Rui Cernadas: uma espécie de homenagem
DATA
29/07/2013 12:38:15
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: uma espécie de homenagem

Venho falar-vos da chegada dos novos clínicos; dos internos de especialidade recém-chegados ao ACES que, com o seu entusiasmo, alegria, capacidade, força e juventude, se mesclam com os mais velhos e em especial, com os orientadores de formação e a direcção do ACES.

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É certo que ao longo de toda a vida se aprende - e muito - com a própria vida, com os outros e connosco...  Com os erros cometidos. E é igualmente certo que se pode aprender, quer em consequência de processos continuados de aprendizagem - estruturados ou organizados - quer através de actos ou iniciativas pontuais ou casuais, mais ou menos específicos. Finalmente, é verdade que os livros, como as pessoas, são elementos essenciais neste continuum formativo e de aquisição de conhecimento.

Uma visão despretensiosa, sob este ponto de vista, ficaria incompleta sem duas referências adicionais. A da internet, hoje porventura o mais forte, apelativo e determinante dos poderes, em crescendo de importância e repercussão - não esqueçamos o fenómeno da primavera magrebina ou as revoltas turcas ou brasileiras, tão recentes e espectaculares. E a das viagens, onde a capacidade de apreensão e de retenção de imagens, de exemplos e de memórias nos pode, não só marcar, como ajudar a abrir novas portas, ou como prefiro dizer, novos trilhos...

Vem isto a propósito duma recente deslocação, em serviço, a Lamego e ao "II Dia do Interno de Medicina Geral e Familiar do ACES Douro Sul".

Situada na esfera de influência do ACES Douro Sul, Lamego surge como a principal urbe de um conjunto de oito concelhos agrupados numa extensa área geográfica e que inclui ainda Tarouca, Moimenta da Beira, Sernancelhe, Penedono, São João da Pesqueira, Tabuaço e Armamar.

Uma população de gente rija, em terras duras, de climas extremos e sentimentos fortes, dispersa em aglomerados muito distantes entre si, onde as divisões são bem menores do que as necessidades...

Não vos venho aqui falar das imensas belezas naturais, quer paisagísticas, quer monumentais dos vários concelhos, nem dos muitos quilómetros de estradas, na generalidade muito agradáveis, que os ligam mais do que separam. Nem vos vou falar do conjunto de equipamentos e de edifícios dos cuidados de saúde primários (CSP) que, salvo dois casos, são muito bons e bem localizados, além de renovados ou melhorados muito recentemente, numa lógica estruturante dos cuidados dispensados que, e bem, optou pela concentração de oferta e apoio domiciliário complementar, num excelente exemplo de interligação do SNS com as autarquias locais. Nem venho, enfim, falar da dedicação dos colegas médicos e de outros profissionais que aí se fixaram em anos difíceis, à altura bem mais "longínquos" de tudo e de todos, criando na generalidade da presença no serviço médico à periferia uma linha de continuidade assistencial, profissional e familiar.

Escrevia Miguel Torga, médico e escritor duriense, nos seus Diários: "O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão".

Venho, isso sim, falar da chegada dos novos clínicos; dos internos de especialidade recém-chegados ao ACES que, com o seu entusiasmo, alegria, capacidade, força e juventude, se mesclam com os mais velhos e em especial, com os orientadores de formação e a direcção do ACES.

Trata-se dum movimento realmente estratégico e decisivo no investimento importante para o futuro do SNS e dos CSP, para o prestígio do ACES, tão interior e carenciado.

Concelhos com um único médico ou com um casal de médicos, permitem ver enormes dificuldades na gestão da dispensa de cuidados, mesmo que não emergentes, e o imperativo de um espírito de entreajuda e compreensão alargada, que nunca será demais exaltar.

Esperemos que os passos adoptados confirmem a aposta feita no Douro Sul e que os jovens e futuros especialistas da MGF, em particular os que aí encontraram "nidificação", possam concretizar todas as suas melhores expectativas!

A região agradece o país reconhece!

Rui Cernada
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Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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