Jornal Médico Grande Público

José A Santos: o paciente da guarda
DATA
22/04/2013 11:09:20
AUTOR
Jornal Médico
José A Santos: o paciente da guarda

Alguns pacientes possuem esse dom de alterar a direcção da linha em que seguíamos, ser uma estação para introspecção e aprendizagem e, rapidamente, nos dirigir até um destino bem melhor do que o anterior. Cada um deles é, portanto, um paciente da guarda

Versão integral apenas disponível na edição impressa

 

jose_agostinho.jpgIndependentemente das crenças ou afinidades religiosas de cada um, já quase todos nós ouvimos falar (e até nos ouvimos falar) do "anjo da guarda". O anjo da guarda é evocado nas mais diversas situações, porém particularmente em contextos de relativa complexidade e potencial fragilidade em que o auxílio de algo abstrato e superior (para quem é crente) ou de algo bem concreto como uma pessoa amiga de pele, carne e osso (para quem não é minimamente crente) tem um impacto tão gigante e avassalador que nos conduz à expressão "foi o meu anjo da guarda!".

Como sabemos, o conceito do "anjo da guarda" provém da amálgama religiosa, mas prolonga-se nos mais diversos formatos para os mais diferentes contextos como algo exterior e extremamente positivo (e, porque não, magnânime) que resulta em grande benefício para o próprio, geralmente de forma inesperada.

Nestes dias cinzas e chuvosos de Inverno, o nosso quotidiano parece, por vezes, estar repleto de séries pré-destinadas de eventos que nos afundam em alguma melancolia ou que nos fazem iniciar uma penosa caminhada em montanha íngreme e fria. Refiro-me tanto ao panorama pessoal como à esfera profissional. Como médicos e nesta sucessão quase ininterrupta de dias de actividade clínica, surgem as nossas dúvidas existenciais que carecem de suporte para a sua origem, aparece no nosso espelho um rosto cansado e de olhar baço ou, na melhor das hipóteses, um automatismo diário sem cor e sem um sorriso livre a registar. Poderemos entrar, portanto, num ciclo de astenia clínica que se mistura com a depressão da produtividade e com uma dolorosa auto-avaliação que quase desagua numa auto-flagelação. Isto não é mais do que um contexto de fragilidade eminente, já acima referido.

Se estes dias (ou semanas) nos são familiares desde que exercemos medicina, então certamente são, por nós, reconhecidos aqueles pacientes que nos entram no gabinete e que, por um gesto, por uma frase ou por uma atitude, quebram brutalmente essa sequência taciturna de momentos de vida, agitam o planeta por segundos e nos induzem a estranha sensação de que acordamos de um longo período de hipnotismo. É quase como um momento de magia...mas para melhor! Refiro-me àquele paciente que, apesar da sua patologia incapacitante, esboça um largo sorriso quando fala da vida... Ou àquele que, pela sua atitude serena e calorosa, nos faz lembrar os nossos próprios focos e fontes de serenidade... Ou àquela pessoa que, de forma inexplicavelmente bela (sem que consigamos dizer propriamente os porquês especiais dessa beleza), nos transmite um reconhecimento e uma estima de uma forma que só ela sabe fazê-lo... Pela quase impossibilidade de lhes sermos neutros, o nosso interior é lavado por aquela intensa frescura dessa relação médico-paciente, como se esse interior renascesse. E eis que o paciente salva o médico (e não o contrário, para variar)!

Dedicando uma grande parte das nossas horas de vida à prestação de cuidados ao paciente, a resposta (ou feedback) recebida em sentido de "lá para cá" transporta consigo uma cinesia que, se fornecida no modo adequado, se conjuga em perfeição com nossos mundos. E alguns pacientes possuem esse dom de alterar a direcção da linha em que seguíamos, ser uma estação para introspecção e aprendizagem e, rapidamente, nos dirigir até um destino bem melhor do que o anterior. Cada um deles é, portanto, um paciente da guarda. É assim denominado pela clara semelhança com a imagem angelical, revelada no impacto inigualável que as suas pequenas acções e comportamentos têm nas nossas vivências diárias. É como se, após a sua saída do gabinete, o mundo no qual vivemos adquirisse a luz outrora perdida, a clareza da visão outrora desfocada e a destreza dos paladares outrora ausente. Deste terreno agora fértil, brotam outras formas de vida que se expandem com vigor e encanto para as esferas mais íntimas e extra-profissionais. E um ciclo de positivismo pode aqui começar.

Pela minha curta experiência clínica, estes pacientes da guarda são bem mais frequentes do que eu julgaria à partida. Felizmente, faço a constatação de que eles vão aparecendo de forma relativamente periódica de maneira a nos "salvar" de espirais descendentes, atirando-nos para campos estáveis e bem mais tranquilos. Este facto conduz-me, porém, a outra questão um tanto inquietante, confesso: surgirão eles de forma periódica ou estaremos nós mais susceptíveis a ser salvos pelos pacientes apenas quando estamos em situações de crise?...

Assim é a vida! Bom trabalho!

José Agostinho Santos
Unidade de Saúde Familiar Dunas,
Lavra, Matosinhos

 

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Editorial
Rui Nogueira
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