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DATA
10/09/2013 07:16:47
AUTOR
Jornal Médico
O Pentagrama

Se a OM quiser zurzir os autores do BI dos indicadores para contratualização, tem muito por onde pegar e...  Com carradas de razão

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Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem
Pitágoras

No nº de 21 de junho do JM, foi dado o mote para o que pode vir a ser uma boa (no sentido de profícua) controvérsia sobre indicadores de desempenho dos CSP. Em causa o indicador 65, que limita o número desejável de fármacos a doentes com idade superior a 75 anos. Lúcia Torres e Joana Neiva chamam a atenção, e com carradas de razão, quão fácil é superar esta barreira em doentes de patologias frequentes e nem por isso complexas, se recorrermos às boas práticas da terapêutica. Que é como quem diz: só renunciando ao estado da arte e às NOC da DGS seria possível cumprir na íntegra este indicador. Por outro lado, o veterano Rui Cernadas recorda os inconvenientes da polimedicação: interacções medicamentosas, fármacos de duvidoso benefício, sobrecarga financeira para os utentes, os riscos de confusão inerentes às tabelas terapêuticas longas, etc.. E também com carradas de razão.

Mas as divergências entre esta tese e a antítese parecem-me facilmente superáveis à luz da dialética hegeliana. A primeira via seria subir a fasquia do indicador, imaginando um caso de múltiplas patologias. Suponhamos um diabético, hipertenso, padecendo de DC, com HPB, coxartrose e Parkinson. Julgo que todos concordarão que dúzia e meia de fármacos não seriam demais, segundo o estado da arte, para controlar este doente e que o ajuntamento de tantas maleitas num mesmo paciente não é fantasia. Mas a tentação de subir o indicador para a quinzena não seria a melhor solução, como é fácil de entender. Se se pretende identificar doentes excessivamente medicados um tecto tão alto baixa demasiado a sensibilidade. Um doente medicado desnecessariamente com cinco fármacos nunca seria identificado por um indicador tão dilatado. Por outro lado, um número limite muito baixo perde a especificidade ao assinalar como exagerada a prescrição de numerosos doentes rigorosamente tratados dentro das boas normas farmacológicas.

Tentemos outra via. Admitir um limite de fármacos e, conjuntamente, uma percentagem de população alvo que o possa ultrapassar, parece ser a forma menos má de identificar os excessos de polimedicação sem cair no ridículo de "trazer na rede" doentes com elevado número de fármacos correctamente prescritos. Assim sendo, o que se pretende é não ter mais de X de idosos com Y anos ou mais, medicados com mais de Z fármacos. Desconheço as razões da escolha do pitagórico número cinco, mas se a rejeição do indicador se basear neste digito, arranje-se outro mais apelativo: sete do menorath, ou o oito ao gosto oriental.

O repúdio do CRN da OM em relação a este item pareceu-me um tanto descabido. Começa por errar no nº limite de fármacos aceite pelo indicador (são quatro e não cinco). Depois temos as costumeiras acusações de "economicismo" - termo cujo abuso já esvaziou de qualquer significado com préstimo - e os lugares comuns que não dignificam a OM. Demagogia e pouco mais. Pena é que a OM alinhe no bota abaixo e no "popularmente correcto". Será que estes colegas nunca se depararam com doentes com mais de noventa anos, acamados, medicados com hipolemiantes de última geração, associações de anti-hipertensores sofisticados (apesar de terem TAS de dois dígitos), antidepressivos totalmente desadequados e nootrópicos.

Se a OM quiser zurzir os autores do BI dos indicadores para contratualização, tem muito por onde pegar e...  Com carradas de razão.

Vejamos os relativos à diabetes. No meio de toda aquela solenidade bolteana define-se como universo a avaliar o "diagnóstico de diabetes" e não, "diabéticos com compromisso de vigilância" na unidade de saúde. Quer dizer: passam a ser responsabilizados os CSP por aquilo que não podem ser responsabilizados: pelos cuidados prestados a diabéticos tratados noutras instituições, ou que recusam tratamento! Um expediente manhoso para distorcer a avaliação.

Governação Clínica
Editorial | Joana Romeira Torres
Governação Clínica

O Serviço Nacional de Saúde em Portugal foi criado e cresceu numa matriz de gestão napoleónica, baseada numa forte regulamentação, hierarquização e subordinação ao poder executivo, tendo como objeto leis e regulamentos para reger a atividade de serviços públicos no geral, existindo ausência de regulamentação relativa à sua articulação com os serviços sociais e económicos.

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