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Rui Cernadas: à procura de verdade
DATA
22/04/2013 11:03:53
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: à procura de verdade

Um país enquistado, endividado e em muitos casos ainda praticamente feudal, tem opções estratégicas claras para os próximos 10 ou 15 anos?

Versão integral apenas disponível na edição impressa

 

rui_cernadas.jpgOs processos "revolucionários" têm por norma o problema de, a partir de certo momento, tenderem à cristalização ou à acomodação. Mesmo e sobretudo quando são movimentos de natureza "reformista" e pacífica, como foi o caso do que se observou nos últimos dez anos em Portugal em torno dos cuidados de saúde primários (CSP).

É natural que assim seja e é expectável que tal aconteça, principalmente a partir do instante em que a adesão a um processo de mudança e de transformação se torna, em simultâneo, gratificante para os profissionais do serviço público e generoso e eficiente para os cidadãos e contribuintes, os seus autênticos destinatários...

A questão é ainda mais complexa quando sucede que, alguns, se tentam apropriar da legitimidade da "propriedade" para se arvorar em defensores do que quer que seja, na verdade nunca mais do que um pedaço ou parcela do todo!

Ao Estado importa ter ou disponibilizar bons serviços públicos?

Serviços reconhecidos e capazes, mas também sustentáveis e críticos no bom sentido e no da exigência, não sindical ou de corporação, mas de consciência e sentido cívico.

Com a reforma dos CSP o país encontrou-se com um SNS digno e verdadeiramente acima da fasquia média que, relativamente à generalidade dos serviços públicos assegurados aos cidadãos, podendo nem ser totalmente perceptível, é ainda assim indiscutível para quem nos olha e avalia de fora.

O problema, a grande questão afinal, é a de saber que futuro pode ter o SNS e os CSP em particular.

Um país enquistado, endividado e em muitos casos ainda praticamente feudal, tem opções estratégicas claras para os próximos 10 ou 15 anos?

E nem complicarei, pelo que falo apenas em matéria de cuidados de saúde...

Os autarcas e os partidos políticos são também, em boa medida, condicionantes da opinião pública e têm-na "deformado", à custa de reivindicações fáceis, injustificadas ou demagógicas, nas quais se inserem, por exemplo, unidades de saúde como cogumelos e/ou hospitais, de agudos ou continuados a cada esquina, sem estudos de necessidades que os suportem, sem projectos operacionais nem plataformas de viabilidade económico-financeira!

Apenas e somente na defesa de um conceito de proximidade e de acessibilidade de contornos oblíquos e vistas estrábicas...

E o país foi positivamente marinando sem que, na saúde, se assumissem planos de médio e longo prazo, em áreas como a da rede hospitalar adequada, concentração ou dispersão de serviços, dimensão crítica para serviços e centros capazes ou de excelência como princípio orientador, numa pulverização e fragmentação inconcebíveis e de nítido desperdício, quando não delituosa e até, em largo sentido, contra os interesses das próprias populações e doentes!

A noção hospitalocêntrica perdura e qualquer redução do número de camas hospitalares de agudos desata histerias, enquanto que as recomendações parlamentares raiam o ridículo sob o ponto de vista técnico e científico mais moderno.

Os CSP deveriam estar na ordem do dia.

Até pelos resultados notáveis que conseguiram em muitos aspectos.

Mas há que sublinhar que muitos dos números e dos ganhos, quer em desempenho, quer em poupanças, estão já desajustados, ultrapassados pelo tempo e pela evolução natural das coisas e não evidenciados.

E por duas razões principais: a primeira, a de que a subida global do nível de cuidados assistenciais dispensados foi generalizada e a segunda, a de que por consequência, o fosso e a disparidade entre USF e UCSP foi sendo progressivamente esbatida.

Se quisermos, poderemos também invocar a imposição das reduções imputáveis no plano das retribuições remuneratórias e outras medidas que, administrativamente, o Estado impôs aos seus servidores e fornecedores, tanto do lado da despesa, como do lado da receita.

Mas sejamos honestos.

Trazer os CSP para a ordem do dia não passa pelo alarido que alguns gostam de manter em redor do seu comportamento individual ou associativo.

Nem pela utilização de divisionismos que fracturam realidades coexistentes e em aproximação.

Colocar os CSP na ordem do dia passa pela discussão serena e técnico do envolvimento que, à luz da situação do país, pode contribuir para um upgrade sustentável da realidade quotidiana e partir para o que se sempre se disse e nunca se conseguiu - a verdadeira articulação dos níveis de cuidados, num contexto de integridade e continuidade assistencial!

 

Rui Cernadas

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Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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