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José A Santos: o record nos 50 metros – barreiras
DATA
10/05/2013 02:38:20
AUTOR
Jornal Médico
José A Santos: o record nos 50 metros – barreiras

Na maratona das dezenas de tarefas que competem entre si e em direcção ao médico, as suas respostas surgem aos mais diversos níveis e nos mais diferentes contextos

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jose_agostinho.jpgNesta sequência tão doce quão vil de dias repletos de actividade clínica, surgem períodos de consulta particularmente complexos, tal é a sua intensidade. Esses dias - frequentemente denominados de "caóticos" - imprimem uma nova tonalidade ao quotidiano clínico, por rasgarem o monocromatismo dos dias anteriores e por fazerem germinar uma adorável sensação de dever cumprido.

Na maratona das dezenas de tarefas que competem entre si e em direcção ao médico, as suas respostas surgem aos mais diversos níveis e nos mais diferentes contextos. E em momentos de total luta contra-relógio, em que se procura poupar o atraso e rentabilizar o tempo entre mãos, essas respostas sucedem-se sem interrupções nem pausas, fazendo do médico um verdadeiro atleta de pentatlo.

Apesar de estes dias serem indutores de um tumulto interior no seio dos reagentes emocionais, a manutenção de um equilíbrio reaccional entre estes soma-se a um feedback, momento a momento, das diferentes respostas, fornecendo uma aceleração saborosamente progressiva e, sob a qual, apenas se reza para não encontrar uma barreira que obrigue a uma travagem brusca ou que seja causadora de acidente. E eis o grande desafio destes dias!

Nesta corrida frenética em que se pretende chegar até todos os pacientes que nos procuram, o tempo voa e sobrevoa sobre uma constante protelação de pequenos planos pessoais (e essenciais) ao longo do período de consulta. As horas passam e aquele pequeno projecto pessoal tão simples como "ir ao wc" (!!) vai sendo adiado e adiado...com um sinuoso desrespeito pelo próprio corpo,... até ao momento-auge do "tem mesmo que ser agora!" que surge após umas boas duas horas desde o primeiro adiamento. Eis, então, que o médico encontra, naquela manhã ou tarde tão clínica quão desportiva (em que já transpira de tanto pentatlo, maratona e contra-relógio), a sua prova mais difícil: percorrer os 50 metros que separam o seu gabinete do wc mais próximo, em curto espaço de tempo (porque o corpo pede e porque os utentes que aguardam a consulta também pedem), passando por cima de todas as barreiras sem as derrubar...ou, pelo menos, sem cair sobre elas.

Desde a porta do gabinete (ponto de partida), o reconhecimento da pista é fundamental: atendendo à sua trajectória, qual a melhor estratégia? Bem... Tratar-se-á de uma etapa importante (esta do reconhecimento). Porém, será totalmente obsoleta quando se está perante a emergência de se chegar a um wc! A melhor estratégia é mesmo "ir em frente e seja o Deus quiser!". Só que, por vezes, Deus quer que se encontrem todas as barreiras para tornar a prova ainda mais complexa: aos 50 metros simples, interpõe Ele umas quantas barreiras!

Numa dessas manhãs "caóticas", lá parto eu em pezinhos levantados e silenciosos (tal como uma personagem matreira da Disney) para aquele corredor em que somente procuro a luz ao seu fundo! Porém, logo após a primeira curva, avisto um utente de costas a olhar para as placas e para as portas dos gabinetes. Sabemos bem que este cenário é um clássico: o paciente perdido, a apontar para as placas enquanto as lê em voz alta, e que não sabe onde é o gabinete para o qual foi chamado. É, claro, que os meus pezinhos de lã desfazem-se naquele momento, pois, não seria justo deixar o paciente à deriva. Além disso, não seriam aqueles segundos de puro auxílio que iriam perturbar um organismo habituado a uma espera de duas horas! Contudo, é o ecoar da minha voz ao dizer "o gabinete que procura é o de lá ao fundo à direita!" que atrai àquele corredor duas secretárias clínicas, que se catapultam para fora da porta de ligação e com aquela frase mágica "ah, Doutor! Ainda bem que está aqui porque preciso de falar consigo!". O desespero torna-se profundo!... Porém, treinadas a lidar com as pessoas e com as suas expressões faciais mais vivas e mais reais, estas mesmas secretárias reconhecem o meu ar lívido e alienado no momento imediatamente após a solicitação, pelo que dispensam (embora com um olhar intrigado) um simpático "mas, talvez seja melhor falarmos mais logo...".

Ultrapassadas as duas barreiras, sigo apressado e aproximo-me da árdua recta final: o pequeno trajecto que separa o corredor e o wc e que, por sua vez, se cruza com o hall de entrada da unidade de saúde. Não haveria nada de especial nisto, não fosse o facto de habitualmente alguns delegados de informação médica aguardarem uns minutos de conversa com os clínicos da unidade, num recesso para o qual não tenho visibilidade. Neste ponto, abro a porta, respiro fundo e, com olhar preso no pavimento, acelero (como se ouvisse ao fundo alguém a gritar "Run for your life!!") até à porta que dá passagem para uma área com os wcs privados.

Enquanto percorro este trajecto com total rapidez (embora vivenciada como se fosse em câmara lenta, com a expressão facial de garra e ao som de uma música olímpica), lá atinjo a porta de acesso à área e, em nove passos (sim, já os contei!), alcanço o wc! Um verdadeiro record para estes 50 metros - barreiras! Claro que havia um conjunto simpático de delegados que me esperavam, mas, dada a minha velocidade, creio que terão ficado com dúvidas se seria, de facto, a minha figura... Pude, depois, explicar-lhes que falaríamos mais tarde naquele dia. O retomar à consulta teve que se fazer logo após o cortar da meta.

Entre tantas e tão exigentes tarefas diárias, parece-me pertinente pensar que quanto menos respeitar os pequenos e essenciais projectos pessoais (como lhes denominei anteriormente), mais desafios acrescentarei a uma manhã já tão recheada. Mas trabalhar bem incluiu torná-los suaves e alcançáveis com tranquilidade...e sem o peso de uma autêntica prova olímpica. Não concordarão?...

Assim é a vida! Bom trabalho!

José Agostinho Santos
Médico de Família
Unidade de Saúde Familiar Dunas, ULS - Matosinhos

 

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