José A Santos: cara e coroa
DATA
29/07/2013 12:42:46
AUTOR
Jornal Médico
José A Santos: cara e coroa

Não sendo possível ter um gabinete aberto directamente para a sala de espera, assim como não seria possível realizar concomitantemente uma observação concentrada do paciente em frente e uma análise dos movimentos populacionais nessa sala, resta-nos a nós, médicos, retirar a maior quantidade de sumo clínico de cada oportunidade inesperada que nos surge

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O gabinete médico poderá ser, como sabemos, tão reconfortante quão intimista. Naquele simples espaço entre quatro paredes, existe um tempo, um vácuo e um vazio prontos a serem preenchidos com olhares, gestos, sorrisos, lágrimas e palavras produzidos no momento. E todo esse manancial de registos fica ali retido, sem fuga possível a partir daquele cubículo hermética e eticamente fechado.

Se tais características constituem pressupostos que salvaguardam o sigilo médico e favorecem a harmonia de uma relação médico-paciente, também será certo que, naquela caixinha de quatro paredes, apenas se imprimem as caras que se fabricam no momento, as palavras que se seleccionam na resposta à entrevista clínica e somente os gestos que aquele ambiente fechado poderá permitir. Nesta perspectiva em que apenas vemos as caras, as coroas que não entram no gabinete constituiriam igualmente uma valiosa informação clínica em contextos particulares e que ajudariam o médico numa avaliação mais assertiva de um determinado quadro.

Não sendo possível ter um gabinete aberto directamente para a sala de espera, assim como não seria possível realizar concomitantemente uma observação concentrada do paciente em frente e uma análise dos movimentos populacionais nessa sala, resta-nos a nós, médicos, retirar a maior quantidade de sumo clínico de cada oportunidade inesperada que nos surge.

E poderá ser uma oportunidade, uma ida até à secretaria da unidade (essa sim, aberta para a sala de espera) para resolver um problema administrativo que surja durante a consulta e que interfira com a prática clínica: ou porque o utente tem um aspecto clínico pendente e dependente do secretariado, ou porque, simplesmente, se esgotou o papel de impressão e há que ir ao stock mais disponível junto ao secretariado.

Se habitualmente tal é vivenciado como um entrave que complica a nossa constante luta contra o tempo, partilho aqui o facto de que, por mais do que uma vez, denotei a preciosidade de tais visitas rápidas à secretaria. Essa riqueza foi conferida pelas possibilidades que tive de, em breves segundos/minutos captar o ambiente, a postura e os comportamentos das gentes que aguardavam, entre elas alguns pacientes que esperavam a minha chamada. Traduzindo melhor, foram as possibilidades que tive de conhecer as coroas pouco antes de conhecer as caras. E curiosamente, em algumas situações, foi o contraste entre a cara e a coroa que me fez ver que algo "não bate a cara com a careta!".

Não serão surpreendentes os exemplos que vos relembro agora: todos conhecemos as caras reveladas em atitudes apelativas, tão profundamente dramáticas que podem ser, por parte do médico, tão alarmantes quão vítimas de uma desvalorização infiel e vil. Uma atitude em nós que poderá ir do totalmente manipulável até ao 100% impermeável. Ambos extremos conduzem a um grande risco clínico. Daí que o conhecer as coroas permite estabelecer um contraste que seja ponderador, embora, claro, passível de erros.

Um exemplo específico constituirá aquela paciente que longe da sua percepção de ser alvo de um olhar médico é a dona da conversa na sala de espera! Ela levanta-se, ela senta-se, ela mete conversa com os vizinhos que encontra por ali, ela fala em tom elevado... Porém, quando é chamada ao gabinete médico, o percurso pelo corredor torna-se como que uma longa passagem pelas profundezas, tal é a atitude curvada, cabisbaixa, com discurso arrastado... Como se carregasse o mundo nos ombros e tal justificasse as lombalgias intensas que a limitavam em todas as actividades quotidianas. Para esta paciente, o exame objectivo torna-se um martírio, tal é o desconforto despertado na palpação da musculatura paravertebral e o turbilhão de dor só de deitar e levantar na marquesa. Por momentos até se pensa que, na ida à secretaria, se poderá ter confundido com outra pessoa.

Outro exemplo é o paciente que fala em tom áspero com os secretários clínicos, ameaça fazer reclamações e protesta contra uma suposta incompetência nos serviços prestados, por motivos sem nexo aparente. Sendo incitador da agitação entre as mentes (mesmo as mais pacíficas) que aguardam na sala de espera, este paciente é, não-raramente, uma "paz d'alma" dentro do gabinete. Apresenta-se com uma atitude adequada e sorridente, pelo que quase (quase!) nos faz esquecer as palavras "bem bonitas" que ouvíamos na secretaria sobre o nosso atraso na consulta e que tiveram um fim brusco coincidente com a nossa aparição no secretariado clínico.

Devo confessar, porém, que estas visitas-relâmpago à secretaria e à sala de espera têm especial valor na observação das crianças que vão dando alegria ao espaço, enquanto brincam aos mais diversos jogos, riem, desrespeitam os raspanetes mais severos dos pais ou consomem produtos excessivamente calóricos. É deste júbilo que provém o Joãozinho de 7 anos que, segundo a mãe, tem tido "febre alta" (não mediu temperatura mas "sentiu-o muito quente") e "não come nada há 5 dias". Felizmente para nós e sobretudo para o próprio Joãozinho, o estado geral é óptimo, pelo que, pensamos nós, "pode não andar a comer o habitual, mas alguma coisa deve tolerar, não?". A resposta é um redondo "não! Não come nada de nada nestes dias! E tudo que tenta comer e beber, vomita!"...Eis algo que nos surpreende depois de ver a força do Joãozinho a pegar no irmão mais novo ao colo e a protagonizar corridas de velocidade cuja meta seria a porta de entrada da unidade, mas acaba por ser inevitavelmente a bengala de uma velhinha, na qual o João tropeça...Tal resulta, pois claro, num longo mas consolável choro. E tanta lágrima corre pelo rosto do (notoriamente hidratado) Joãozinho...

Eu já havia partilhado anteriormente, em crónicas passadas, as frutuosas vivências clínicas retiradas das salas de espera, enquanto um dos elementos daquele espaço, aguardando o meu nome a soar pelo intercomunicador e longe do meu papel enquanto médico. Creio, no entanto, que apenas agora reflicto verdadeiramente sobre o grande valor destas observações à la minute. Tal como as fotografias à la minute, são pouco fornecedoras de grande detalhe mas, não-raramente, perfeitamente satisfatórias para caracterizar um cenário. Em algumas situações, perfeitamente reveladoras das coroas que se juntam às caras.

Todos estes parágrafos deixam-me a pensar: seria de uma grande inocência acreditar que, no íntimo gabinete médico, as gentes nos trazem as caras mais fiéis ao seu interior sob o lema popular "nunca mentir ao padre nem ao médico!". Porém, também seria talvez errado pensar que as coroas adquiridas no seu contexto social e funcional revelariam verdadeiramente aquilo que tantos pacientes aguardam colocar somente em cima das mãos do seu médico. Portanto, dou comigo a concluir que são estas pequenas oportunidades do quotidiano clínico que nos permitem adquirir tanto as caras como as coroas, resgatando informação clínica que poderá ter um valor inigualável.

Assim é a vida! Bom trabalho!

José Agostinho Santos
Médico de Família
Unidade de Saúde Familiar Dunas, ULS - Matosinhos

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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