Rui Cernadas: Patrick Modiano
DATA
10/09/2013 07:09:57
AUTOR
Jornal Médico
Rui Cernadas: Patrick Modiano

As cidades, como as gentes, andam, mudam, sofrem, envelhecem e se não morrem, necessitam, mais que não seja, de se transformarem

Versão integral apenas disponível na edição impressa

 

rui_cernadas.jpgDevo confessar que quando, já lá vão uns anitos, propus ao Miguel Mauritti iniciar uma coluna no Jornal, sob o título que conhecem, era meu propósito partilhar convosco algumas das minhas leituras e reflexões consequentes. O tempo foi passando e não que eu tivesse deixado de ler e menos ainda de comprar livros, apesar do IVA, ou até desistido de escrever - seria como abdicar de respirar - mas os assuntos iam-se sobrepondo, umas vezes técnicos, outras políticos de tal modo que alteraram bastas vezes as intenções iniciais.

Outras ocasiões, assinaladas de resto, abordei temas ou dicas que leitores interessados, e a quem devo público agradecimento, me fazem chegar pelo correio electrónico... O novo correio que levou, por exemplo, ao encerramento de muitas agências espalhadas pelo país fora... Dir-se-ia até que, curiosa e paradoxalmente, agora que o Estado reduziu drasticamente o número de analfabetos, a escrita se volatilizou em novos modos e formas, tornando obsoletos e desnecessários os carteiros e os correios, que agora sobrevivem à custa da vendas de discos, agendas, lotarias e também de livros...

Mas não venho falar dos CTT nem de se devem, ou não, ser privatizados.

Vou voltar aos livros! E a um autor, Patrick Modiano, um dos nomes maiores da literatura francesa contemporânea, várias vezes premiado, uma das sortes com o Prémio Goncourt, em 1978.

E a uma obra, breve e fácil de ler mas difícil de aceitar, "No café da juventude perdida" (edição portuguesa de Abril de 2009 da ASA II, S.A.).

A história ou a narrativa - como se diz hoje em dia - parece simples e até, provavelmente, semelhante à de muitas das nossas vidas, aqui ou ali.

Se fosse passada a filme (e nem sei se o foi...), não ficaria certamente muito cara à produção, uma vez que se passa sempre na Cidade Luz, confinada a alguns dos seus bairros, sem recurso a tecnologias sofisticadas ou truques espectaculares, limitando-se sobretudo - e bem - aos efeitos especiais que resultam dos percursos de vida de todos os homens e mulheres!

Um velho café, à parisiense, como também já houve pelo Porto, meia dúzia de ruas e avenidas ou estações de metro, como referências ou marcas que nos garantem o extravio ou perda de sentido e das pessoas.

Referências que sempre nos escapam quando queremos evocar e enquadrar alguma memória dos tempos idos...

Muitas pessoas no livro.

Umas mais novas, outras mais velhas, umas que se sabe quem são, outras que nem tanto.

Algumas parecendo que a vida lhes custa, outras a quem a mesma existência lhes parece passar ao lado e outras, enfim, que são a vida em si mesma!

As cidades, como as gentes, andam, mudam, sofrem, envelhecem e se não morrem, necessitam, mais que não seja, de se transformarem.

A narrativa de "No café da juventude perdida" é uma viagem arrebatante e sufocante, dir-se-ia um quase romance, onde nada e tudo acontece, em simultâneo, uma dissonância sentida e adivinhada.

Serve para nos lembrar que há quem, no meio de muita gente, esteja tremendamente só.

Porque quer?

Porque não sabe deixar de estar?

Porque é genético?

Porque é o fado?

Há quem afirme que o comportamento suicidário acaba por assumir contornos metodológicos duma certa aprendizagem da resolução dos problemas. Outros salientam mesmo que o suicídio, ou as tentativas, não são uma patologia, mas antes uma forma de comportamento. Alguns, ainda, sublinham a importância da repercussão do suicídio nos familiares e amigos...

Contudo, em qualquer caso, chega-nos entender, no limite, ou compreender o fenómeno e a decisão?

Para nós, médicos, é uma realidade próxima e não desconhecida.

Mas podemos e devemos, sobretudo quando saímos dos livros e passamos ao quotidiano dos nossos exercícios profissionais e éticos, estar mais atentos e preocupados.

Não basta, como no livro de Modiano, constatar e assistir:

 - "Já está. Deixa-te ir."

Rui Cernadas
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Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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