Jornal Médico Grande Público

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DATA
30/05/2013 12:15:01
AUTOR
Jornal Médico
Domicílios III: feios, pouco limpos e bons

Naquela inesperada visita domiciliária, meia feliniana, enriqueci a minha experiência e amaciei a minha visão. Estou habituado a deparar-me com verdadeiros destroços humanos mergulhados em sofrimento sem remissão, que familiares, cuidadores e profissionais de saúde porfiam em dar continuidade

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 "Os pais de provecta idade são, para os filhos, motivo de orgulho e, ao mesmo tempo, de preocupação"

Confúcio

 

Para quem nunca viu o filme, ou viu e esqueceu, aqui vai. Em "Feios, porcos e maus" Ettore Scola retrata uma família alargada (Graffard VI ou VII, pelo menos!) vivendo num bairro de lata romano. Na película, os únicos inocentes são as crianças, abusadas em todos os sentidos e uma idosa que a família mantém viva com o único propósito de lhe esmifrar a magra pensão de reforma. Os restantes não passam de crápulas da pior espécie. Da higiene nem é bom falar. E quanto à beleza, Scola, esmera-se na arte do anti-estilismo, conseguindo apagar qualquer traço de formosura ou elegância aos personagens. Posto este intróito passemos ao relato duma visita médica domiciliária bizarra.

Decidi visitar a centenária que entrara recentemente no meu ficheiro e com a ajuda do Google não foi difícil chegar à rua Direita, nº 12.

Rua estreita sem passeios, casa térrea e atarracada, janelas exíguas, um azulejo piroso. Após insistente uso da campainha, lá nos fraqueou a entrada um homem de meia-idade de aspecto pouco recomendável, mas acolhedor. Embrenhamo-nos, a interna e eu, pelo casinhoto. Pequenas divisões, que se seguem a pequenas divisões, mobília pobre, com retratos a sépia de avós emergindo das profundezas do outro século. Desembocamos num pequeno pátio interior. Telheiros de zinco, geral desarrumação, canteiros onde sardinheiras suplicantes por uma gota de água e ervas aromáticas convivem com rosas meio definhadas. Numa enorme gaiola vários passeriformes cantam sua triste sina de prisioneiros em trinados que lembram as lamentações de Jeremias. Sem tempo para integrar todo este manancial de informação que o pátio (muito vagamente andaluz) nos proporcionava, a nossa atenção é desviada para três rafeiros de escassa corpulência, mas bravata a rodos, que nos saltam à peugada. Logo outro homem, de meia-idade também, e também de aspeto a condizer com o ambiente surrealista, se encarrega de pôr ordem entre os canídeos, correndo a pontapé o que, no seu entender, punha em risco a integridade das nossas canelas, permitindo aos outros virem dar-nos as boas-vindas bem salivadas.

Duma qualquer porta lateral surgiu uma criatura, com saia de roda a lembrar uma nazarena, descalça e de facalhão com dez dedos de lâmina na mão esquerda. "Ah é o Sr. Dr.!" - reconheceu amistosa a desdentada senhora, sempre de cutelo em punho sujo com fiapos de caldo verde. Fenda palpebral pouco generosa e carrapito mal-amanhado, lá foi elogiando o desempenho de tarefas que, a despeito da respeitável longevidade, a tia se entregava: "ainda come pela mão dela!". Deixamos o pátio e enfrentamos nova sucessão de divisões, mal divididas, desniveladas entre si e mal iluminadas. Este contínuo de quartos, sem corredores a proteger-lhes a privacidade, evoca na minha mente o palácio dos Duques de Bragança em Vila Viçosa - ironias do imenso poder associativo dos neurónios. Mas já um meta pensamento emerge, quiçá, do córtex pré-frontal, em forma de inquirição: qual o sentido do sentido de humor? Quer dizer: qual a utilidade darwiniana do humor? Talvez que o papel da dopamina tenha objectivos semelhantes aos das endorfinas: anestesiam estas as dores físicas e aquela, as da alma. Demasiado focado na abstracção e portanto um tanto alheado da actividade sensorial, já de si dificultada pela obscuridade relativa, calculei mal o número de degraus e ia-me estatelando, mesmo antes de chegarmos ao sanctu santórum daquele lar (lar no sentido de home dos ingleses e não de instituição). Regressei à realidade e aos seus perigos e retomei o uso do cérebro para fins mais prosaicos e fundamentais: a sobrevivência.

