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Tiago Villanueva: emigração médica… Ameaça ou oportunidade?
DATA
06/04/2013 13:36:12
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Jornal Médico
Tiago Villanueva: emigração médica… Ameaça ou oportunidade?

Parece haver indicadores indirectos de que há cada vez mais médicos a deixar o país, como o aumento de pedidos do certificate of good standing na Ordem dos Médicos

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villanueva_tiago.jpgGotenburgo, Namur, Londres e Edmonton são apenas alguns exemplos de cidades onde actualmente vivem e trabalham médicos portugueses que conviveram comigo durante a faculdade ou durante o internato. Receio que estes colegas não tenham planos para regressar a Portugal.

A emigração de médicos portugueses para os quatro cantos do mundo não é um fenómeno recente. O célebre neurologista português Corino de Andrade trabalhou em França e na Alemanha na primeira metade do século XX, teve a oportunidade de se estabelecer permanentemente no estrangeiro, embora tenha acabado por regressar a Portugal por motivo de doença familiar.1

Já outro neurologista português de renome internacional, António Damásio, acabou por se radicar definitivamente nos Estados Unidos da América, mais concretamente na Califórnia, onde reside e trabalha.2

No entanto, a saída de médicos portugueses para outros países tem sido até hoje um fenómeno residual e de natureza temporária, com a finalidade, em geral, de realizar estágios durante o período de internato, ou até mesmo realizar todo o internato noutro país com o intuito de regressar a Portugal.

 

Precisamos de emigrar?

Ao contrário de grande parte das outras classes profissionais, que têm fracas perspectivas de empregabilidade em Portugal, os médicos não têm tido até hoje necessidade de emigração por uma questão de sobrevivência básica. Ainda vigora praticamente uma situação de pleno emprego e de desemprego residual. Se formos a ver os países onde se formaram os médicos inscritos no regulador médico britânico - o General Medical Council -, Portugal nem consta na lista dos 20 países mais representados, ao contrário de países mais desenvolvidos como a Alemanha, ou mesmo de outros países do Sul da Europa como Espanha e Itália, com maior experiência de emigração médica.3

Contudo, com a degradação progressiva das condições de formação e de trabalho, e a crescente falta de perspectivas de carreira para os médicos recém-especialistas, cada vez mais clínicos estão pela primeira vez a equacionar essa hipótese. Por isso, e por enquanto, a emigração está, mais do que por necessidade, associada à busca de maior realização profissional e à procura de condições diferentes de formação e desenvolvimento profissional, bem como de perspectivas de carreira.4

No entanto, parece não faltar muito tempo para o panorama se alterar radicalmente, caso se venha a confirmar a situação, num futuro próximo, de falta de vagas para todos no período de formação específica do internato médico, já que é essencial completar o segundo ano do internato médico (o primeiro ano da "especialidade" propriamente dita) para se ter autonomia como clínico.5

 

A emigração está a aumentar?

Parece haver indicadores indirectos de que há cada vez mais médicos a deixar o país, como o aumento de pedidos do certificate of good standing na Ordem dos Médicos (documento exigido obrigatoriamente pelos outros reguladores médicos) e do número de inscrições nos reguladores médicos de outros países, sobretudo a nível europeu.6 No entanto, é difícil tirar conclusões definitivas, dado que muitos médicos internos inscrevem-se nos reguladores dos outros países simplesmente para realizarem estágios de longa duração durante o internato. Por enquanto, tenho notado que muitos colegas ponderam emigrar, mas são efectivamente poucos os que acabam por tomar os passos necessários. No entanto, a presença cada vez maior de agências estrangeiras de recrutamento de médicos em feiras de emprego em Portugal é revelador de que os recrutadores estrangeiros estão atentos à evolução da situação económica portuguesa, e que os médicos pensam cada vez mais em alternativas no estrangeiro.7

 

É fácil emigrar?

A resposta depende para onde se quer emigrar, mas em geral a emigração de médicos é um processo muito mais complexo do que para grande parte das outras profissões, que não estão tão sujeitas a um processo de reconhecimento de qualificações profissionais ou a barreiras linguísticas.

Numa empresa multinacional da área financeira, por exemplo, o colaborador pode estar hoje sediado no escritório de Lisboa, e no dia seguinte pode ser destacado e estar logo a trabalhar no escritório de Paris, Nova Iorque, Manila ou Sydney. Em Medicina, esse tipo de mobilidade é praticamente impossível. Em teoria, só o processo de reconhecimento das qualificações profissionais dentro da União Europeia (que é suposto ser automático) demora cerca de três meses, e acarreta custos substanciais em tradução e certificação de documentos. Fora da Europa, não há reconhecimento automático das qualificações profissionais, e portanto o processo é muito mais moroso, demorado, e obriga em muitos casos à realização de exames teóricos e práticos.

Está em curso a revisão da Directiva 2005/36/EC, que regula a mobilidade profissional dentro do espaço europeu, incluindo a dos médicos. Em teoria, o objectivo é simplificar os procedimentos administrativos (fala-se em reduzir o tempo de reconhecimento das qualificações profissionais de 12 para seis semanas através da introdução de um "cartão profissional europeu"), mas ao mesmo tempo o processo poderá tornar-se ainda mais rigoroso, com a introdução de emendas que vão aumentar o escrutínio em torno do médico como a obrigatoriedade de realização de exames da língua do país de destino, entre outras.8

 

Devo emigrar?

Não vou aconselhar ninguém a emigrar ou não, pois essa é uma decisão que tem que ser tomada individualmente ou no seio da respectiva família, e deve ser baseada nas circunstâncias pessoais de cada um.

