Jornal Médico Grande Público

Imagem 720*435
DATA
06/04/2013 13:45:47
AUTOR
Jornal Médico
Os troca-tintas

Do lado governo a influência tecnocrática parece perder influência em favor duma atitude mais política e com perversos efeitos sobre a sustentabilidade do SNS

Versão integral apenas disponível na edição impressa

Uma no cravo, outra na ferradura

 

Foi com algum desconforto que reli a minha crónica do passado número do JM. Recordo que Leal da Costa, secretário de estado adjunto do ministro da saúde, incentivara os portugueses a cultivar estilos de vida saudáveis, donde resultaria menor pressão sobre o SNS. Perante as caricatas reacções a estas corretíssimas declarações resolvi botar opinião a favor do governante. Até aqui tudo bem. Só que, passados poucos meses, coube a Leal da Costa anunciar ao país nova legislação sobre o consumo de bebidas alcoólicas e aí "borrou a pintura", (com a licença dos leitores!). Uma lei que pretende proteger os jovens com menos de 18 anos dos malefícios do etanol tolerando-lhes o aceso público ao vinho e à cerveja é duma hipocrisia vergonhosa. Esta decisão, dum despudor desprestigiante para o governo, desmente o empenho em defender a saúde dos portugueses. Os dois lóbis alcoólatras mais poderosos levaram a melhor sobre a saúde.

Todavia, não deixa de ser curioso o silêncio do representante dos utentes dos serviços de saúde e da oposição, que ainda há pouco esbracejavam deploráveis comentários contra a correta invectiva pró-saúde do mesmo secretário de estado. Se na altura perderam uma ocasião de estar calados, deixaram agora passar uma oportunidade de denunciar a tartufice governamental. O silêncio, neste caso, significa anuência perante a infeliz decisão do executivo. Quer dizer, parece confirmar-se que afinal sempre promovem o direito à doença! Por outro lado, pode admitir-se que a defesa duma política mais restritiva seja percebida como impopular, se quiserem "popularmente incorrecta", num país de fortes tradições alcoólicas. Como tal, preferem jogar no campo do populismo e não na defesa da saúde das populações. O que está em causa não é política de saúde, mas sim o uso da saúde (ou do consumo de cuidados de saúde) como arma de arremesso na refrega político partidária. Por isso, denunciar uma medida errada em termos técnicos, mas popularmente aceite, seria politicamente desacertada, do ponto de vista dos partidos e dos seus ideólogos. Logo, optaram por cautelosa quietude. A saúde que se lixe, desde que não se percam votos!

Mas também do lado governo a influência tecnocrática parece perder influência em favor duma atitude mais política e com perversos efeitos sobre a sustentabilidade do SNS. Os favores concedidos aos lóbis referidos serão politicamente corretos e não levantam protestos populares, mas, economicamente, são um disparate completo. Segundo Pedro Pita Barros, reconhecido economista na área da saúde, a sustentabilidade do SNS, a longo prazo, depende da modificação dos estilos de vida (nomeadamente na drástica redução do consumo de álcool, diríamos). Os ganhos com eficiência e redução do desperdício têm impacto apenas a curto prazo: um ou dois anos (1). Ao franquear aos jovens o consumo de álcool em idades tão jovens, o executivo abala perigosamente a sustentabilidade do SNS.

Ultimamente a Constituição tornou-se instrumento da defesa de elites e dos privilegiados de todos os tipos e feitios, ao mesmo tempo que cumpre com eficácia o papel de empecilho para aplicar soluções que possam salvar a Nação. A Constituição tem sido a muralha de aço contra a mudança que molesta poderes instalados, mas confere insuficiente protecção aos desvalidos ou aos valores como a saúde. Sem dúvida que o consumo de vinho e cerveja por menores de dezoito anos constitui um risco considerável para a saúde pública. Não obriga o artigo 64º da Constituição o Estado a proteger a saúde dos cidadãos? Não será, portanto, a recente legislação sobre o acesso ao consumo de álcool por menores, anticonstitucional? Porque não fazem nada os que se amofinaram contra o discurso pró-saúde de Leal da Costa em Dezembro?

(1)       "Pela sua saúde"- Pedro Pita Barros, FFMS 2012

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

news events box

Mais lidas