Mas chegávamos, enfim, ao sanctu santorum daquele lar. A velha da faca e demais familiares introduziram-nos, ufanos, nos aposentos da nossa utente, insistindo sempre no prodígio de destreza: "ainda come pela mão dela!".

A sala teria uns nove metros quadrados. Um cadeirão, uma cama, baixa e estreita, os inefáveis retratos centenários, um contador humilde, um cadeeiro pindérico pendente do teto por um fio descarnado, interruptores que havia em casa duns tios avós que eu visitava há uns quarenta e muitos anos, flores de plástico em jarrinhas feias como noite de trovões e... um LCD de 107 cm mais um ar condicionado!

 A senhora, cega, sorridente, lá estava, sentada no cadeirão, que nem uma rainha. Depois das apresentações e cumprimentos da praxe, passamos à anamnese: "O que lhe doí?" "Nada!". Negou outras queixas. Chegado a este ponto, comecei a sentir-me tão útil como viola em enterro e aliviado por não ter de prescrever analgesia. A interna lá fez o papel dela. Mediu a TA, auscultou e reportou "TA: 120-70, pulso rítmico, auscultação sem engulhos; apenas edemas dos membros inferiores". Resisto à tentação de lhe enfiar com um diurético e de requisitar análises.

Com um gesto cúmplice da mandibula apontei à interna o LCD de pródigas dimensões, enquanto um dos familiares se referia ao ar condicionado, cuja benignidade a criatura recusava. LCD e ar condicionado contrastavam, por um lado com a modéstia da habitação, por outro com a acuidade visual nula e com a resiliência da putativa beneficiária daquelas mordomias face às vicissitudes climatéricas.

Fomos poupados à viajem de regresso através do dédalo e a enfrentar de novo os três Cérberos, mais a visão de passarinhos aprisionados a chilrearem o coro dos escravos do "Nabucco" de Verdi. A habitação tinha duas entradas e saímos para uma rua diferente daquela pela qual entramos. Enquanto me orientava espacialmente, a interna sorridente observou: "foi mais instrutivo do ponto vista sociológico que clínico!"

Naquela inesperada visita domiciliária, meia feliniana, enriqueci a minha experiência e amaciei a minha visão. Estou habituado a deparar-me com verdadeiros destroços humanos mergulhados em sofrimento sem remissão, que familiares, cuidadores e profissionais de saúde porfiam em dar continuidade. Outras vezes temos casos confrangedores de abandono. Portanto, este episódio foi um refrigério: uma centenária em razoável estado de conservação, feliz e merecedora dos mimos dos familiares, que nem abelha-rainha.

Metaforicamente, quase diria, à guisa, de Fernão Mendes Pinto, que não fui o mesmo que entrou no nº 12 da rua Direita e saiu no 15 da travessa da Bica. Por isso decidi então (e ao contrário de Pessoa) escrever estas linhas que em digo o que sinto e que vos deixo (como o Aleixo).

Relatório Primavera: verdades e consequências
Editorial
Rui Nogueira
Relatório Primavera: verdades e consequências

“Ó Costa aguenta lá o SNS” foi o pedido de António Arnaut em maio do ano passado, poucos dias antes de nos deixar. Mas o estado da saúde em Portugal está mal ou bem ou vai indo? Está melhor ou pior? O SNS dá as respostas úteis às necessidades de saúde da população? O Relatório de Primavera ajuda a fazer interpretações fundamentadas.

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