é um bom momento para descer o painel e iniciar a projecção das nossas melhores fotografias mentais. É, portanto, num harmonioso cenário das fontes de água do Gerês ou da tarde de sol nas praias da Ilha de Tavira que o nosso utente nos dirige palavras com tentativa de coacção. O recurso ao sistema de vídeo só acontece mesmo em último caso, fornecendo o som e o movimento apaziguador desses panoramas de sonho para situações altamente críticas. Ora, o desespero argumentativo do paciente que descamba em "É com o meu dinheiro que vos pagam o ordenado!" constitui um excelente exemplo para carregar no play!

Se este exercício da mente parece insólito a alguém, pois então esse alguém possivelmente não conhece a expressão "recordar é viver"! Se lhe parece trabalhoso, pois então prefere o trabalho de carregar um conflito com o paciente que, enquanto pessoa, é um ser biopsicossocial a necessitar de uma compreensão. Quem acha este exercício curioso, credível e frutuoso, talvez reconheça a labilidade de um ser humano que luta contra essa fragilidade que o pode prejudicar a si e a quem o procura. E também reconhecerá, certamente, o doce lado da vida que motiva a ser mais e melhor.

O doce lado da vida será, então, composto pelos momentos-suporte que guia o clínico até ao melhor entendimento da pessoa. São exemplos o abraço, o beijo ou o sorriso de alguém da sua esfera íntima e são os pontos primários de um rumo diferente ao que o nosso instinto primordial nos conduziria em certas situações clínicas adversas. O médico reconhecerá, portanto, a magia dos momentos fotografados e filmados pela sua mente, um recurso tão disponível e tão barato... Tão simples e tão poderoso.

Assim é a vida! Bom trabalho!

José Agostinho Santos
USF Lagoa, Centro de Saúde Senhora da Hora

 

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Editorial
Rui Nogueira
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