Simplesmente acho que a emigração vai provavelmente ser cada vez mais uma alternativa viável que as actuais e futuras gerações de médicos devem considerar para a sua carreira, além de um percurso profissional desenvolvido exclusivamente em Portugal. E por isso não há nada melhor do que estar o mais bem informado e preparado possível na eventualidade de um dia se querer, ou sobretudo, se tornar mesmo necessário dar esse passo.

Acima de tudo, não há nada como ganhar exposição internacional desde muito cedo, idealmente desde a faculdade, de forma a desenvolvê-la durante o internato e a direccioná-la para a aquisição de determinadas competências específicas. O Department of Health do Reino Unido considera que a internacionalização dos médicos britânicos comporta inúmeras vantagens, e que passam pela aquisição quer de competências de índole mais técnica (hard skills), como as competências clínicas ou linguisticas, quer outro tipo de competências denominadas soft skills, como a capacidade de adaptação ou a diplomacia.9

No mundo global de hoje em dia, é fundamental criar uma certa desenvoltura e rodagem internacional: saber falar línguas, saber relacionar-se com colegas e pacientes de vários países, trabalhar em ambientes multiculturais, desenvolver uma rede de contactos internacional, ser membro de sociedades científicas estrangeiras e integrar grupos de trabalho internacional, debater em fóruns virtuais internacionais, etc. É muito mais fácil ganhar acesso a determinadas oportunidades de formação ou de carreira com esta rodagem internacional, que muitos dos jovens médicos já têm graças a programas de intercâmbio realizados durante a faculdade, como o Erasmus ou outros. Todavia, esta exposição internacional pode acarretar consequências. Muitos médicos que foram fazer estágios durante o internato noutros países acabaram por não voltar (e eu conheço pessoalmente alguns casos), ao aperceberem-se das aliciantes condições formativas, salariais e de desenvolvimento profissional existentes nos países de acolhimento.

Por outro lado, há cada vez mais recursos à nossa disposição para nos ajudar a "navegar" por esses corredores internacionais da medicina, como o projecto European Medical Mobility (http://www.medicalmobility.eu/) ou o livro Medic's Guide to Work and Electives Around the World.10 No caso concreto da Medicina Geral e Familiar existe também uma bibliografia vasta relativa à internacionalização11, 12, e o Movimento Vasco da Gama (que representa os médicos internos e jovens médicos de família a nível europeu) tem ao dispor um programa de intercâmbio europeu chamado Hipócrates, e que permite a médicos internos e jovens médicos de família alargar horizontes profissionais e realizar estágios noutros países.13

 

Conclusão

A emigração médica é uma tendência crescente, por vários motivos, mas deve ser encarada com muita tranquilidade.

Acho que não devemos encarar a emigração como um el dorado, mas também não como uma fatalidade. Mas, considero que podemos encará-la como mais uma oportunidade válida de acesso a formação pós-graduada e a oportunidades de carreira. Se de facto começa a haver cada vez menos estabilidade e oportunidades a nível interno, talvez seja possível encontrar essa estabilidade e oportunidades lá fora, e cada vez mais fora da Europa, nomeadamente no mundo emergente. Como tal, mais do que nos prepararmos especificamente para emigrar, devemos mais se calhar estar preparados para uma nova era de mobilidade internacional e para sermos "profissionais globais".14

Na realidade, o mercado-alvo de trabalho dos médicos portugueses hoje em dia já é global. Além disso, a emigração já não é linear. Amanhã poderemos estar a trabalhar em Londres, e mais tarde em Singapura, como voluntários em países do terceiro mundo, ou quiçá, como médicos nas plataformas petrolíferas de Angola. Existem efectivamente algumas ameaças a pairar sobre o futuro dos jovens médicos portugueses, mas em contrapartida, existem também novas oportunidades.

 

Tiago Villanueva, médico de família, ACES Lisboa Norte

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O autor nega ter quaisquer conflitos de interesse.

 

Este artigo foi baseado numa conferência em que o autor participou como orador no dia 22 de Março de 2013, e que foi organizada pela delegação da Ordem dos Médicos de Setúbal e intitulada Demografia médica: emigração ou diferenciação?

 

 

1 - Villanueva T. Corino de Andrade: Neurologist who discovered and gave his name to a hereditary form of amyloidosis. BMJ 2005; 331:163.

 2 - Antonio Damásio: http://en.wikipedia.org/wiki/Antonio_Damasio ( (acedido a 24 de Março de 2013).

 3 - Top 20 countries of qualification: http://www.gmc-uk.org/doctors/register/search_stats.asp (acedido a 24 de Março de 2013).

 4 - Emigração e desemprego são duas palavras a entrar no dicionário dos jovens médicos:

http://p3.publico.pt/actualidade/economia/3520/emigracao-e-desemprego-sao-duas-palavras-entrar-no-dicionario-dos-jovens-m (acedido a 24 de Março de 2013).

 5 - Portugal está a caminho de ter médicos a mais:

http://www.jmfamilia.com/index.php?option=com_content&task=view&id=1766&Itemid=27 (acedido a 24 de Março de 2013)

 6 - Mais de 500 médicos pediram para emigrar: http://www.jn.pt/PaginaInicial/Sociedade/Saude/Interior.aspx?content_id=2836429 (acedido a 24 de Março de 2013).

 7 - Empresa Portuguesa recruta médicos Portugueses interessados em emigrar: http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO069277.html (acedido a 24 de Março de 2013).

 8 - Marques, TV. Europe overhauls physician mobility regulations. CMAJ. 2012 Feb 21;184(3):E169-70.

 

 

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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