Limite de prescrição de medicamentos em idosos: estamos preparados?
DATA
21/06/2013 07:42:32
AUTOR
Jornal Médico
Limite de prescrição de medicamentos em idosos: estamos preparados?

É justo e apropriado que os médicos de família sejam envolvidos neste processo e que conheçam, à partida, todas as "regras do jogo", pois melhor que ninguém conhecem os seus utentes e a comunidade

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É certo e sabido que o envelhecimento se associa a alterações fisiológicas que condicionam declínio físico e mental, que por sua vez aumenta o risco de doenças crónicas. Deste modo, a população acima dos 65 anos, é mais vulnerável e apresenta uma maior prevalência de doenças como hipertensão arterial, diabetes, DPOC entre outras patologias que tão bem conhecemos e que fazem parte da rotina clínica diária.

O controlo destas doenças é desafiante e deve envolver a participação activa do doente, na adopção de medidas higieno-dietéticas que favoreçam esse controlo. Mas bem sabemos que o recurso a fármacos é geralmente necessário e que dificilmente conseguimos atingir os objetivos de controlo apenas com um fármaco.

O estudo da população acima dos 75 anos constitui um dos principais desafios na atualidade. A maior parte dos estudos clínicos incluem indivíduos até aos 65-70 anos. E na ausência de evidência, adoptamos como objectivos terapêuticos aqueles que demonstraram benefício em idades mais jovens, desconhecendo se realmente a nossa atitude terapêutica está a ser a mais correcta e com maior benefício para o doente. Este é um problema que não é só nosso, é mundial. Talvez Portugal esteja numa posição mais vulnerável neste aspeto, pelo marcado envelhecimento populacional que se tem verificado nas últimas décadas.

Este fenómeno de vazio pode, de alguma forma, ser angustiante. No entanto até a medicina baseada na evidência tem as suas falhas, pois a metodologia dos estudos não é perfeita, pelo que nem tudo o que é dado como certo hoje, será aceite amanhã. A ausência de estudos clínicos que incluam este grupo etário em particular exige de cada um de nós, maior compreensão da fisiopatologia das doenças, das alterações fisiológicas associadas ao envelhecimento e demanda uma avaliação cuidadosa e individualizada, sensível às particularidades de cada indivíduo. Numa era em que todos nós somos bombardeados por normas e guidelines de entidades nacionais e internacionais, que nos dão a sensação (nem sempre real!) de estarmos a tomar as melhores decisões, a ausência destas pode ser encarada como uma oportunidade de olharmos o nosso doente na sua singularidade, exigindo de nós um sentido mais crítico e mais humano. Ora, não é isto mesmo que é ser médico?

Recentemente, assistimos à contratualização de um novo indicador institucional/ regional, que avalia a prescrição de mais de 5 fármacos cronicamente a doentes com idade superior a 75 anos. Como médicas a trabalhar nos cuidados de saúde primários, identificamos de imediato alguns problemas inerentes à aplicação deste indicador:

- O limite instituído de 5 medicamentos, para além de parecer algo desajustado à realidade dos nossos utentes, que frequentemente fazem muitos mais, também não foi, até à presente data, sustentado por evidência científica. Naturalmente que devemos procurar controlar todos os nossos doentes com o menor número de fármacos possível, pelo risco de efeitos adversos e interações, e esta atitude é particularmente importante nos indivíduos mais idosos. Contudo, se para cada patologia os objetivos de tratamento acima dos 75 anos ainda não são claros, com que base podemos inferir que um limite de 5 fármacos para todos estes doentes, independentemente das suas comorbilidades, se traduz em maior benefício?

- O controlo de certas patologias envolve necessariamente a prescrição de vários fármacos em simultâneo. A título de exemplo, um doente internado por enfarte agudo do miocárdio, tem atualmente alta do hospital medicado com dois antiagregantes plaquetários, dislipidemiante, protetor cardíaco e protetor gástrico. Apenas com uma patologia já atingimos os 5 fármacos.

- As prescrições medicamentosas realizadas em contexto hospitalar, acabam por ser renovadas pelo médico de família muitas vezes por uma questão de gestão de recursos (é muito mais fácil para o utente recorrer aos cuidados de saúde primários), pelo que não será justo que seja o médico de família a prestar contas relativamente a estes medicamentos.

De realçar, ainda, que estes doentes estão também mais limitados, no que toca a mudança dos seus hábitos de vida, de entre os quais de destacam a prática de exercício físico e as alterações dietéticas. Neste sentido, os fármacos desempenham um papel importante para a obtenção do controlo adequado das duas doenças e para a redução de morbilidade associada.

O envelhecimento da população mundial irá certamente determinar o aparecimento de mais evidência para o tratamento mais adequado deste grupo etário, o que contribuirá para uma prática clínica mais homogénea e de maior qualidade.

É justo e apropriado que os médicos de família sejam envolvidos neste processo e que conheçam, à partida, todas as "regras do jogo", pois melhor que ninguém conhecem os seus utentes e a comunidade. Estes objetivos serão atingidos pela melhor compreensão do processo de envelhecimento, pelo aparecimento de novas terapêuticas e também pelo resultado de melhores cuidados de saúde instituídos ao longo da vida, que permitirão que o idoso com mais de 75 anos seja mais activo, independente e capaz de controlar as suas patologias com menos medicação. Até esse momento o caminho ainda parece longo, sendo essencial promover a reflexão e a discussão das atitudes e dos objectivos terapêuticos que permitam efectivamente preservar a qualidade de vida dos nossos doentes.

 

Lúcia Torres e Joana Neiva

Internas de 4º ano de MGF-USF Viver Mais Castêlo da Maia

 

 

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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